O que quer o grupo que decidiu ‘ocupar’ a cracolândia

Segundo militantes, vigília somada a atividades culturais são forma de resistir a eventuais ações violentas contra pessoas em situação de rua

 

Um grupo batizado de A Craco Resiste está realizando vigílias diárias com atividades culturais e esportivas entre as 20h e 00h na região do centro de São Paulo conhecida como cracolândia. Elas tiveram início no dia 2 de janeiro e devem durar até no mínimo o final do mês.

Em entrevista ao Nexo, o artista visual Raphael Escobar, que é um dos organizadores da iniciativa, afirma que a ideia é evitar “ações policiais truculentas” durante a implementação das mudanças nos programas de atendimento a usuários de drogas prometidas pelo prefeito da capital, João Doria.

O tucano assumiu em janeiro e pretende substituir o atual “De Braços Abertos”, implementado pelo ex-prefeito petista Fernando Haddad, com foco em redução de danos, pelo programa “Recomeço”, já adotado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) e que Doria quer replicar na prefeitura, com foco em internações.

Escobar faz parte do Coletivo Sem Ternos, que integra o A Craco Resiste junto a outras 19 entidades. Entre elas estão Teatro Faroeste, Instituto África Viva e Associação Brasileira Multidisciplinar Sobre Drogas. Na primeira semana de vigília ocorreram rodas de samba e de capoeira, partidas de futebol, projeções de cinema e um churrasco no domingo (8). Elas têm sido realizadas por grupos que vão de 5 a 20 pessoas.

As atividades são feitas à noite porque é nesse momento que os programas assistenciais de governos, ONGs e igrejas realizados no local se encerram.

Segundo Escobar, já houve ações violentas ocorridas em operações policiais anteriores na cracolância, independentemente da gestão, razão pela qual as vigílias se justificam.

Ações mais recentes na cracolândia

Estratégia de ‘dor e sofrimento’

Em 2012, a Prefeitura de São Paulo, sob gestão de Gilberto Kassab (na época do DEM, hoje no PSD), e o governo do Estado, sob gestão de Geraldo Alckmin (PSDB) e responsável pela Polícia Militar, implementaram no centro da capital paulista Plano de Ação Integrada “Centro Legal”.

Segundo reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo” publicada na época, o objetivo era acabar completamente com o tráfico no local e levar os usuários a buscar tratamento. Policiais foram orientados a reprimir a venda e não tolerar mais o uso do crack em público.

A estratégia foi apelidada de dor e sofrimento porque, na época, o coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira afirmou que "a falta da droga e a dificuldade de fixação vão fazer com que as pessoas busquem o tratamento. Como é que você consegue levar o usuário a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Quem busca ajuda não suporta mais aquela situação. Dor e o sofrimento fazem a pessoa pedir ajuda".

Operação Braços Abertos

A partir de 2014, a gestão Haddad passou a implementar o “Programa De Braços Abertos”, em que o dependente recebe hospedagem e remuneração por trabalhos como varrição e é incentivado a diminuir o consumo de drogas. Os benefícios não são condicionados a internações ou a busca de atendimento.

No final de abril de 2015, a prefeitura buscou ampliar a adesão ao programa. Moradores foram retirados por Policiais Militares de barracas montadas na região em uma força-tarefa, o que fez com que se revoltassem.  Segundo informações divulgadas na época pela Secretaria de Segurança Pública, um dos policiais chegou a dar um tiro no chão para conter um dos moradores. O tiro ricocheteou e duas pessoas ficaram feridas.

Os planos de João Doria para a Cracolândia

O programa “De Braços Abertos”, de Haddad, é defendido pelos partidários da estratégia de redução de danos para o combate às drogas. Ou seja, o programa busca sim diminuir o impacto sobre a saúde e vida de usuários, sem submetê-los à abstinência.

É também acusado de permissividade. Durante sua campanha, Doria afirmou que o programa era inadequado e prometeu extingui-lo e substituí-lo pelo “Recomeço”, do governo do Estado, focado em internação de dependentes com o objetivo de fazer com que deixem de usar drogas completamente.

Logo após ser eleito, Doria afirmou, em entrevista concedida em outubro ao programa de TV “Brasil Urgente”, da Rede Bandeirantes, que a internação obrigatória é algo “que o psicodependente precisa e nem tem noção disso”. “Isso não é violência, violência é isso [a cracolândia], onde as pessoas consomem drogas livremente até morrer e ainda são protegidas pela Guarda Civil Metropolitana”, disse, referindo-se à guarda municipal.

No final do mesmo mês ele afirmou, no entanto, que pretende manter o pagamento de hotéis aos dependentes químicos. Em entrevista à Agência Brasil, a secretária municipal de Assistência Social, Soninha Francine (PPS), afirmou em janeiro que sua ideia é implementar um “meio-termo” entre o “De Braços Abertos” de Haddad e o “Recomeço” de Alckmin.

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