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Hackers na eleição americana: das represálias de Obama ao desdém de Putin

Presidente dos EUA expulsa do país 35 funcionários do governo da Rússia após caso de espionagem. Moscou reage com frieza e sinaliza para Trump

     

    O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou na quinta-feira (29) a adoção de um pacote de medidas para penalizar o governo russo pela ação de hackers que, durante as primárias da campanha presidencial americana de 2016, invadiram computadores dos partidos Democrata e Republicano, tornando públicas mensagens políticas privadas.

    Para as agências de inteligência dos EUA, os hackers eram espiões agindo a mando do governo russo para desacreditar o processo eleitoral americano e para minar sobretudo a candidatura democrata. A acusação é refutada pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin.

    O presidente americano eleito, o republicano Donald Trump, assume a Casa Branca no dia 20 de janeiro, pondo fim ao segundo e último mandato de Obama. A iminência da transição de governo explica tanto a dureza das medidas adotadas por Obama agora quando a tréplica russa, pois:

    • fora da Casa Branca, Obama e o Partido Democrata não terão mais de lidar com possíveis reações negativas de um Putin contrariado. Administrar as rusgas será, dentro de 21 dias, um problema de Trump. Assim, é mais fácil para Obama assumir posições duras, que não tomaria caso houvesse um “dia seguinte” para o próprio mandato
    • por outro lado, essa perspectiva do fim do mandato de Obama foi o que fez com que Putin reagisse com frieza ao anúncio. O presidente russo, que havia ameaçado expulsar diplomatas americanos, acabou minimizando a reprimenda da Casa Branca, como se ela houvesse sido um arroubo de político em fim de mandato.

    O que foi o episódio

    Um mês depois de Trump ter derrotado a democrata Hillary Clinton na eleição de 8 de novembro, as agências de inteligência dos EUA afirmaram “com alto grau de certeza” que kackers haviam tido acesso a computadores usados na campanha eleitoral. Suspeitas sobre o caso já vinham vazando na imprensa americana na reta final da campanha.

    As ações teriam o objetivo de prejudicar a candidatura de Hillary, pois, embora tanto computadores democratas quanto republicanos tivessem sido invadidos, apenas as mensagens da equipe dela foram tornadas públicas.

    As mensagens foram publicadas a partir de outubro, a um mês da eleição geral, pelo site Wikileaks. Elas mostravam o que seria uma estratégia deliberada de líderes democratas para minar, ainda nas primárias, a campanha do rival de Hillary no partido, o também democrata Bernie Sanders, que acabou derrotado na disputa interna.

    A reprimenda americana

    De acordo com o jornal americano “The New York Times”, a retaliação anunciada por Obama consiste na “mais forte resposta americana já dada a um ataque cibernético promovido por um Estado”.

    As principais medidas são:

    • A expulsão de 35 funcionários do governo russo lotados na Embaixada da Rússia em Washington - e seus familiares -, acusados de envolvimento com o episódio
    • O fechamento em 24 horas de duas mansões que a Rússia mantinha, em Nova York e Washington, que, segundo a Casa Branca, eram usadas por espiões russos
    • A aplicação de punições econômicas a três empresas que, de acordo com os EUA, estão ligadas a operações de espionagem russa

    É esperado que, em janeiro, os EUA publiquem um relatório detalhado descrevendo o modo de operação dos espiões envolvidos no caso, o que pode justificar a adoção das medidas adicionais mencionadas por Obama:

    “Estas ações não representam a totalidade de nossa resposta às atividades agressivas da Rússia. Continuaremos a adotar uma variedade de medidas no momento e local de nossa escolha, algumas delas não serão divulgadas”

    Barack Obama

    Presidente dos EUA

    É improvável, no entanto, que o presidente eleito, Donald Trump, mantenha o mesmo posicionamento. Ainda durante a campanha, ele havia desdenhado da revelação, dizendo que os hackers poderiam não passar de “um cara na cama, pesando 200 quilos”.

    Além disso, Trump já havia encorajado, numa declaração pública, espiões russos a conseguirem acesso e a publicarem mensagens de Hillary - do tempo em que ela era Secretária de Estado do governo Obama (2009). A declaração de Trump fazia referência ao fato de a adversária ter sido investigada nos EUA pelo uso de uma conta privada de e-mail para trocar mensagens institucionais, algumas, confidenciais, quando respondia pelas relações exteriores.

    A tréplica russa

    De início, o governo russo deu sinais de que reagiria com dureza ao anúncio americano. O ministro das relações exteriores Sergei Lavrorv, chegou a dizer que também expulsaria diplomatas americanos:

    “A reciprocidade é lei diplomática nas relações internacionais. Por isso, propomos ao presidente da Rússia que declare ‘persona non grata’ 31 funcionários da Embaixada dos EUA em Moscou e outros quatro do consulado americano em São Petersburgo”

    Sergei Lavrov

    Ministro das Relações Exteriores da Rússia

    A medida, no entanto, acabou não sendo tomada. Em vez disso, Putin preferiu tomar a represália americana como se fosse apenas o gesto de um presidente em fim de mandato. Ao fazer isso, o presidente russo enalteceu indiretamente Trump, com quem espera manter melhores relações a partir do fim de janeiro.

    “Não vamos criar problemas para os diplomatas americanos. Não expulsaremos ninguém. Não proibiremos nem suas famílias, nem seus filhos de desfrutarem seus lares para descanso nas festas natalinas”

    Vladimir Putin

    Presidente da Rússia

     

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