Como a união de tom estranho e batida perfeita transformou ‘Deu Onda’ em hit do verão

Tom, batida e progressão de temas tornam o funk um sucesso peculiar. Entenda cada um desses elementos

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    ‘Deu Onda’, funk do MC G15, foi a música mais tocada no dia 31 de dezembro de 2016 na plataforma de streaming Spotify - e continua onipresente como o primeiro grande hit do verão 2017 no Brasil. A essa altura, você já deve ter escutado a melodia grudenta de escaleta que dá início à música.

    Em poucas semanas, ‘Deu Onda’ ganhou dezenas de paródias no YouTube, além de outras referências bem humoradas e memes nas redes sociais. Mas esse sucesso não é (apenas) questão de sorte do compositor ou do produtor.

    A melodia é estranha: usa politonalismo

    O músico e produtor do selo independente Alcachofra Records, Pedro Serapicos, explicou em um vídeo qual é a particularidade no tom de “Deu Onda”.  A maioria das músicas pop, segundo ele, tem melodias acompanhadas de harmonias que usam notas do mesmo conjunto.

     

    Isto quer dizer que melodia e harmonia são consonantes e por isso o som “se encaixa”: nada parece fora do lugar quando uma melodia feita de acordes maiores é harmonizada com acordes maiores ou uma melodia de acordes menores é harmonizada com acordes menores. No funk de G15, segundo Serapicos, isso não acontece: a melodia passeia por acordes maiores enquanto a harmonia está em acordes menores, diferentes da escala da melodia.

    Essa sobreposição de notas de conjuntos diferentes gera intervalos incomuns na música pop. O músico mostra como, se fizesse isso, “Deu Onda” soaria muito diferente.

    A ruptura trazida por “Deu Onda” é feita, geralmente, por compositores eruditos. “Deu Onda quebra uma barreira que pouquíssimas vezes foi quebrada na história da música”, diz Serapicos.

    A batida é comum: é a mesma de outros grandes hits

    A faixa mais tocada no Spotify no último dia de 2016 foi feita em uma frequência de 128 batidas por minuto (BPM). A sigla é muito utilizada por DJs para combinar músicas da mesma batida. Na música eletrônica, os diferentes subgêneros têm BPMs mais ou menos determinados: a House Music costuma ter cerca de 128 batidas por minuto. Você pode ouvir essa batida aqui.

    Segundo o site “Pop Bitch”, a frequência de 128 BPM aparece regularmente na música pop. De fato, alguns dos singles de mais sucesso dos últimos anos têm 128 BPM: “I Gotta Feeling”, do The Black Eyed Peas, “Moves Like Jagger”, do Maroon 5, “We Found Love”, da Rihanna com Calvin Harris e praticamente todos os sucessos do DJ francês David Guetta.

    Essa recepção tem a ver, entre outros fatores, com o fato de que tipos de música diferentes provocam reações físicas distintas em quem as ouve. Ouvir uma música agitada pode aumentar os batimentos cardíacos, e vice-versa. A frequência cardíaca de 128 batimentos por minuto é a que atingimos realizando um exercício moderado, como dançar em uma balada ou baile funk.

    Isso quer dizer que, apesar da tonalidade estranha da música, a batida de “Deu Onda” é, por excelência, uma que ressoa com sucesso nas pistas de dança.

    Humor e romantismo se misturam

    “Deu Onda” funciona no tom e na batida. Há, no entanto, um terceiro fator que chama atenção - a mistura equilibrada entre humor, romantismo e obscenidade. Para o produtor e DJ Rodrigo Gorky, essa fluidez entre os segmentos do funk tem sido comum nos funks de São Paulo, como “Deu Onda”.  G15 é carioca mas mora na capital paulista.

    “Eu preciso te ter/meu fechamento é você, mozão/Eu não preciso mais beber e nem fumar maconha/que a sua presença me deu onda/o seu sorriso me dá onda”

    Esse início meloso, em que o eu lírico da letra se declara para o “mozão”, se transforma logo no verso seguinte, que fala abertamente de sexo até o refrão: “meu pau te ama”. A música ganhou uma segunda versão, assinada pelo produtor de funk KondZilla, em que o verso é substituído por “o pai te ama”.

    “No Rio tem essa coisa, ou você é funkeiro de putaria ou faz funk engraçado ou é funkeiro de proibidão ou de raps conscientes. Aqui em São Paulo sempre foi muito misturado isso. O [MC] Brinquedo consegue fazer essa mistura, por exemplo”, diz Gorky em entrevista ao Nexo.

    Para ele, também chama atenção que o tipo de humor seja sutil. “Ela é muito mais romântica do que engraçada. É pra ser irreverente, não pastelão”, diz.

    Além disso, ao contrário de funks que são criticados por colocarem as mulheres em uma posição de submissão e objetificação, “Deu Onda” ganhou o aval da escritora Clara Averbuck e da jornalista Carol Patrocínio, ambas feministas, em um vídeo para o site “ONDDA”.

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