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Como as pornochanchadas retrataram a ditadura

Censura, tortura, milagre econômico, revolução sexual: como o cinema mais visto no Brasil nos anos 1970 retratou esse período histórico

    A pornochanchada, gênero que misturava comédia e erotismo, foi o carro-chefe do cinema brasileiro na década de 1970. O rótulo abarca grande parte da produção nacional da época e atraía um volume de espectadores suficiente para fazer grandes bilheterias e sustentar as produções.

    Apesar da popularidade e do sucesso comercial, o cinema mais visto pelos brasileiros no período da ditadura militar (1964-1985) é normalmente desassociado do contexto político em que foi produzido. Mas as produções oferecem pistas valiosas daquele período histórico — e é isso que explora o documentário “Histórias que nosso cinema (não) contava”, que estreia nesta quinta-feira (26) na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, na cidade histórica mineira.

    “A gente nunca pensa na pornochanchada como uma fonte histórica”, diz Fernanda Pessoa, diretora do filme, em entrevista ao Nexo. “Ela é sempre vista como entretenimento, muita gente acha que foi um grande problema na nossa história do cinema, que causou danos ao cinema [brasileiro]. É muito inusitado, a gente nunca procura como esse cinema, que era o mais visto e o mais produzido, retratava a sociedade”.

    Uma característica essencial da pornochanchada e que também é um traço do regime militar, segundo Pessoa, é a modernização arcaica — os filmes lidam com valores “novos” da sociedade brasileira, como liberação feminina, a iniciativa das mulheres no sexo, a implementação de um capitalismo avançado e de uma indústria cultural. Mas, ao mesmo tempo, essa modernização — propagada pela ditadura e retratada nos filmes — é conservadora: prega a manutenção das tradições, da ordem, da família nuclear, composta de pai, mãe e filhos.

    O milagre econômico no cinema

    O documentário é feito exclusivamente de montagem de cenas de 30 filmes que foram considerados pornochanchadas. Não há entrevistas ou narração em off, recursos comuns no cinema documental.

    As imagens contam a história do Brasil a partir do golpe militar em 1964. Tendo esse fato como ponto de partida, os temas da época presentes nos filmes renderam a divisão em alguns segmentos — um deles trata do chamado milagre econômico, a política econômica desenvolvimentista do regime ditatorial.

    “É uma representação dessa tentativa de transformar a classe C numa classe consumidora. Isso aparece muito: cenas de bolsa de valores, capital estrangeiro chegando no Brasil”, diz a diretora. É menos comum encontrar comentários sobre o milagre econômico nos filmes sobre a ditadura, segundo ela. Na filmografia fora da pornochanchada, fala-se mais de temas como tortura e repressão, por exemplo. “A gente não entende muito bem como isso [a política do milagre] se dava, quais eram as consequências diretas”, diz. 

    O êxodo rural também está presente. A industrialização motivou a ida de muita gente para as capitais, e a oposição entre campo e cidade está representada nas pornochanchadas.

    Na pornochanchada do Rio de Janeiro, nos filmes de Carlo Mossy e Aníbal Massaini Neto, por exemplo, o milagre econômico vai dar certo e o carioca é bon vivant: compra carro e realiza trocas monetárias ou de poder em troca de sexo. “[Esses filmes] mostram que é legal consumir, que a indústria cultural é legal. Mostram esse ideal do milagre econômico concretizado, essa classe consumidora se divertindo nas pornochanchadas”, diz Fernanda Pessoa.

    Já em filmes da Boca do Lixo — polo cinematográfico que existiu em São Paulo a partir dos anos 1960 — também rotulados de pornochanchadas na época, isso aparece de outra forma. Filmes como “Noite em Chamas” (1977), de Jean Garret, usado por Pessoa no documentário, foram classificados como “pornô social” e tratam da exploração do trabalhador, de um indivíduo que não se encaixa muito bem e não tem esperança de que o milagre econômico dê certo.

    Tortura, repressão e condição das mulheres

    Quando se trata de filmes nacionais que falam da tortura a civis no período militar, o filme “Pra Frente, Brasil” (1982), de Roberto Farias, lançado já no período de reabertura política, foi um marco. Alguns anos antes, porém, a pornochanchada “E Agora José? - Tortura do Sexo” (1979), dirigida por Ody Fraga, já havia falado, sob o pretexto do sexo, de tortura a civis e perseguição aos “subversivos”. “Pra Frente, Brasil” foi barrado pela censura, enquanto “E Agora José?” conseguiu sair ileso.

    Historicamente, o filme de Fraga ficou como um filme “menor” e é pouco conhecido. O espectro ideológico em que as pornochanchadas eram colocadas era ambíguo: pela esquerda, eram vistos como filmes despolitizados, amigos do regime. Pela direita, eram mal vistos por falarem de traição, revolução sexual, e conterem nudez.

    De forma geral, as pornochanchadas retratam as mulheres de forma estereotipada e subserviente aos homens. Mas também há personagens femininas complexas e autônomas. “As Aventuras Amorosas de um Padeiro” (1975), dirigida por Waldir Onofre, que teve algumas cenas usadas no documentário, trata de aborto, divórcio e racismo.

    Há ainda uma onda trazida do cinema americano para as pornochanchadas. São os “WiPs” (Women in Prison), os filmes em que mulheres estão aprisionadas em uma instituição, internato, prisão ou hospital.

    Escola Penal de Meninas Depravadas” (1977), dirigido por Antonio Meliande, ”Internato de Meninas Virgens” (1977), de Oswaldo de Oliveira, “Reformatórios das Depravadas” (1978), de Ody Fraga e “O Porão das Condenadas” (1979), de Francisco Cavalcanti,  são alguns dos WiPs brasileiros classificados como pornochanchadas.

    O tratamento dado a essas personagens é violento: há cenas de tortura, mulheres sendo chicoteadas nuas. “Há quem fale que isso é um retrato do que as pessoas sabiam que estava acontecendo nos porões da ditadura. Esses filmes começam a aparecer na segunda metade da década de 1970”, diz Pessoa. 

    A preservação desse cinema

    Os filmes da Boca do Lixo se tornaram “cult” recentemente. O mesmo resgate histórico não aconteceu com as pornochanchadas cariocas, que são vistas como entretenimento puro, filmes de baixa qualidade e de mau gosto, segundo a cineasta.

    O estigma que ainda ronda esse período do cinema nacional dificultou a pesquisa da diretora. De acordo com ela, muitos filmes estavam mal conservados, o trâmite burocrático para adquirir os direitos foi complicado, e a crise institucional na Cinemateca Brasileira, onde estão armazenados muitos deles, atrasou o processo. 

    “O Canal Brasil tem feito o trabalho de remasterizar esses filmes. Mas, em geral, não tem ninguém olhando para eles como patrimônio histórico”, diz. Um dos propósitos de “Histórias que nosso cinema (não) contava” é “lançar luz sobre esses filmes” marginalizados na história do cinema brasileiro.

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