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Como funciona o programa dos EUA de combate à solidão

Assim como obesidade ou o hábito de fumar, solidão aumenta a propensão a doenças e o risco de mortes. Com 42% dos usuários acima de 60 anos, site permite trocar ajuda e companhia, e previne isolamento

 

No Reino Unido e Estados Unidos, uma em cada três pessoas acima de 65 anos vive sozinha, o que faz com que se fale de uma “epidemia de solidão” nesses países. Metade da população com mais de 85 anos mora só, nos EUA. No Brasil, dados do IBGE apontam que 15,7% das pessoas com mais de 60 anos vivem sozinhas.

A Fundação Médica de Palo Alto mantém desde 2013 o programa-piloto LinkAges. Disponível na região de Palo Alto, no Vale do Silício, ela usa uma tecnologia que lembra a de startups como Uber ou Airbnb para lutar contra a solidão.

A ferramenta permite que os participantes ofereçam seu tempo para ensinar algo ou realizar alguma tarefa - como levar alguém ao médico ou dar uma aula de violão. Em troca, ganham créditos em uma espécie de banco de horas, que podem trocar pela ajuda de algum outro participante.

O linkAges se baseia na ideia de que todos têm algo a oferecer, e usa uma plataforma digital para permitir que pessoas solitárias ou não, velhas ou jovens, se conheçam e vivam experiências que envolvam interações sociais.

A solidão como problema de saúde pública

Publicada em março de 2015 no jornal “Perspectivas em Ciência Psicológica”, da Associação de Psicologia Social, a pesquisa “Solidão e isolamento social como fatores de risco para mortalidade” analisou os dados coletados entre 1980 e 2014 por 70 pesquisas sobre o tema, que compreendem juntas mais de 3,4 milhões de pessoas de diversos países, e chegou à conclusão de que a solidão aumenta em cerca de 30% o risco de morte.

Entre os impactos sobre o corpo, apontam estudos, está o aumento no nível de cortisol, hormônio associado ao estresse, além de uma maior resistência vascular, que pode aumentar a pressão sanguínea e diminuir a fluidez do tecido líquido em órgãos vitais do corpo.

Os sinais ativados no cérebro pela solidão também podem impactar a produção de células brancas, afetando o sistema imunológico.

“Nos Estados Unidos, você quase precisa de uma desculpa para bater na porta de um vizinho. Nós queremos quebrar essas barreiras (...) Nós da comunidade médica temos que nos perguntar: estamos controlando pressão sanguínea ou melhorando a saúde e o bem-estar?”, afirmou o médico Paul Tang, um dos criadores do programa, em entrevista publicada em dezembro de 2016 no jornal americano “The New York Times”.

Como funciona o linkAges

  • Os participantes podem postar no site alguma atividade para  a qual gostariam de contar com ajuda, como uma aula de culinária, um parceiro em um jogo de buraco ou uma ida ao médico
  • Outras pessoas podem se voluntariar para suprir essa demanda. Em troca, ganham um banco de horas equivalente ao tempo gasto. Se você gasta uma hora ajudando alguém, tem uma hora de crédito
  • Com essas horas, as pessoas podem pedir ajuda para tarefas das quais precisam

“Você não precisa de um companheiro todo dia. Mas saber que é valorizado e é um membro que contribui para a sociedade aumenta a autoconfiança”, afirmou o médico Paul Tang, um dos criadores do programa, em entrevista publicada em dezembro de 2016 no site do jornal americano “The New York Times”.

Segundo dados publicados em outubro de 2016 no jornal “The Washington Post”, mais de 1.000 pessoas de 10 cidades próximas a Palo Alto aderiram ao programa.

O site é voltado para gente de todas as idades, mas cerca de 42% dos participantes têm mais de 60 anos. A maior parte das trocas de serviços são de aulas ou orientação (33%), trabalhos de manutenção da casa, como jardinagem (19%), e auxílio no uso de tecnologia (16%).

Em entrevista ao “The Washington Post”, Pauline Thomas, de 76 anos, afirma que tem usado o serviço para obter companhia em caminhadas. Em troca, ela oferece arranjos florais e aulas sobre como montar ramalhetes decorativos de flores.

“É tão bom falar sobre o que está acontecendo com você, saber que você terá ajuda se precisar”, afirmou.

Vandana Pant, diretora da Fundação Médica de Palo Alto, afirmou que usuários do LinkAge dizem sentir uma conexão maior com suas comunidades. E que sistemas de saúde estaduais americanos estão mostrando interesse em replicá-lo.

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