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Como a Europa age para impedir a circulação de ‘notícias falsas’ plantadas pela Rússia

União Europeia acusa Moscou de disseminar boatos para influenciar eleições presidenciais marcadas para 2017. Bloco cria agência de contra-informação

     

    A União Europeia tem, desde 2015, uma agência ligada ao seu serviço diplomático, composta por jornalistas e oficiais de governo, dedicada exclusivamente a combater a disseminação de “notícias falsas” associadas ao bloco ou a seus países membros. A principal fonte dessas “notícias falsas”, segundo o EEAS (Serviço de Ação Externa Europeu, na sigla em inglês), é a Rússia.

    A agência, chamada East StratCom, subordinada à EEAS, ganhou para o ano de 2017 um orçamento incrementado. O aumento equivalente a R$ 2,7 milhões, foi possível graças a cortes feitos em outros serviços diplomáticos europeus, e servirá para financiar a contratação de funcionários adicionais pelo período de seis meses.

    Esse aumento não surgiu por acaso. Alemanha, França e Holanda são três das cinco maiores economias da União Europeia, quando o Reino Unido, que está em processo de saída do bloco, é desconsiderado. Todas elas vivem, em 2017, um ano de eleições nacionais que pode mudar drasticamente o futuro do bloco, caso partidos eurocéticos (que pregam o fim da União Europeia, ou a simples retirada de seus países) sejam eleitos. O cenário, impensável até alguns anos atrás, vem se tornando mais palpável nos últimos anos.

     

    Na França, a extrema-direita de Marine Le Pen lidera as pesquisas de intenção de voto para presidente no primeiro turno. Na Holanda, o partido eurocético deve ser o mais votado nas eleições parlamentares, embora a chance de conseguir constituir maioria no Congresso seja menor. E na Alemanha, a premiê Angela Merkel vive seu momento mais turbulento no cargo que ocupa há 12 anos, ao mesmo tempo que o partido ultranacionalista AfD ganha espaço.

    Com esse contexto, fica mais fácil entender as preocupações  do bloco europeu. A possibilidade da Rússia tentar influenciar essas eleições por meio da disseminação de informações falsas é tida como certa por oficiais europeus, como Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu. O remédio desenvolvido foi a ampliação da East StratCom.

    “A estratégia russa é enfraquecer a União Europeia [... usando para isso] todos os tipos de atividades, de violações ao espaço aéreo, campanhas de desinformação, ciberataques para interferir nos processos políticos da União Europeia”

    Donald Tusk

    Presidente do Conselho Europeu

    Um estudo da EEAS divulgado pela agência de notícias AFP aponta que, em 2017, Merkel deverá ser alvo cada vez mais frequente de campanhas difamatórias, promovidas por sites russos de notícias falsas.

     

    Agência tem notícias pró-Rússia como inimigo declarado

     

    Ao acessar o site da East StratCom, as primeiras palavras vão direto ao ponto: “Desinformação pró-Kremlin: falsas notícias que apoiam políticas russas”. Kremlin é o palácio histórico do governo russo, localizado na capital Moscou. Em seguida, em letras ainda mais garrafais: “Não seja enganado. Questione ainda mais”.

    A percepção europeia é que as agências de notícias falsas russas têm o objetivo claro de desestabilizar os países do bloco, criando o sentimento de que as instituições locais são ineficientes, na tentativa de criar um ambiente favorável à ascensão de líderes eurocéticos que, ao trabalharem contra o bloco, satisfazem interesses geopolíticos do Kremlin na região.

    Wilhelm Unge, porta-voz do serviço de inteligência da Suécia, disse ao “The New York Times” que os russos usam tanto grandes agências estatais de informação - a “RT” e a “Sputnik” - quanto outras menores, difíceis de rastrear e sem vínculo comprovado com o governo, para disseminar essas notícias.

    Os primeiros a notarem a estratégia foram países vizinhos da Rússia, como Lituânia, Letônia e a República Tcheca - a última, localizada no meio do caminho entre a Europa Ocidental e a Rússia.

    “Nós [Letônia] recebemos a transmissão deles [russos] e parte da população assiste todos os dias. Eles dão interpretações não só do que acontece na Rússia, no resto do mundo, na Ucrânia, mas também de questões domésticas [da Letônia] - o que está acontecendo em nosso país, e é aí que mora o perigo”

    Sanita Pavᶅuta-Deslandes

    Embaixadora da Letônia para a União Europeia

    O fenômeno, que era mais concentrado nos países que faziam parte do bloco soviético - liderado pela Rússia até a extinção da URSS, em 1991 -, agora é denunciado por toda a União Europeia.

    Em março de 2015, os europeus consideraram que a Rússia fazia uma campanha de desinformação sobre a situação da Ucrânia - que teve territórios da Crimeia e Sebastopol anexados por Putin, e vive um conflito desde então. Com isso, foi estabelecido que os países europeus criariam uma força tarefa para combater o problema. Em setembro, surgiu a East StratCom.

    Três principais pontos da agência

    Objetivos

    A agência tem três principais metas, segundo a EEAS: a divulgação e promoção de políticas internas para os vizinhos orientais que não fazem parte do bloco, o fortalecimento das mídias de informação confiáveis tanto dos vizinhos quanto do próprio bloco, e o trabalho de combate específico à divulgação de notícias falsas.

    Modo de atuação

    A agência tenta divulgar mentiras que circulam nas mídias utilizando essas mesmas mídias. Semanalmente, produz duas newsletters sobre as principais notícias falsas que são enviadas por email a todos os assinantes, além de usar páginas oficiais no Twitter e Facebook para esclarecer informações incorretas.

    Como é formada

    Por uma equipe de especialistas em União Europeia, jornalistas e comunicadores que trabalham em tempo integral no projeto, e são fluentes em várias línguas - inclusive e principalmente, russo.

    O canal de TV mais popular da Letônia, TV3, criou um programa no horário nobre de domingo que se concentra apenas em desmentir informações falsas.

    Já a República Tcheca denunciou, no fim de 2016, o que considera uma “guerra de informação” protagonizada pela Rússia em seu território. O ministro do interior do país, Milan Chovanec, disse que criaria uma equipe própria do ministério para combater o problema.

    2.500

    notícias falsas, em 18 línguas diferentes, foram encontradas pela East StratCom desde que a agência foi criada. O número é considerado ainda menor do que o volume de informações falsas circulando na rede

    O presidente do país, Vladimir Putin, também usa recorrentemente o argumento de que existe um sentimento anti-Rússia criado e alimentado pelas potências ocidentais - o que chama de “Russofobia”.

    Questão de segurança nacional

     

    A fala do ministro tcheco, que ocorreu durante uma reunião da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) - aliança militar ocidental criada durante a Guerra Fria para se contrapor a interesses geopolíticos da União Soviética - evidencia o status de segurança nacional alcançado pelas notícias falsas.

    Elas se tornaram um fenômeno recentemente, e encontram principalmente na internet e nas redes sociais um terreno fértil para se alastrarem.

    Um dos momentos em que o tema ganhou mais atenção foi durante as eleições presidenciais nos EUA, em 2016. O Buzzfeed News mostrou como jovens de cidades pobres na Macedônia estavam enriquecendo com sites de notícias falsas pró-Trump. Quanto mais elas eram compartilhadas, mais acessos seus sites recebiam e, com isso, mais dinheiro com propaganda eles ganhavam.

    O fenômeno está diretamente ligado ao conceito de pós-verdade, ou seja, quando os fatos não têm importância para uma audiência que prefere acreditar naquilo que comprova suas opiniões pessoais, mesmo que seja mentira.

    As eleições americanas também foram palco para acusações feitas tanto pela CIA quanto pelo FBI de que a Rússia teria influenciado diretamente o resultado das urnas, ao atuar, por meio  de hackers, para influenciar a opinião pública contra Hillary Clinton e a favor de Trump.

    A possibilidade de que os russos deem continuidade a essa política, agora na Europa, utilizando para isso as notícias falsas, faz com que o alarme europeu fique ainda mais alerta.

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