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A ‘Globeleza’ está vestida. O que isso significa para a representatividade das mulheres negras

‘Musa’ do carnaval da Rede Globo que antes aparecia praticamente nua agora usa trajes regionais e divide a tela com outros personagens

    A TV Globo exibe anualmente, no período que antecede o Carnaval, uma vinheta temática que tem como personagem central a “mulata Globeleza”. Várias mulheres já interpretaram a personagem, mas o conteúdo permanecia sempre o mesmo: ela dança como uma passista ao som da música da emissora, com o corpo praticamente nu, coberto de pinturas coloridas.

    Há 26 anos no ar seguindo esse padrão, a vinheta foi modificada em 2017: pretende ilustrar os carnavais do Brasil, como o frevo, o maracatu, o axé e o Bumba Meu Boi. Há outros personagens além da passista, mulheres de diferentes etnias e bailarinos homens. E ela, pela primeira vez, está vestida:

     

    Críticas à personagem 

    Em 2016, um texto escrito pela ex-secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Djamila Ribeiro, e pela ativista Stephanie Ribeiro, e publicado pelo blog #AgoraÉQueSãoElas, do jornal "Folha de S.Paulo", pediu o fim da Globeleza.

    A manifestação questionou, então, o uso da palavra “mulata”, os critérios estéticos de seleção do “concurso” e cobrou a representatividade das mulheres negras em outros espaços da programação televisiva. 

    “Atualmente vemos um canal influente como a Rede Globo que, por quase 30 anos, expõe mulheres negras nuas a qualquer hora do dia ou da noite no período de Carnaval, negando-se a nos representar para além desse lugar de exploração dos nossos corpos no resto de todo o ano. Quantas mulheres negras vemos como atrizes, apresentadoras, repórteres nas grades das grandes emissoras?”

    Djamila Ribeiro e Stephanie Ribeiro

    No texto ‘Nós, mulheres negras, queremos o fim da Globeleza’

    Ainda em janeiro de 2016, a revista divulgou um vídeo no qual mostrava a vinheta a mulheres americanas negras e brancas nas ruas de Nova Orleans, cidade também conhecida por seu carnaval tradicional. O vídeo causou estranhamento e surpresa, principalmente ao se revelar que a personagem era sempre uma mulher negra nua. Uma das mulheres disse que era ofensivo, outra que chamava atenção a forma como o sexo era usado para vender o Carnaval. 

     

    A nova vinheta foi elogiada na página da emissora no Facebook, mas há ressalvas. O Nexo fez três perguntas a três pesquisadoras que estudam questões relacionadas à identidade na mídia e à representação da mulher negra na televisão para avaliar o que a nova Globeleza representa no contexto racial e de gênero do país. São elas:

    • Janaína Oliveira é doutora em história pela PUC-Rio e professora do Instituto Federal do Rio, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígena. É idealizadora e coordenadora do Ficine, o Fórum Itinerante de Cinema Negro
    • Suzane Jardim é bacharela em história pela USP e pesquisadora de estereótipos e representações do negro nas mídias 
    • Lúcia Loner Coutinho é pós-doutoranda em comunicação na Universidade Federal de Santa Maria. É autora da dissertação “Antônia sou eu, Antônia é você: identidade de mulheres negras na televisão brasileira”

    O que a mudança na vinheta da Globeleza representa?

    Janaína Oliveira Eu acho que na realidade ela não configura uma mudança. Colocar uma mulher negra, ainda dançando, exibindo o corpo, ainda está na mesma chave travestida de uma pseudo mudança. A meu ver, o problema não é só se ela estar de biquíni ou com pintura corporal, nua. A questão mesmo é o próprio estereótipo da mulher negra como um corpo hipersexualizado. O que deixa a desejar é que aquela personagem [da Globeleza] é que é o problema, na verdade.

    Suzane Jardim Acredito que a mudança da vinheta representa uma resposta da emissora aos tempos atuais. Como uma rede de televisão aberta que tenta se manter como o mais importante meio de comunicação do país na época da internet e da crítica, não havia mais como persistir na imagem antiga da Globeleza sem assumir o ônus que seria o de passar uma mensagem de não diálogo com a população negra que há tempos vem pedindo novos espaços no canal. A nova vinheta tenta romper com a imagem da mulher negra sexualizada colocando no lugar a imagem já conhecida do mito da democracia racial.

    Lúcia Loner Coutinho  Afirmar com total certeza o que tal mudança significa é um pouco temeroso, pois se trata de uma ação somente. É preciso observar como será o tratamento futuro da emissora em relação às mulheres negras, inclusive no próprio carnaval. Mas isso pode apontar algumas questões. No carnaval do ano passado que circulou um vídeo de mulheres americanas reagindo a Globeleza de forma muito crítica, sobre o uso da sexualidade para vender o carnaval. Obviamente a nova “roupagem” da globeleza não é uma resposta somente a este vídeo, mas a um processo que vem sendo construído por movimentos progressistas.

    Quais são os lugares historicamente reservados à mulher negra na TV?

    Janaína Oliveira Realmente a gente ainda não transformou os lugares onde tradicionalmente a mulher negra aparece na televisão, que são sempre papéis sub-representados, de subserviência, papéis, em certo sentido, que desqualificam, que não enaltecem as mulheres negras, que reiteram o lugar de subalternidade e submissão. A mulher negra sempre aparece como a empregada, como uma mulher que não tem instrução, como uma mulher escandalosa, furiosa, barraqueira e como um corpo extremamente sexualizado, um objeto.

    Suzane Jardim As mulheres negras na televisão brasileira sempre tiveram lugares marcados baseados em estereótipos negativos: sempre foram as sensuais e fogosas, as escravas, as empregadas domésticas ou as barraqueiras. Isso sempre foi reforçado em novelas, séries e programas de humor onde essas mulheres eram sempre minoria, passando uma falsa impressão de que a sociedade brasileira era formada majoritariamente por pessoas brancas. Só a partir dos anos 90 que se iniciou a passos lentos a utilizar atrizes negras em papéis variados. Essa representação estereotipada tem fins políticos, não é acidental e faz com que o lugar da mulher negra na sociedade como um todo se mantenha estagnado - a juventude negra não vê sendo representada na TV outras possibilidades para si, assim como o restante da população reforça imagens pré-concebidas sobre o lugar do negro na sociedade.

    Lúcia Loner Coutinho Existe uma grande sub-representação dos negros na TV brasileira. Com exceção de alguns programas específicos, a estética da TV nacional é praticamente de apagamento dos negros, de tal forma que mesmo personagens literários que deveriam ser negros ou pardos, sempre foram interpretados por atrizes brancas – casos mais notórios as protagonistas das adaptações de Jorge Amado. Mesmo quando estão representados é tradicionalmente em papéis muito estereotipados, como o de empregada, não somente secundários.

    "Sambar seminua na avenida, digo, não é um problema - o problema é a venda de um grupo demográfico específico nestes termos – somente nestes termos, visto a falta de exemplos variados de representação da mulher negra."

    É importante lembrar aqui, que não se pode jamais generalizar. Digo isto pois há muitas mulheres negras que veem o que muitos chamam de exposição, como um fator de empoderamento, uma escolha da mulher, e isso não é um problema. Sambar seminua na avenida, digo, não é um problema - o problema é a venda de um grupo demográfico específico nestes termos – somente nestes termos, visto a falta de exemplos variados de representação da mulher negra.

    A representação das mulheres negras na TV está mudando?

    Janaína Oliveira Entra ano e sai ano e é a mesma coisa, são mulheres negras ali naquela função de exploração, desse estereótipo negativo. Eu acho que para uma verdadeira transformação você tem que mudar a estrutura, não só na forma como as pessoas negras são representadas nas telas mas tem que exibir produções feitas por pessoas negras também, por mulheres negras. Eu acho que a desconstrução, a verdadeira mudança passa por aí.

    Suzane Jardim Creio que essa representação está mudando bastante nos últimos 5 anos e que isso acontece porque finalmente os negros estão conseguindo ter sua voz ouvida em muitos meios. Antes das redes sociais e das mídias alternativas o diálogo era mais difícil, pois a invisibilidade e o apagamento dos negros, principalmente das mulheres negras, era gigantesco. As mulheres negras sempre estiveram presentes na sociedade com suas demandas, porém só atualmente estão sendo vistas como consumidoras reais. A TV aberta, assim como muitas empresas, percebeu que não ouvir essas demandas seria ignorar um público consumidor importante. Já não é mais aceitável uma piada racista em rede nacional, caso aconteça, o assunto vira polêmica nas redes sociais, gera boicotes, protestos e outras manifestações que a mídia já não tem mais interesse em se envolver.

    Lúcia Loner Coutinho Sim, está mudando. Mas muito lentamente. Quando fiz meu mestrado, entre 2008 e 2010, brincava que a inclusão da mulher negra na TV brasileira era na realidade a inclusão da Taís Araújo e da Camila Pitanga. E elas continuam sendo hoje os maiores ícones das mulheres negras na TV atual. Não que não existam outras, ótimas atrizes negras, e mesmo com papéis interessantes, porém me parece que são ainda muito poucas que conseguem a oportunidade de ter uma gama de papéis diferentes. A tendência é que com as facilidades de acesso a outras formas de entretenimento doméstico (digo através da tv paga, ou netflix, etc) tenhamos representações mais diversas, com as pessoas podendo escolher entre uma gama maior.

     

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que o manifesto "A Mulata Globeleza", escrito por Djamila Ribeiro e pela ativista Stephanie Ribeiro, foi publicado originalmente na revista AzMina. Na verdade, foi  no blog #AgoraÉQueSãoElas, do jornal "Folha de S.Paulo", em 29 de janeiro de 2016 e reproduzido pela revista na mesma data. A informação foi corrigida às 11h04 de 10 de janeiro de 2017.

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