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O que querem as empresas de táxis femininos. E quais as críticas ao modelo

Denúncias de assédio contra taxistas e motoristas no Uber motivam iniciativas, que ao mesmo tempo levantam debate sobre segregação

     

    As denúncias de assédio de passageiras contra taxistas e motoristas no Uber entraram na agenda das grandes cidades. Embora não existam números precisos, o debate mostra que o problema é recorrente. Agora, o mercado tenta responder a ele. Pelo menos duas empresas já oferecem a mulheres serviços de transporte com motoristas exclusivamente do sexo feminino.

    O FemiTaxi surgiu em 2015. Criado pelo empresário francês Charles Henry Calfat Salem, o aplicativo de táxi funciona como os outros, com a diferença de que só há motoristas mulheres. O criador disse ao Nexo que se inspirou nos relatos de assédio de taxistas que ouviu de amigas.

    A iniciativa aceita apenas mulheres regularizadas como taxistas e também só pode ser utilizada pelo público feminino. Começou a funcionar em dezembro de 2016 em São Paulo e em janeiro de 2017 em Belo Horizonte. Atualmente tem mais de 200 motoristas cadastradas em ambas as cidades - todas passam por avaliação e não podem ter antecedentes criminais, diz Salem.

    A espera pelo atendimento em regiões metropolitanas, como São Paulo, ainda é maior se comparada ao de aplicativos como o Uber. Em janeiro de 2017, na região do bairro Paraíso, próximo ao centro de São Paulo, o tempo de espera para usar o aplicativo chegou a 7 minutos. É por isso que atualmente o FemiTaxi está à procura de mais motoristas cadastradas.

    O assédio também motivou a criação do aplicativo Lady Driver, com lançamento previsto para fevereiro de 2017, e que funciona como um Uber dedicado só às mulheres, tanto motoristas quanto passageiras. Raquel Correa, uma das idealizadoras, acredita que o serviço pode incentivar também as motoristas que não se sentiam seguras. “É importante ter essa opção já que a nossa cultura machista deixa a mulher com medo. O serviço vem como uma opção tanto para as usuárias quanto para as motoristas”, disse ela ao Nexo.

    Por que aplicativos só para mulheres

    O assédio (e o medo de sofrê-lo) é o principal motivo por trás da criação de serviços de transporte exclusivos para mulheres.

    Em relação ao Uber, por exemplo, casos foram relatados ao jornal “Folha de S.Paulo”. A empresa, porém, não fala sobre o número total de denúncias. Procurada em novembro de 2016 pelo Nexo, a Uber disse que “não contrata motoristas, mas sim os motoristas que contratam a Uber para utilizar o aplicativo.”

    Casos também foram relatados entre taxistas que usam os apps 99Taxis e o EasyTaxi. Para o portal “Terra”, mulheres contaram que tiveram seus dados acessados por taxistas e foram assediadas por mensagens. Na época, a EasyTaxi disse que seus motoristas recebem treinamento e que bloqueia aqueles que não se adequam aos padrões da empresa.

    Em 2016, uma pesquisa realizada pelo aplicativo 99Taxis com 1,8 milhão de usuárias, mostrou que 56% das mulheres preferem e se sentem mais seguras com motoristas mulheres.

    Quais as críticas aos aplicativos só para mulheres

    Respaldados pela ideia de segurança e bem-estar da mulher, os aplicativos de táxi ou de motoristas pensados exclusivamente para mulheres também levantam uma série de questionamentos.

    “Me assusta porque nós estamos implementando uma verdadeira cruzada de mulheres contra homens. Chama-se segregação, e isso não adianta nada no que se deveria ter como mudança de comportamento”, disse a advogada Rosana Chiavassa em entrevista para a “Jovem Pan”. “Isso tem a ver com business e não com proteção à mulher.”

    Essa discussão é semelhante à que aconteceu na implementação do vagão rosa do metrô. As críticas são focadas na segregação e culpabilização da vítima, já que pressupõe que o problema são as mulheres ocuparem aquele espaço e não os homens que as assediam.

    “E se a mulher estiver no vagão ‘dos homens’ e for assediada, então a culpa será dela? E se ela estiver em outro lugar, a culpa vai ser da roupa? E se ela estiver toda coberta, a culpa vai ser do horário? Não. A culpa nunca é da vítima e não é segregando que se protege”, escreveu Clara Averbuck para a “Carta Capital”.

    Apesar das polêmicas, a política do “vagão rosa” funciona no Rio de Janeiro desde 2006, em Brasília desde 2013, e começou a funcionar em Belo Horizonte no fim do ano de 2016.

    Para a socióloga Marília Moschkovich, militante do movimento feminista e doutoranda pela Unicamp, as críticas ao serviço exclusivo para mulheres não é semelhante à que acontece com o vagão rosa, que é uma iniciativa de política pública.

    “Temos que entender que são coisas diferentes. A gente se ilude que o acesso ao consumo é acesso à cidadania. Acho que se vamos discutir as mulheres na cidade, a gente não vai falar de aplicativo de táxi, a gente vai falar de transporte público e não privado”, disse em entrevista ao Nexo.

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