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O arquiteto que estuda as ‘cidades fantasmas’ brasileiras

Várias localidades foram abandonadas ao fim de um ciclo de prosperidade econômica. Processo de esvaziamento, porém, envolve outros fatores

     

    Desde a Antiguidade, há povoações que desaparecem deixando vestígios no espaço que ocuparam. Machu Picchu, no Peru, conhecida como “cidade perdida dos Incas”, é talvez a mais lembrada. Mas o mistério desses acontecimentos não é exclusividade do passado distante: há, no mundo todo, “cidades fantasmas” que foram deixadas por seus habitantes no século 20, por razões diversas.

    Um pesquisador da Universidade de Londrina, no Paraná, se dedica há sete anos a descobrir como surgiram, ainda num passado recente, essas “povoações abandonadas”, como ele as chama. Arquiteto, urbanista e filósofo, o professor Nestor Razente buscou responder no livro “Povoações Abandonadas no Brasil” (Editora Eduel) por que, se a urbanização é crescente no mundo, há cidades ou povoados com nenhum ou quase nenhum morador.

    “Essa é a pergunta-chave que, ao final de uma pesquisa de tantos anos, a gente não consegue responder com uma resposta lógica. É um paradoxo”, disse Razente em entrevista ao Nexo. Apesar da impossibilidade de descrever um processo único que abarque todas as cidades abandonadas, o pesquisador fez algumas descobertas que iluminam quais acontecimentos levaram ao declínio das povoações estudadas.

    Muitas vezes, o abandono tem relação com a queda da oferta de emprego e da renda média do local. No Brasil, vários desaparecimentos de povoações estão ligados ao fim de ciclos econômicos como o da borracha e o do ouro. Essa é a hipótese mais difundida pela sociologia de língua inglesa, segundo Razente. Mas ele nega que a explicação seja apenas essa.

    O que antecede o abandono

    Há desaparecimentos de cidades causados por tragédias ambientais e sociais, como Chernobil e Pripyat, na Ucrânia, que deixaram de existir em decorrência da catástrofe nuclear de 1986. “Ararapira, no Paraná, está sendo engolida pelo mar e foi abandonada. Não tem relação com a falta de emprego”, disse o professor.

    Além de processos como esses, o pesquisador identificou um outro, associado à fuga dos jovens de uma povoação para cidades maiores, deixando para trás apenas os idosos, que não dependem da oferta de emprego para sobreviver. Muitos pueblos, povoados espanhóis formados por algumas dezenas de famílias, desaparecem após a morte desses últimos habitantes. Há casos brasileiros semelhantes observados por Razente, no interior de São Paulo e do Paraná.

    No caso brasileiro, outra descoberta feita pelo arquiteto é que mesmo quando as pessoas são obrigadas a deixar uma povoação, a igreja e o cemitério restam conservados. É comum que moradores retornem ao local uma vez por ano para visitar seus mortos ou por conta de uma festividade religiosa.

    O livro de Nestor Razente fala de oito povoações abandonadas (sem nenhum ou com pouquíssimos moradores) no Brasil. O recorte utilizado foi que tivessem sido abandonadas durante o século 20.  São elas: Airão Velho (AM), Fordlândia (PA), Biribiri (MG), Desemboque (MG), Ouro Fino (GO), Bom Jesus do Pontal (TO), Cococi (CE) e Ararapira (PR).

     

    O pesquisador usou alguns referenciais para definir o abandono: nem todos os municípios estão totalmente sem moradores, mas enfrentam um processo social de degradação e o desaparecimento dos poderes institucionais, como a administração política e outros serviços de que uma cidade depende para funcionar.

    3 histórias de ‘povoações abandonadas’

    Fordlândia

    A cidade ainda registra alguns moradores em suas casas carcomidas pela floresta. Mas passou por um inegável processo de decadência no século passado.

    Ao contrário do que fazem hoje as indústrias, terceirizando a maior parte de sua cadeia produtiva, Henry Ford queria que sua fábrica automobilística fosse independente de fornecedores.

    Foi essa ambição que o levou a produzir borracha na Amazônia, nos anos 1920. A Companhia Ford Industrial do Brasil (CFIB) foi fundada em outubro de 1927 e obteve a concessão de 10.000 km² de terra do Governo do Estado do Pará, mais incentivos fiscais.

    O desconhecimento da floresta, do clima, da navegação pelos rios amazônicos, de quem eram as populações já instaladas ali; a falta de experiência na produção de borracha, os problemas de infraestrutura do núcleo urbano e a falta de mão de obra foram alguns dos problemas enfrentados pela iniciativa.

     

    Após gastar US$ 7 milhões e 6 anos de trabalho em Fordlândia, a companhia resolveu deixar a cidade. Em 1932, quando uma praga que afeta as seringueiras ameaçava todo o empreendimento, a CFIB contratou um botânico que, após 4 anos de tentativas frustradas de resolver o problema, aconselhou reconstruir o seringal em outro local. A reconstrução também fracassou.

    Em 1945, todo o empreendimento foi vendido ao governo brasileiro e a Ford foi embora do Brasil. A presença da Ford Motor Company na Amazônia durara 18 anos. Fordlândia - que antes era “independente” - foi deixada à administração do governo brasileiro, que implantou outras culturas no local.

    O hospital da cidade permaneceu ativo até 1997. O patrimônio arquitetônico foi dilapidado e as moradias da antiga vila operária foram ocupadas por ribeirinhos.

    “O campo de golfe, com nove buracos, hoje serve de pastagem para animais, e no lugar das quadras de tênis, há um curral para vacas e bois. Ao menos nisso Fordlândia se assemelha a Detroit, sua meia-irmã norte-americana, onde bairros inteiros estão sendo substituídos por alguma cultura alimentar. Uma desurbanização, uma volta ao campo, é o que revela o traço novo da metamorfose rural-urbano-rural nesses locais”

    No livro ‘Povoações abandonadas no Brasil’

    Cococi

    Segundo Nestor Razente, a história de Cococi é única no Brasil e talvez no mundo. A cidade fica a 400 km de Fortaleza, no Ceará.

    Em 1958, a pequena povoação se transformou em município. Em dezembro de 1969, foi feita uma denúncia de que as terras de Cococi se confundiam com as terras da fazenda de seu prefeito, Eufrásio Feitosa, e que havia abuso no emprego de dinheiro público na  localidade.

    O município de Cococi, segundo texto do relator do Processo, ministro Victor Amaral Freire, era uma farsa.

    Após investigações do governo federal, levantou-se que “as propriedades de todos os atuais membros da família Feitosa resultavam de partilhas de uma primitiva fazenda, já existente no século 18, e, possivelmente, do mesmo nome. Segundo o Ministro relator, havia em Cococi ‘um aglomerado de cerca de quarenta casebres, em área do Prefeito e seus familiares’".

    A única propriedade não pertencente à família Feitosa era um terreno doado ao estado, “para uma escola isolada, cuja construção, embora terminada, ainda não fora utilizada” e estava em ruínas.

    Era cobrado IPTU dos casebres de Cococi, mas eles eram habitados por empregados da Fazenda, tornando a arrecadação de impostos e taxas uma fraude contábil.

    O governo militar decidiu extinguir Cococi em 1970, “rebaixando-o” a distrito de Parambu. Tudo hoje é ruína na antiga Cococi, exceto cemitério e igreja. Uma vez ao ano, segundo o livro, de dezembro em dezembro, ex-moradores e familiares revivem a festa da padroeira Nossa Senhora da Conceição.

    O abandono da povoação não foi uma falta de opções de trabalho, mas uma espécie de vingança dos homens do prefeito, que solicitou a todos que deixassem Cococi.

    Ararapira

    A ocupação de Ararapira foi iniciada pela estratégia de povoação de terras brasileiras pela Coroa portuguesa. A intenção principal, então, era conter o avanço espanhol no sul da Capitania de São Paulo. Seu isolamento físico em relação à região a sua volta foi determinante para o início do abandono, mas essa não foi a única causa: a aplicação da legislação ambiental brasileira e a construção de um canal de navegação foram outros fatores que contribuíram para o declínio da cidade.

    A construção do Canal do Varadouro entre 1952 e 1958, obra realizada para melhorar as condições de transportes entre Ararapira e o Porto de Paranaguá, alterou condições ambientais e fez com que o mar começasse a invadir a cidade. A criação do Parque Nacional do Superagüi na região e a luta dos caiçaras contra búfalos colocados ali por uma grande empresa restringiram os modos de sobrevivência da já escassa população. Atualmente, o mar já levou boa parte de suas edificações.

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