Por que tantos estudantes de medicina sofrem sintomas de depressão

Segundo pesquisador, ideia de que alunos têm de ser fortes para lidar com o estresse da profissão ajuda a manter altos índices da doença durante a graduação

 

Publicado em dezembro de 2016 no “Journal of the American Medical Association”, o estudo “Prevalência de depressão, sintomas depressivos e ideação suicida entre estudantes de medicina” confirma algo que muitos alunos da área sentem e comentam em conversas de corredor: a quantidade de sintomas de depressão entre seus colegas é alta.

De acordo com o trabalho, realizado por pesquisadores de instituições americanas das áreas de medicina e administração, a proporção de diagnósticos de depressão ou sintomas depressivos entre alunos de medicina do mundo todo, incluindo no período da residência, é de 27,2% e a de ideação suicida, ou seja, os pensamentos sobre a possibilidade de se suicidar, de 11,1%.

O estudo é uma meta-análise de 195 pesquisas realizadas em 47 países que, somadas, compreendem 129.123 estudantes. Isso significa que ele não obteve dados novos, mas se baseou no que foi descoberto por outros trabalhos e sistematizou as conclusões. Abordagens desse tipo buscam chegar a resultados consolidados sobre temas que são objeto de muitas pesquisas que têm, com frequência, achados variados.

A realidade dos estudantes brasileiros foi incluída por meio de 13 trabalhos e serve como exemplo dessa variedade. Um deles, realizado em 2010 entre alunos da Universidade Estadual do Maranhão, apontou sintomas depressivos entre 47,5% dos alunos de medicina da instituição. Outro, realizado em 2015 entre alunos de medicina da cidade de Santos (SP), chegou ao índice de 30%.

O artigo pontua que a prevalência de episódios depressivos — ou seja, períodos marcados por sintomas de depressão — na população geral dos Estados Unidos é menor do que a encontrada entre estudantes de medicina. Entre os americanos no geral, o índice é de 9,3% entre jovens de 18 a 25 anos e de 7,2% entre pessoas de 26 a 49 anos.

No Brasil, os índices de diagnóstico de depressão para pessoas de 18 anos ou mais são de 7,6%. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde.

O trabalho americano não é conclusivo sobre o que faz com que alunos de medicina tenham uma tendência maior a apresentar sintomas de depressão, mas afirma que:

“Possíveis causas de sintomas depressivos e suicidas em estudantes de medicina provavelmente incluem estresse e ansiedade advindos da competitividade das escolas médicas”

Estudo 'Prevalência de depressão, sintomas depressivos e ideação suicida entre estudantes de medicina’

Causas e formas de lidar com o problema da depressão

O estudo não realiza muitas recomendações sobre como o problema deve ser abordado, mas traz, em anexo, o artigo de opinião “Saúde mental de alunos de medicina: Cultura, ambiente e a necessidade de mudar”, assinado por Stuart Slavin, um professor da Universidade de Saint Louis que não participou da pesquisa.

Ele foi um dos responsáveis por estruturar a partir de 2009 uma mudança curricular no curso de medicina de sua universidade que tinha como objetivo diminuir os sintomas de estresse. Entre as medidas estão redução do tempo em sala de aula e aumento do controle dos alunos sobre seu próprio tempo.

A universidade tem medido os resultados desses esforços. As taxas de depressão entre alunos do primeiro ano caíram de 27% para 11% após a reforma, e os resultados em exames melhoraram. Os dados sobre a melhora são apresentados em uma pesquisa publicada em 2014 no “Jornal da Associação de Universidades Médicas Americanas”, da qual o professor participou.

Veja abaixo o que Slavin aponta como as causas da depressão entre esse público e o que recomenda para lidar com o problema.

A ideia de que a medicina precisa ser estressante

O pesquisador afirma que uma das causas para a depressão e os sintomas de depressão dos estudantes é a ideia de que a medicina é uma profissão exigente, e, por isso, a universidade também deve ser extremamente rigorosa. Isso pode ser resumido pela frase “se os alunos não são ‘fortes’ o suficiente para lidar com o estresse, devem mudar de profissão”.

De acordo com Slavin, muitos professores e administradores da área de medicina acreditam que “mais pressão, mais horas e mais demandas levarão a resultados educacionais melhores e que o padrão seria rebaixado com um treinamento menos rigoroso”.

Ele afirma, no entanto, que há um limite para essa lógica. A partir de um ponto a exigência se torna excessiva e tende a fazer com que o desempenho dos alunos caia. Ele cita como um exemplo prático oposto a essa ideia as mudanças realizadas na Universidade de Saint Louis. Entre elas está a redução no tempo de atividades, no volume de conhecimento e no nível de detalhamento exigido, além do encorajamento aos alunos se engajarem em atividades extracurriculares.

Uma pesquisa realizada em 2015 pela Associação de Universidades Americanas mostrou o impacto das mudanças: os estudantes reportaram menos estresse e exaustão, um envolvimento maior com a faculdade, além de maior qualidade de vida, saúde mental e performance acadêmica.

Ele afirma que esse tipo de mudança é de difícil implementação porque normalmente as faculdades destinam mais recursos para os setores curriculares — que em geral focam em novos métodos de ensino ou na inclusão de ainda mais conteúdo — do que aqueles voltados para o bem-estar dos estudantes.

Saúde mental recebe menos atenção, e prevenção é relegada

Por que mesmo cursos que estudam especificamente saúde toleram entre seus alunos níveis particularmente altos de uma doença tão grave como a depressão? Segundo Slavin, a “cultura médica” normalmente trata problemas de saúde mental como menos importantes do que os de saúde física. “Por anos, psiquiatria e psicologia foram vistos por muitos na medicina acadêmica como ciências menores.”

Mesmo quando o problema dos altos índices de doenças mentais é reconhecido, o foco costuma ser em tratamento e não em prevenção. “Os dados sobre a saúde mental dos alunos precisam ser encarados como resultados centrais dos programas de ensino, tão importantes quanto notas em provas e colocação em vagas de residências”, afirma.

Responsabilidade é depositada sobre os alunos

Em geral, as faculdades de medicina que abordam o problema da depressão focam em programas ligados a cuidados pessoais, como incentivar os alunos a comer bem, se exercitar, realizar ioga e meditar.

Na prática, isso deposita a responsabilidade sobre a depressão sobre aqueles que sofrem da doença, ao invés de “reconhecer que o problema principal está no ambiente” de aprendizado. Segundo o pesquisador, essas abordagens podem fazer com que “educadores se sintam reconfortados pelos seus próprios esforços”, mas também permitem que se distraiam do problema central.

“Faculdades de medicina precisam tomar para si a responsabilidade de lidar com a crise de saúde mental entre alunos, e as soluções não podem vir apenas do lado da saúde mental. O problema precisa ser visto como um problema de saúde ambiental”

Stuart Slavin

Professor da Universidade de Saint Louis, em artigo de opinião para o “Journal of the American Medical Association”

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: