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Este grupo quer transformar as nascentes de São Paulo em ‘cachoeiras urbanas’

Coletivo usa água de nascentes da capital paulista para ocupar os espaços públicos e chamar atenção para rios da cidade

 

O verão de um grupo de paulistanos foi diferente da maior parte dos moradores da cidade: eles aproveitaram o calor de terça-feira (27) debaixo daquilo que foi batizado por eles como “cachoeira urbana”.

A ideia é relativamente simples. Uma mangueira transferiu a água de uma nascente que fica em uma praça da zona oeste da cidade para uma caixa d’água, de onde outra mangueira - ligada a uma bomba e amarrada a um tripé - faz ela jorrar do alto.

É a segunda experiência de “cachoeira urbana” promovida pelo coletivo “Secura Humana”. O projeto pretende aproveitar a água de nascentes para “ocupar a água”, como gosta de dizer um dos idealizadores do projeto, o ator performista Flavio Barollo.

A água utilizada nessa cachoeira vem da nascente do Córrego Água Preta, que fica na Praça Homero Silva, no bairro da Pompeia. Diariamente, 10 mil litros de água são despejados na calçada do escadão da rua Salto Grande.

“Nós utilizamos essa água de nascente que é limpa, que já passou por testes. Ela não é totalmente potável, mas nós a salvamos ‘ocupando a água’, dando um novo uso para ela.”

Flavio Barollo

Ator formado pela Escola Superior de Artes Célia Helena e idealizador do Coletivo Secura Humana

Intervenção chama atenção para as nascentes da cidade

A capital paulista tem cerca de 265 bacias hidrográficas catalogadas.  Muitos rios seguem embaixo da cidade, canalizados e cobertos por avenidas, misturando-se ao esgoto.

O processo de urbanização ocultou a maior parte dos rios e córregos originais da cidade, tornando-os desconhecidos para a maior parte dos paulistanos.

Há, na avenida Paulista, próximo ao Masp (Museu de Arte de São Paulo), o rio Saracura. No centro, sob o bairro do Pacaembu, corre o rio Itororó. Na Pompeia está o Água Preta.

Este mapa dá a dimensão do número de rios da cidade:

Foto: Reprodução/Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica
No mapa, é possível ver a quantidade de rios da cidade
No mapa, é possível ver a quantidade de rios da cidade

Para Flávio Barollo, o paulistano não tem conhecimento sobre os rios que correm sob a cidade. Isso explica a relação dúbia que os passantes tiveram ao olhar a cachoeira urbana na terça-feira: alguns criticaram o desperdício e outros disseram que cuidar da água “é função da Sabesp” (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), diz o ator.

“Quem nasceu depois dos anos 1950-60, achava que o progresso era canalizar todos os rios”, ele afirma. “Hoje as pessoas querem esses rios de volta.”

Praça foi revitalizada por moradores

A Praça Homero Silva, onde foi instalada a cachoeira, estava deteriorada até 2013. Naquele ano, moradores da região se organizaram em um coletivo, chamado Ocupe e Abrace, e decidiram fazer a revitalização do local. A praça foi limpa, ganhou uma horta, um lago e um apelido: Praça da Nascente.

Recentemente, os moradores que cuidam da praça organizaram um abaixo-assinado contra a construção de um empreendimento imobiliário na avenida Pompeia que fica próximo à praça. Eles temem que o impacto das obras faça as fontes da região secarem.

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