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Qual é o problema dos sites de pesquisa de antepassados

É interessante descobrir fichas de imigração e árvores genealógicas. Mas e se alguém não quiser ser catalogado?

     

    Você provavelmente já deve conhecer o FamilySearch. Ele viralizou no Brasil em 2016 no Facebook. O serviço cataloga fichas de imigração e permite que qualquer pessoa busque seus antepassados - basta digitar o sobrenome para ter acesso à genealogia dos imigrantes e seus cartões, com informações pessoais e, em alguns casos, fotos.

    O site também permite que se construa a genealogia familiar, catalogando brasileiros - e estrangeiros, já que sua atuação é mundial - por meio do sobrenome.

    É quase irresistível fazer uma busca ali - e, de fato, é bem interessante encontrar as fichas históricas dos nossos antepassados. As fichas de imigração são do Arquivo Público de São Paulo. Estão disponíveis on-line cerca de 200 mil livros cartor��rios com registros de imigrantes que chegaram ao país no século 20.

    Quem está por trás do monumental processo de digitalização dos documentos é a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias - mais conhecida como igreja mórmon. O projeto religioso escaneia os arquivos, os envia para um servidor nos EUA e os disponibiliza na internet. Este vídeo, da própria igreja, explica como funciona o processo:

     

    A razão para o catálogo é religiosa: a igreja quer expandir a sua base de fiéis, segundo reportagem do site Motherboard, que visitou o local onde o arquivo é escaneado. Na religião, uma pessoa pode ser batizada mesmo após a morte.

    O FamilySearch incentiva que as pessoas forneçam informações sobre seus familiares para construir árvores genealógicas. Há um programa de indexação que busca voluntários para, segundo o site, “fazer com que os registros do mundo tornem-se pesquisáveis online”.

    Segundo os termos de uso do site, os registros gerais de genealogia e informações históricas limitadas aos perfis fazem parte de um “registro genealógico permanente ou histórico da Igreja”. Os dados podem ser repassados para “prestadores de serviços” e “parceiros da Igreja”. Na prática, quem tem login ou familiares podem acessar perfis de pessoas vivas. Já os dados de falecidos, que são registro público, são acessíveis a qualquer pessoa.

    Como o Brasil não tem uma lei sobre dados pessoais que estabeleça regras para esse tipo de coleta e repasse de informações, o que vale são as regras determinadas pelo próprio serviço. Não há informações, por exemplo, se uma família pode pedir para ter suas fichas removidas da internet.

    Quais são as implicações dos catálogos de pessoas

    Sites de pesquisa de pessoas e genealogia são bastante populares nos EUA. O Whitepages e o Spokeo, por exemplo, permitem que se busque pelo nome - e ele retorna com a cidade, idade provável, estado civil, rendimento e profissão da pessoa.

    Os conhecidos Ancestry e FamilyTreeNow têm um catálogo de antepassados e permitem que se desenhe a árvore genealógica familiar. Qualquer pessoa pode procurar e descobrir quem são os pais, filhos, sobrinhos ou netos que estão catalogados, assim como no que o FamilySearch se propõe a fazer.

    Pela facilidade na busca e a falta de regulação, esse tipo de serviço tem despertado preocupações em relação à privacidade e à segurança.

    Uma reportagem da revista “The Atlantic” sobre o FamilyTreeNow mostra que, nos EUA, a falta de regulação permite o uso abusivo dessas ferramentas (por exemplo, elas podem ser usadas para perseguir alguém).

    Como no Brasil o vácuo legislativo é semelhante, os problemas podem ser replicados para a nossa realidade. Há sites de catálogo de pessoas no país que são alimentados por “informações públicas”, ou seja, processos, diários oficiais e currículos. Só o Escavador, por exemplo, tem registros de 37 milhões de pessoas, segundo o próprio site.

    Apesar de os dados serem públicos, a dificuldade normal em encontrá-los offline é um obstáculo para que eles sejam utilizados por criminosos ou interessados em perseguir alguém. Uma vez que eles são catalogados e organizados, e tornados disponíveis para qualquer pessoa a poucos cliques, esse trabalho é facilitado - e quase não há o que fazer, neste momento, para impedir que isso aconteça.

    ESTAVA ERRADO: As buscas de pessoas vivas no FamilySearch são restritas a usuários e pessoas cadastradas no site, e não a qualquer um na internet, como a versão anterior deste texto dava a entender. A informação foi corrigida e dados foram acrescentados para a melhor compreensão às 12h24 de 6 de fevereiro de 2017.

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