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‘Arquitetos do Euro’ morrem às vésperas dos 15 anos da moeda: qual era o plano e o que houve na prática

Hans Tietmeyer e Henning Christophersen integravam grupo de economistas responsáveis pelo plano de integrar a economia européia nos anos 90

     

    Em um intervalo de apenas quatro dias, dois dos economistas responsáveis pela implantação do Euro como moeda única morreram.

    A morte dos dois aconteceu na véspera do aniversário de 15 anos da entrada em circulação das cédulas da moeda europeia, o passo final de um longo processo de negociação e medidas de transição.

    O alemão Hans Tietmeyer e o dinamarquês Henning Christophersen são chamados pela imprensa europeia de “arquitetos” da moeda única, que entrou em circulação oficialmente em 1º de janeiro de 2002  e atualmente é usada por cerca de 340 milhões de pessoas.

    Henning Christophersen foi ministro de finanças na Dinamarca e, entre 1985 e 1995, foi o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pela economia e assuntos monetários do bloco.

    No posto, assumiu a liderança da implantação do Euro, que teve várias etapas até que a moeda física entrasse definitivamente em circulação.

    Mesmo com a Dinamarca optando por não usar o Euro, Christophersen é lembrado como um dos grandes articuladores da moeda. Ele morreu no dia 31 de dezembro.

    Chistophersen trabalhou em parceria com Hans Tietmeyer, então presidente do Banco Central da Alemanha, a maior economia do bloco.

    Ele foi o último presidente do Bundesbank a ter controle sobre a política monetária no país já que, com a implantação do Euro, o BCE (Banco Central Europeu) assumiu o papel.

    No comando do banco alemão entre 1993 e 1999, Tietmeyer ajudou a moldar o BCE, lutando para que a instituição europeia tivesse independência política e pudesse assim zelar pela estabilidade de preços. O BCE começou a operar em 1999.

    Quando a moeda entrou em circulação, em janeiro de 2002, nenhum dos dois estava mais no cargo. Mas a chegada das cédulas ao mercado foi apenas o passo final de longas negociações sobre barreiras comerciais e alfandegárias até que se chegasse ao livre comércio dos dias de hoje.

    O sonho da moeda única

    A ideia do Euro nasce junto com os projetos de eliminação de barreiras entre os países europeus e vai sendo moldada ao longo dos anos.

    O sonho da união monetária começa a ser discutido na década de 1950, mas se materializa com a criação da União Europeia, em 1992. Em 1995, mesmo sem uma decisão final sobre o tema, a moeda é batizada de Euro.

    A união monetária era vista como o último passo para a integração de todos os países do bloco. Assim, um italiano poderia comprar um produto alemão como um paranaense compra algo no Rio de Janeiro.

    Em bloco, os países da Europa tinham o plano de se fortalecer no cenário global com sua moeda fazendo frente, por exemplo, ao dólar. Para aderir à Zona do Euro, os países precisaram se comprometer com metas de inflação, resultado orçamentário e limite para a dívida pública.

    Em 1998, o parlamento europeu aprovou definitivamente o projeto de integração e no ano seguinte as moedas de todos os países da Zona do Euro passam a ter cotação na moeda única - naquele momento, apenas uma moeda virtual.

    Transações que não envolviam moeda física passam a ser feitas em Euro. Essa data é considerada como o nascimento da moeda única, mesmo que ela só tenha chegado ao bolso dos europeus em cédulas três anos depois.

    A crise do Euro

    A união monetária, no entanto, não garantiu a saúde de todas as economias do bloco. Na realidade, a moeda única e o livre comércio explicitaram as diferenças entre economias e conjuntos de instituições em estágios distintos de desenvolvimento.

    Nos últimos anos, a situação na região do Euro é de crescimento baixo ou nulo, e desemprego e insatisfação em alta.

    As taxas de juros europeias, definidas pelo ECB, são extremamente baixas. Por anos o dinheiro tem sido barato e o câmbio, baixo. Isso ajudou a Alemanha, por exemplo, país dominante na Europa e fortemente orientado a exportações. Mas afetou de forma negativa outros países.

    Alguns deles, os chamados países da periferia do Euro, começaram a ver bolhas em suas economia e tiveram contrações fortes em seu produto interno bruto, combinadas com crises bancárias. Precisaram apelar por ajuda financeira para evitar o colapso total.

    Houve duas ferramentas de política das quais países precisaram abrir mão para participar da união monetária: a definição da taxa de juros e da taxa de câmbio. Ambas são instrumentos que ajudam a “pilotar” economias durante crises. Os países da zona do Euro, porém, perderam essa autonomia.

    Alguns estudiosos e economistas apontam ainda como causador de desequilíbrios o fato de que há uma união monetária sem que haja uma união política completa.

    Atualmente, há movimentos nacionais em vários países pedindo a saída da Zona do Euro. A Grécia, que enfrenta um duro processo de ajuste fiscal, já ameaçou deixar o bloco, ideia que acabou descartada. Na Itália existem partidos que defendem que o país abandone a moeda única e volte a usar a lira.

    Em 2016, o Reino Unido, decidiu abandonar o bloco econômico após um plebiscito, num movimento conhecido como Brexit, mas nunca chegou a adotar o euro - manteve sua libra esterlina.

    Versão sul-americana

    Na esteira da União Europeia, países da América do Sul também tentaram lançar o projeto de uma moeda única para os integrantes do Mercosul. A ideia, no entanto, nunca esteve próxima de entrar em vigor já que as metas de integração do Mercosul não chegaram a ser concretizadas.

    A adoção de moeda única transfere a responsabilidade sobre a política monetária – fixação dos juros e emissão de moeda – para um banco central comum. Assim, os membros perdem autonomia, o que acaba sendo um entrave para o avanço da proposta.

    A moeda única para a América Latina foi defendida em 2015 pelo economista Thomas Piketty, autor do best seller “O Capital no Século 21”. Para ele, no entanto, os países americanos deveriam esperar para ver como se desenrola a experiência europeia antes de apostar na união monetária.

    No momento atual, porém, é difícil que qualquer ideia nesse sentido prospere. O Mercosul vive seu momento mais conturbado desde sua criação, com governos de esquerda e de direita no continente disputando poder no bloco.

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