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7 reflexões de Vera Rubin, astrônoma pioneira que confirmou a existência da matéria escura

Cientista morreu no dia 25 de dezembro. A consistência de seus argumentos provou uma teoria que foi recebida sem entusiasmo

 

A americana Vera Rubin foi a única astrônoma a se formar na Vassar College em 1948, uma tradicional universidade de Nova York para mulheres. Em 1965, depois de concluir um mestrado em Cornell em 1950 e um Ph.D em Georgetown em 1954, ela foi a primeira mulher a receber permissão para observar os astros no Observatório Palomar, na Califórnia. Na época, ele tinha os melhores telescópios disponíveis. Depois de uma vida de contribuições valiosas à ciência, Rubin morreu no dia 25 de dezembro de 2016, aos 88 anos.

O feito mais lembrado da cientista é ter confirmado a existência da matéria escura, componente responsável por alterações no comportamento das galáxias, como sua rotação - um passo relevante na compreensão do universo pelos cientistas. No início, ela enfrentou resistência no meio científico com relação à hipótese, mas acabou sendo aceita diante dos argumentos irrefutáveis da astrônoma. Mesmo assim, nunca recebeu um Prêmio Nobel.

Exatamente 100 anos antes da autorização dada a Rubin para pesquisar no Observatório Palomar, outra astrônoma havia colocado alguns dos primeiros alicerces da história das mulheres na astronomia nos EUA. Maria Mitchell se tornou, em 1865, a primeira professora da Vassar College - em seu período na instituição, ela permaneceu a única em um corpo docente inteiramente masculino.

“Eu sabia que [Maria Mitchell] havia lecionado em Vassar. Então eu sabia que havia uma escola em que mulheres podiam estudar astronomia...nunca me ocorreu que eu não pudesse ser uma astrônoma”,  disse Rubin em uma entrevista presente no livro “Origins: The Lives and Worlds of Modern Cosmologists”, uma compilação de entrevistas com cientistas publicada nos anos 1990.

O Nexo selecionou 7 trechos de discursos e entrevistas por meio dos quais Vera Rubin expôs sua relação pessoal com a astronomia e a carreira científica, sua curiosidade quando criança e as dificuldades de ser uma mulher nesse campo:

“Por volta dos 10 anos, deitada na cama, comecei a observar as estrelas se movendo na noite. Por volta dos 12, preferia ficar acordada e ver as estrelas do que ir dormir. Comecei a aprender, indo à biblioteca e lendo...Não havia nada na minha vida que fosse tão interessante quanto ver as estrelas toda noite. Eu achava isso extraordinário. Dava pra contar o tempo pelas estrelas. Eu conseguia ver meteoros.”

Em uma entrevista presente no livro ‘Origins: The Lives and Worlds of Modern Cosmologists’

“Na minha cerimônia de formatura, há 48 anos atrás, a probabilidade de que eu estaria aqui discursando para vocês esta noite certamente era zero”

Em uma cerimônia de formatura da Universidade de Berkeley, em 1996

“Frequentei uma escola pública no ensino médio em D.C. . Eu era muito, muito interessada em astronomia (...) Tive um professor de física que era um cara machão. Todo mundo amava ele — todos os meninos. Ele fazia experimentos; montava laboratórios. Todo mundo ficava muito animado. Eu não acho que ele sabia se relacionar com uma menina em sua aula… Ele nunca soube que eu me interessava por astronomia, que eu me interessava por ciência. No dia em que eu soube que tinha conseguido uma bolsa em Vassar (...) o encontrei no corredor e (...) contei que tinha conseguido a bolsa e ele me disse, ‘Desde que você fique longe das ciências, você vai se sair bem’. É preciso muita auto-estima para ouvir coisas como essa e não ficar devastada. Então mais do que ensinar física às meninas, você tem que ensiná-las que elas podem aprender o que quiserem”

Em uma entrevista presente no livro ‘Origins: The Lives and Worlds of Modern Cosmologists’

“Minhas conquistas na ciência vieram porque eu sabia o que queria fazer, e encontrei, como colegas de profissão, astrônomos gentis e prestativos. Nunca me senti desencorajada pelos que foram desencorajadores algumas vezes. Ao invés disso, insisti em trabalhar para solucionar problemas que estavam fora da astronomia ‘mainstream’ para que eu pudesse trabalhar no meu próprio ritmo, sem ser pressionada por temas mais populares. Não digo isso para servir de exemplo a vocês, mas só para mostrar que há diferentes abordagens possíveis para a ciência. Tem que haver. (...) A ciência é competitiva, agressiva, exigente. Mas também é imaginativa, inspiradora, edificante. Vocês também podem.”

Em uma cerimônia de formatura da Universidade de Berkeley, em 1996

“Conforme telescópios ficam maiores e os astrônomos mais inteligentes, acho que diversas coisas que serão descobertas vão exigir alterações nas nossas teorias… A ciência consiste em melhorar e melhorar continuamente o que foi aproveitável no passado”

Em uma entrevista presente no livro ‘Origins: The Lives and Worlds of Modern Cosmologists’

“Está na forma como criamos as meninas. Acontece muito cedo. Também acho que está no que meninas veem no mundo ao redor delas. É muito cultural. Tenho duas netas. (...) Aos dois anos, ela já sabia que homens eram médicos e mulheres eram enfermeiras. Então você pode falar de modelos e pensar sobre a universidade, mas isso acontece aos dois anos. É uma situação muito complicada.”

Em uma entrevista presente no livro ‘Origins: The Lives and Worlds of Modern Cosmologists’

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