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Telas demais fazem mal para crianças? Não há conclusão sobre isso

Grupo de pesquisadores escreve carta aberta questionando a falta de evidências científicas que comprovem que o excesso de exposição à tecnologia é nocivo

Qualquer pessoa que convive com crianças sabe o quanto é difícil mantê-las longe de aparelhos eletrônicos - especialmente quando os pais também vivem grudados no celular.

Especialistas têm constantemente manifestado preocupação em relação à exposição à tecnologia. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria lançou em novembro uma cartilha que alerta para possíveis efeitos nocivos.

Entre eles, estão o aumento da ansiedade, a dificuldade de estabelecer relações em sociedade, o estímulo à sexualização precoce, a adesão ao cyberbullying, o comportamento violento ou agressivo, os transtornos de sono e de alimentação, o baixo rendimento escolar, as lesões por esforço repetitivo e a exposição precoce a drogas, entre outros.

A SBP recomenda que telas sejam proibidas para bebês com até dois anos, principalmente nas refeições ou antes do sono. Entre os dois e os cinco anos, o limite é uma hora por dia. Até os seis anos, crianças não devem ter contato com jogos violentos. E, até os dez anos, crianças não devem ter televisão ou computador nos próprios quartos para evitar que fiquem vulneráveis a conteúdos inapropriados.

Um grupo de cientistas, entretanto, publicou uma carta aberta questionando a “ansiedade contemporânea” e o “pânico moral” que é a preocupação relacionada ao “tempo de tela”. Assinada por 81 pesquisadores de diversas áreas - que vão da educação e psicologia ao Direito - de universidades renomadas, como Columbia, Berkeley, Harvard e Oxford, ela contesta a falta de evidências sólidas sobre o real impacto da tecnologia na vida das crianças.

As críticas dos pesquisadores

Foco na quantidade

Para os pesquisadores, a definição “tempo de tela” é simplista e não tem significado. Eles dizem que o foco na quantidade de exposição à tecnologia não contribui para o debate. “Há muito pouca evidência sobre o impacto do contexto do uso de tela, e o conteúdo que as crianças encontram ao usar tecnologias digitais”, diz a carta. Para os pesquisadores, o conteúdo tem muito mais impacto do que a quantidade em si.

Tempo dentro e fora de casa

Um dos argumentos contrários à exposição das crianças à tecnologia é que isso as faz passar menos tempo brincando em ambientes abertos. Os pesquisadores dizem que isso não tem respaldo científico: as evidências não mostram relação entre o tempo de tela e as atividades ao ar livre.

Políticas ineficientes

Vários governos têm recomendações relacionadas ao tempo de exposição das crianças à tecnologia. Para os pesquisadores, entretanto, qualquer recomendação neste momento não tem evidências científicas. Por isso, há risco de se implementar políticas “desnecessárias, ineficientes ou mesmo potencialmente danosas”. “Para recomendações que tenham um impacto significativo, elas precisam estar fundamentadas sobre pesquisas sólidas”, diz a carta.

A complexidade do tema

Para os autores, a saúde e o bem-estar infantil é um tema complexo afetado por muitos fatores, como o ambiente familiar e o nível socioeconômico. Todos eles têm mais impacto na saúde e no bem-estar do que o tempo de tela. Por isso, focar simplesmente no tempo de exposição das crianças à tecnologia é uma abordagem inapropriada.

“As tecnologias digitais são parte da vida das nossas crianças, necessárias no século 21”, escreveram os pesquisadores. Eles dizem que mais pesquisas são necessárias e que os governos deveriam investir em financiá-las para que políticas públicas mais eficientes sejam implementadas.

 

Recomendação foi flexibilizada nos EUA

Em 2015, a Academia Americana de Pediatria, que determina a atuação dos médicos nos EUA, reviu as suas recomendações sobre a exposição de crianças à tecnologia.

Até então, os pediatras diziam que crianças de até dois anos não deveriam ter nenhum contato com telas, e que o acesso das crianças maiores à televisão deveria ser restrita a duas horas diárias..

O novo direcionamento da academia americana é mais pragmático. Ele foca mais na qualidade do conteúdo consumido pelas crianças através da tecnologia, e não no tempo de exposição a ela.

Os pais, por exemplo, podem - e devem - ter um papel ativo na relação das crianças com os aparelhos eletrônicos. Isso pode ser feito estabelecendo limites, usando as ferramentas para se comunicar com os filhos e jogar videogame com eles. Os pediatras americanos também recomendam a criação de momentos livres de tecnologia.

A academia também critica o conceito do “tempo de tela”. Para se ter uma ideia, as recomendações anteriores - mais restritivas - foram elaboradas no ano em que o iPad chegou às lojas, em 2011 – as pessoas nem sabiam do impacto que ele teria.

A posição mais permissiva, de 2015, também tem a ver com a realidade. Nos EUA, 75% das crianças têm smartphone. No Brasil, 90% dos jovens entre 9 e 17 anos possuem pelo menos um perfil nas redes sociais.

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