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10 lançamentos que deixaram o rap menos machista

Uma nova leva de rappers mulheres está trazendo temas e questões diferentes para as cenas nacional e internacional do rap

     

    Desde as origens da cultura hip hop, lá pelo fim dos anos 1970, a misoginia e a objetificação das mulheres têm feito parte das letras e clipes de rap.

    Em parte, isso se deve ao pouco espaço que rappers mulheres têm dentro desse gênero musical. Mas uma nova leva de rappers mulheres está mudando esse cenário - e 2016 foi um ano importante nesse sentido. Veja lista (que não é um ranking):

    Nacionais

    'Outra Esfera', de Tássia Reis

     

    A rapper de Jacareí, interior de São Paulo, lançou seu primeiro álbum em 2014. “Outra Esfera”, de 2016, começa calmo e hipnótico e aos poucos fala de machismo, racismo e pobreza.

    Faixa recomendada: “Da Lama/Afrontamento”

    '129129', de Lay

     

    “Eu sempre ouvia rappers de fora, como a Foxy Brown que fala sobre dinheiro, buceta… [Aqui no Brasil] Só no funk que se pode falar buceta? Porque no rap não? E eu faço isso”, disse a rapper de Osasco em entrevista ao site de “Move That Jukebox”.  “129129” é deu EP de estreia.

    Faixa recomendada: “Ghetto Woman”

    'Rap Plus Size', de Issa Paz e Sara Donato

     

    O rap combativo e feminista que Paz já havia trazido no álbum “A Arte da Refutação”, de 2015, se uniu às rimas de Sara Donato, rapper e militante da Frente Nacional Mulheres no Hip Hop, para um projeto que fala contra o machismo, o racismo e a gordofobia. De saída a primeira faixa fala de feminicídio e lida com “lemas” presentes na onda mais recente do movimento feminista, como “respeita as mina” e “juntas somos mais fortes”. O álbum também tem a participação de outras rappers, como Luana Hansen e Tassia Reis. 

    Faixa recomendada: “Vai Virar o Placar”

    'Minha Bossa é Treta', de Yzalú

     

    O primeiro álbum da rapper foi lançado no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A escolha nada acidental da data de lançamento de ‘Minha Bossa é Treta’ já é, por si só, um indicativo do compromisso de Yzalú com a causa feminista. “Eu quero que a minha música seja fonte de mudança e transformação na vida de quem ouve”, disse ao site “Rap Nacional”. A capa do disco também mostra sua preocupação com uma outra agenda: Yzalú exibe pela primeira vez, na foto da capa, a prótese que tem na perna direita.

    Faixa recomendada: “É o Rap Tio”

    'Sincronia', de Ju Dorotea

     

    Um sample de “Bang Bang”, da cantora europeia Dalida, abre o EP da rapper de Volta Redonda (SP). Ela fala de violência, celebra a latinidade e diz que rap não toca na rádio porque diz coisas que algumas pessoas não querem ouvir.

    Faixa recomendada: “Sincronia”

    Internacionais

    'A Good Night in the Ghetto', de Kamaiyah

     

    A mixtape de estreia da rapper californiana levou o título de “Best New Album” (Melhor Álbum Novo) do site especializado em música “Pitchfork”. “Eu só queria produzir uma trilha sonora que fizesse sentido para quem tem entre 18 e 25 anos”, disse ao site “Noisey”, canal de música da VICE. “Então fiz uma trilha que é como uma boa noite no gueto soaria”.

    As rimas festeiras e atrevidas fazem jus a essa intenção: ela promete beber direto da garrafa e viver todos os dias como se fosse sexta (na música “Out of the Bottle”). Mas há mais do que isso: liberdade, independência e uma atitude que não deve nada aos homens do rap. Em “Niggas” ela fala sobre o quanto gosta de sexo e não querer ter um namorado fixo no momento.  “Ele diz que quer ser meu namorado/mas não pode me amarrar”.

    Faixa recomendada: “Niggas”

    'Telefone', de Noname

     

    “Telefone” também é o trabalho de estreia da rapper de Chicago Fatimah Warner, que atende por Noname. Ela rima seus demônios e escrevia poesia antes de se tornar rapper.

    Faixa recomendada: “All I Need”

    'Let Them Eat Chaos', de Kate Tempest

     

    Entre a poesia, o spoken word e o hip hop, a inglesa lançou um segundo álbum político, atento às questões contemporâneas de seu continente, como a imigração e a alienação da vida urbana.

    Faixa recomendada: “Europe is Lost”

    'Cam & China', de Cam & China

     

    As gêmeas de Los Angeles já são parte da cena de hip hop da cidade desde do início dos anos 2000, quando faziam parte do grupo Pink Dollaz. Apesar disso, o EP que traz o nome das duas é sua estreia.

    "Mesmo entre aqueles que compartilham DNA, elas são singularmente afinadas entre si, e suas mentes se combinam para criar algumas das músicas de rap mais ferozes e visceralmente excitantes do ano”, escreveu o crítico Paul. A. Thompson, da “Pitchfork”.

    Faixa recomendada: “We Gon Make It”

    'OOOUUU' e 'EAT', de Young M.a.

     

    Young é do Brooklyn, em Nova York. Ainda não fez sucesso no Brasil mas viralizou este ano no Youtube com “OOOUUU” - a música tem mais de 100 milhões de views.  Em uma entrevista à revista “Elle”, rejeitou os rótulos de rapper mulher e lésbica. Mas canta sobre se relacionar com mulheres e sobre como pode vencer qualquer um - homem ou mulher - numa batalha de rappers.

    Faixa recomendada: EAT”

    Menção honrosa: Faixa “By Ourselves” - Blood Orange

     

    A primeira música do disco “Freetown Sound”, de 2016, do músico e produtor Dev Hynes - que assina, atualmente, como Blood Orange - é uma celebração da história das mulheres no gênero musical. Nela, ouvimos a poeta de Atlanta Ashlee Haze ler seu poema “For Colored Girls (The Missy Eliott Poem)” [Para garotas negras (o poema Missy Eliott)]. O texto fala sobre a influência positiva que a imagem da rapper Missy Eliott, em atividade nos anos 1990, teve sobre garotas negras como ela, refletindo sobre feminismo e representatividade.

    Leia um trecho do poema abaixo:

    “feminismo é Da Brat, Missy Elliott, Lil Kim, e Angie Martinez, na música ‘Not Tonight’

    feminismo diz que, como mulher da mesma área que eu, você não é competição

    como mulher da mesma área que eu, sua luz não torna a minha mais fraca

    Querida Missy,

    eu não cresci para ser você

    mas cresci para ser eu

    e para me apaixonar por quem essa mulher é

    ser uma mulher jogando o jogo dos homens

    sem pedir desculpas por nada

    Se você me perguntar por que representatividade importa

    Eu te direi que nos dias em que não me sinto bonita

    Ouço a voz doce de Missy cantando pra mim

    ‘pop that pop that, jiggle that fat

    don’t stop, get it til your clothes get wet’

    Vou te dizer que nesse instante há um milhão

    de garotas negras só esperando pra ver alguém que parece com elas” 

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