O tempo realmente parece passar mais rápido para pessoas mais velhas. Eis o quanto

Médicos da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto descobriram que a percepção do tempo pode variar até 24% de acordo com a idade

 

O tempo é um só: todos seguimos a mesma métrica de contagem dele. Mas a maneira como os minutos, horas, dias, semanas, meses e anos são percebidos não é. Essa percepção de passagem do tempo varia de acordo com uma série de fatores, de pessoa para pessoa. A idade é um deles: para pessoas mais velhas, o tempo parece passar mais rapidamente. Quanto mais idade, mais os “anos passam voando”.

Pesquisadores do Departamento de Ciências Neurológicas da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto resolveram investigar essa percepção. E o resultado do estudo mostra que as pessoas com mais de 50 anos realmente veem a passagem do tempo cerca de 24,6% mais rapidamente do que jovens com idade entre 15 e 29 anos.

Na prática, isso significa que pessoas mais velhas contabilizam dois minutos cerca de 28.3 segundos mais rapidamente do que os mais jovens.

 

Como a passagem do tempo foi medida

O estudo “Passagem do tempo e idade”, publicado em abril de 2016, reuniu 233 pessoas sem históricos de doenças neurológicas - sendo 129 mulheres - para contar mentalmente e de olhos fechados o intervalo de dois minutos (120 segundos).

Os participantes foram divididos em três grupos etários: entre 15 e 29 anos, entre 30 e 49 anos, e mais de 50 anos.

O que relativiza a percepção temporal

Aprendizagem

Quando se aprende algo novo, emprega-se um esforço maior que aquele dedicado a atividades cotidianas e isso pode gerar a sensação de que o tempo está passando mais devagar. Isso acontece porque a concentração e memorização necessárias para reter o conhecimento são maiores, de acordo com o estudo.

Devido a isso, pessoas mais jovens, com menos experiências acumuladas, sentem o tempo passar mais devagar. Já pessoas com idade avançada, cujo rotina leva a repetição de ações já assimiladas e menor dedicação a novos conhecimentos, o tempo parece passar de maneira mais rápida.

Experiências

Quando pensamos sobre o tempo, o estimamos a partir de eventos que já aconteceram ou que ainda estão acontecendo.

Para André M. Cravo, psicólogo e vice-coordenador do Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos da Universidade Federal do ABC, ao estimar o intervalo de tempo, observamos quantos eventos ocorreram naquele período. Se forem muitos, a sensação é de que o intervalo “passou mais devagar”. E se forem poucos, a sensação é de que o tempo passou mais rápido.

Ao envelhecer, cria-se uma rotina pessoal e profissional repleta de atos repetitivos, sem novas experiências e novidades, o que reduz o número de eventos que serão contabilizados ao se estimar o tempo. Assim, o tempo parece ter passado mais rápido.

 

Percepção do tempo é construção cerebral

David Eagleman, em seu artigo “Brain time”, publicado no livro “What's Next? Dispatches on the Future of Science” (O que vem a seguir? Destinos do futuro da ciência - em tradução livre), diz que o tempo já é entendido como uma construção cerebral e que, assim como a visão pode ser iludida (em mágicas, por exemplo), a percepção do tempo tamb��m pode ser distorcida.

Ele cita como exemplo a experiência de olhar-se no espelho e focalizar o olhar de um olho para o outro. De acordo com Eagleman, não é possível ver nosso próprio olho se mexer no reflexo pois o tempo cerebral é distorcido, ou seja, ocorre uma ilusão temporal que leva a crer que o movimento do olhar é rápido demais para ser notado. Entretanto, pode-se facilmente observar os olhos de outra pessoa se moverem.

“Todas essas ilusões e distorções são consequência do modo como seu cérebro constrói a representação do tempo. Quando examinamos esse problema mais de perto, percebemos que ‘tempo’ não é o fenômeno unitário que supúnhamos ser”

David M. Eagleman

Neurocientista e autor bestseller do New York Times

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: