Ir direto ao conteúdo

Como os ecos da Guerra Fria influenciam a ação russa na Síria

Decisão de confrontar militarmente interesses americanos no Oriente Médio reaviva antagonismo criado em 1945 e prolonga uma das mais graves crises humanitárias do mundo

     

    O conflito sírio está reavivando disputas militares entre duas potências nucleares: a Rússia e os EUA, cujo histórico de rivalidade marcou todo o século 20, escrevendo na história um período que ficou conhecido como Guerra Fria.

    De um lado, os russos defendem hoje a permanência no cargo do atual presidente sírio, Bashar al-Assad. De outro, os americanos respaldam grupos rebeldes que defendem a saída de Assad, cuja família está no poder há 53 anos ininterruptos. No meio, estão milhares de civis que tentam fugir da guerra, resultando numa das mais graves crises humanitárias da atualidade.

    Embora muitos elementos da Guerra Fria estejam hoje ausentes - a começar pela capacidade econômica russa, que não é mais a mesma - alguns elementos sobrevivem, sendo o antagonismo militar entre Washington e Moscou o principal deles. Nesse novo contexto, a Síria se tornou o palco de uma competição renovada.

    Protestos se transformaram em guerra

    A disputa entre opositores e o governo sírio começou em 2011, numa onda de protestos de rua que pedia a saída de Assad. Temendo enfrentar o mesmo destino de líderes de países árabes vizinhos, derrubados por uma onda de manifestações batizada de Primavera Árabe, Assad decidiu sufocar seus críticos. O recrudescimento da repressão empurrou parte da oposição síria para a luta armada.

    O Estado Islâmico migrou do Iraque para a Síria, pressentindo na desintegração territorial do país vizinho uma oportunidade para expandir seu plano de erguer um califado global

    Essa eclosão da guerra civil criou espaço para a ação de diversos grupos rebeldes que não atuavam necessariamente de maneira coordenada contra o governo. A confusão do contexto, com o governo perdendo o controle efetivo de parte importante do território sírio, animou a ação de extremistas.

    Um desses grupos foi o recém criado Estado Islâmico, que migrou do Iraque para a Síria, pressentindo na desintegração territorial do país vizinho uma oportunidade para expandir seu plano de erguer um califado global - espécie de império internacional regido pela interpretação mais dura das leis islâmicas.

    Por sua capacidade de conduzir ataques terroristas de grande envergadura no exterior, o Estado Islâmico foi declarado inimigo comum, tanto pelos EUA quanto pela Rússia. E foi sob esse pretexto que as duas potências se sentiram mais à vontade para interferir no destino da Síria.

    As potências entram em cena

     

    A Europa e os EUA assumiram desde o início posição crítica a Assad. Essas grandes potências ameaçaram o governo sírio de forma uníssona por meio da Otan (Aliança Militar do Tratado do Atlântico Norte), que congrega 28 países - e da qual a Rússia é antagonista.

    O apoio da Otan aos rebeldes, no entanto, nunca se concretizou plenamente. Embora tenha colaborado com apoio logístico, os membros da Otan não empreenderam qualquer esforço que tivesse Assad como alvo militar de qualquer ação específica. Parte da relutância se explica pelo temor de que grupos radicais se beneficiassem da queda do governo sírio, o que poderia fazer com que a pretendida revolução saísse de controle favorecendo a ascensão de um líder hostil aos interesses dos EUA e da Europa Ocidental no Oriente Médio.

    Em setembro de 2015, a Rússia - que, até então, se limitava a defender Assad retoricamente - passou do discurso à ação e entrou militarmente na guerra. Esse movimento foi decisivo para virar o jogo a favor de Assad. Além disso, aumentou enormemente o custo de uma eventual intervenção da Otan - pois havia agora o risco de uma grande guerra de proporções continentais.

    Qual a lógica da Guerra Fria

     

    O fato de EUA e Rússia se encastelarem em posições opostas numa disputa militar de grande envergadura evocou lembranças de um período que ficou conhecido como Guerra Fria.

    O termo diz respeito à reorganização da correlação de forças após a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Vencido o inimigo comum do nazismo, americanos e russos passaram a rivalizar numa disputa que, pelas décadas seguintes, passou a envolver não apenas aspectos militares, mas também econômicos, ideológicos e até tecnológicos e espaciais, com Washington e Moscou competindo para mostrar ao mundo que país, e que modelo econômico - o capitalismo americano ou o comunismo soviético - era capaz de realizar os maiores feitos.

    Nos anos 1960 e 1970, a URSS (bloco encabeçado pela atual Rússia) e os EUA tinham o mundo como um tabuleiro sobre o qual tentavam ampliar suas respectivas áreas de influência, derrubando governantes vistos como hostis e incitando a ação de grupos rebeldes.

    Essa disputa teve reflexos profundos no mundo todo. Sob o argumento de barrar o comunismo, Washington fomentou ditaduras militares em grande parte da América Latina. E sob o argumento de promover o comunismo, Moscou subvencionou durante anos o regime cubano.

    Embora grande parte desse contexto não exista mais, permanece hoje uma disputa - às vezes velada, às vezes explícita - entre russos e americanos, cada qual tentando ampliar, ou pelo menos manter, sua influência internacionalmente.

    Os antecedentes da Líbia e da Ucrânia

    A URSS implodiu em 1991. Em seu lugar, emergiu uma Rússia que, embora tenha se tornado capitalista, faz contraponto à hegemonia americana, sobretudo em assuntos de defesa.

    A Síria pode ser entendida como mais um capítulo nessas disputas. Porém, para entender como o impasse chegou ao ponto atual, é preciso entender dois incidentes prévios:

    Derrota russa na Líbia

    O ano de 2011 marcou dois acontecimentos interligados. Na Síria, eclodiram os primeiros protestos que pediam a saída de Assad. Enquanto isso, na Líbia, o então presidente, Muammar Gaddafi, era linchado e arrastado pelas ruas na cidade de Sirte. A deposição de Gaddafi teve apoio decisivo da Europa e dos EUA, que deram informações estratégicas para que os rebeldes matassem o presidente líbio. Mesmo se opondo ao movimento rebelde, a Rússia não vetou a Resolução 1973 das Nações Unidas, que autorizava o uso de “todos os meios necessários” para impedir que Gaddafi sufocasse os dissidentes. Os russos consideraram a mudança de regime um abuso por parte dos americanos, e, embora não pudessem fazer nada a respeito do incidente passado, guardaram esse precedente para reagir em situações futuras, como agora, na Síria.

    Revide russo na Ucrânia

    Em 2014, a ex-república soviética da Ucrânia, no Leste Europeu, decidiu se aproximar da União Europeia, rompendo laços com Moscou. Europa e EUA deram apoio ao movimento, o que provocou reações adversas por parte da Rússia. O presidente russo, Vladimir Putin, enviou tropas para a fronteira e tomou de volta para si a Península da Crimeia. A anexação foi considerada ilegal pelas Nações Unidas, mesmo com a população do local tendo votado esmagadoramente a favor do reatamento histórico com Moscou. Se a Líbia marcou uma vitória americana, a Ucrânia terminou numa espécie de empate, cuja tensão se manteve até o capítulo seguinte: a intervenção militar russa na Síria.

    O interesse russo na Síria

    Há laços antigos de cooperação militar entre a Rússia e a Síria. Oficiais sírios participam de programas de formação em escolas russas. Moscou também tem sido um importante fornecedor de suprimentos militares para as forças sírias ao longo dos anos.

    Mapa da Síria
     

    A Rússia tem na cidade de Tartus, no oeste da Síria, sua única base naval em todo o Mediterrâneo. Esse mar é importante, não apenas por oferecer suporte logístico para as ações em solo sírio, mas também por dar aos russos acesso a três regiões estratégicas: o sul da Europa, o norte da África e o oeste do Oriente Médio.

    Além dessa base naval, os russo possuem ainda uma segunda instalação militar de peso na Síria, a base aérea de Khmeimim, ou Hmeimim, localizada na cidade de Latakia, a apenas 86 km ao norte do porto de Tartus. A base aérea foi construída no fim de setembro de 2015, quando a Rússia entrou no conflito sírio.

    Além das instalações físicas, a Rússia possui um acordo com a Síria que permite a livre movimentação de pessoas e de cargas sem qualquer embaraço burocrático, numa espécie de passe livre para a movimentação de tropas.

    A base naval de Tartus, a base aérea de Latakia e os acordos de livre movimentação permitiram aos russos levar para a Síria um pesado arsenal, composto por navios e aviões de guerra, sistemas sofisticados de lançamento de mísseis e outros materiais bélicos que levaram o conflito a um novo patamar.

    Duas visões sobre a disputa na Síria

    O Nexo fez três perguntas a dois professores de relações internacionais para saber se eles identificam ecos da Guerra Fria na Síria, e como eles enxergam o desfecho desse impasse. Os entrevistados são:

    • Igor Fuser, professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC
    • Cecilia Baeza, professora de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas e da PUC de São Paulo

    A disputa entre russos e americanos na Síria reaviva elementos da Guerra Fria?

    Igor Fuser A atual disputa entre EUA e Rússia no conflito da Síria têm diferenças e semelhanças com a disputa bipolar da Guerra Fria. A Rússia já não exerce mais o papel de um ator global, com interesses em todos os cenários geopolíticos do planeta. Hoje seus interesses estão concentrados no entorno geográfico do próprio país, o que não é pouca coisa, dadas as suas dimensões gigantescas.

    A Rússia intervém na Síria movida pelo objetivo de preservar alguma influência no Oriente Médio e, em especial, por garantir o acesso ao Mediterrâneo, com sua base naval em território sírio. Também deixou de existir o confronto ideológico da Guerra Fria, já que as duas potências são capitalistas. Mas persiste um elemento central ao contexto da Guerra Fria que é a disputa geopolítica. A Rússia, juntamente com a China, se tornou um obstáculo ao projeto estadunidense de um mundo unipolar, regido pelos EUA de uma forma praticamente imperial. Os EUA buscam debilitar o poderio russo, enquanto Putin trata de reforçar a soberania do seu país e sua condição de grande potência. Isso explica o confronto entre Rússia e os EUA também em outros cenários, como a Ucrânia, assim como o interesse de Washington em aplicar sanções com o objetivo de levar a economia russa ao colapso.

    Cecilia Baeza A atuação de Putin na Síria reaviva o estatuto internacional da Rússia como grande potência, em particular como potência militar. Sua influência política aparece principalmente como um derivado do uso estratégico e oportunista da força militar. O que impressiona não é tanto a capacidade militar russa – o orçamento militar da Rússia representava em 2015 apenas 11% do orçamento militar dos EUA – como a sua determinação em fazer uso dela. Nesse sentido, não há dúvida de que Putin conseguiu seus objetivos, colocando novamente a Rússia como um ator incontornável no cenário internacional.

    Apesar disso, eu seria muito prudente em falar em ‘nova Guerra Fria’. Embora existam sinais inquietantes de confrontação latente entre os países ocidentais e a Rússia na Europa Oriental - como no caso emblemático da Ucrânia - na Síria, a divergência de interesses entre EUA e Rússia me parece muito menos clara. Em 2013, após o uso de armas químicas pelo regime de Assad, [Barack] Obama [presidente dos EUA] preferiu cooperar com a Rússia para retirar as armas químicas da Síria a intervir militarmente. Do mesmo jeito, desde setembro de 2015, os EUA observam com relativa passividade a intervenção militar russa.

    Além da retórica de aparente animosidade, parece haver uma convergência de visão na luta contra o Estado Islâmico como prioridade número um, e sobre a ideia do que o regime de Assad representa um mal menor. Na realidade, os EUA têm abandonado a oposição ao regime sírio. Essa convergência poderia se aprofundar sob a presidência de Donald Trump [que assume em janeiro].

    Se não tivesse havido uma intervenção militar russa na Síria a partir de setembro de 2015 teria havido uma intervenção militar americana? É possível dizer o que é pior?

    Igor Fuser Os EUA fomentaram a rebelião síria com o objetivo de derrubar Assad e substituí-lo por um governo alinhado com os interesses e as ideias do Ocidente. A estratégia era reforçar os chamados rebeldes moderados, não fundamentalistas, dentro de uma ampla aliança anti-Assad.

    Em 2013 tudo estava pronto para o envio de tropas da Otan, não necessariamente estadunidenses, mas o Ocidente recuou quando a Rússia deixou claro que estava disposta a intervir em apoio a Assad. Ocorreram então duas coisas que não estavam nos planos de Washington. Em primeiro lugar, a surpreendente capacidade de resistência do governo sírio, em contraste com o que ocorreu na Líbia, quando o regime de Gaddafi desmoronou em pouco tempo. O segundo imprevisto foi o grau de protagonismo alcançado pelos grupos fundamentalistas radicais, como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, que eliminaram os rebeldes moderados e reassumiram seu papel tradicional como os grandes inimigos da civilização, a partir dos atentados na Europa. A presença do Estado Islâmico complicou o apoio ocidental aos rebeldes e abriu espaço para o ingresso da aviação russa como o único meio eficaz de combater os terroristas. O envolvimento russo desequilibrou a guerra civil síria, favorecendo a vitória de Assad, ao menos até agora.

    Cecília Baeza Acho altamente improvável uma intervenção militar americana. Em cada etapa da crise síria, inclusive quando havia janelas de oportunidade em termos de alianças e de legitimidade, Obama mostrou uma clara relutância em intervir de forma mais direta no conflito. A falta de confiança nos grupos rebeldes - considerados suspeitos, tanto pela Casa Branca quanto pela opinião pública americana, de proximidade com os jihadistas [extremistas que evocam o Islã como argumento para combater] -, constitui um elemento central para entender a posição dos EUA.

    Considero pessoalmente que a situação na Síria desde 2013 merecia a aplicação do princípio de ‘Responsabilidade de Proteger (R2P)’ estabelecido em 2005 pelas Nações Unidas para proteger os civis contra a repressão sem limites do regime sírio contra sua própria população. Falar de “intervenção militar” em geral equiparando todas as situações me parece enganoso: apoiar unilateralmente um regime ditatorial como faz a Rússia não tem nada a ver como o que poderia ter sido uma intervenção limitada no tempo e nos objetivos, baseada num máximo consenso internacional possível, para proteger a sociedade civil síria. É verdade que o precedente da Líbia em 2011, onde a coalizão militar não respeitou o mandato inicial da resolução 1973 que também se baseava no R2P, não ajudou a criar confiança entre os atores internacionais. Mas me parece que a comunidade internacional não pode se condenar à passividade perante crimes contra a humanidade como foram cometidos pelo regime de Assad.

    Essa passividade, combinada com a cumplicidade da Rússia nas operações de limpeza étnica que realiza o regime nas regiões de maioria sunita, representam um imenso retrocesso.

    Como o desfecho deste conflito influencia a correlação de forças entre a Rússia e a os EUA e a Otan no futuro próximo?

    Igor Fuser Caso se confirme o desenlace da guerra civil síria tal como se apresenta hoje, com a vitória de Assad sobre os rebeldes apoiados pela Otan, esta será a primeira vez que os EUA sofrem uma clara derrota no Oriente Médio desde a Revolução Iraniana de 1979.

    A Rússia sairá fortalecida no conflito contra os aliados da Otan na Ucrânia e em outros pontos do seu entorno geográfico. No contexto do Oriente Médio, os olhares agora se voltam para a Turquia, que já tem se afastado da Otan desde a fracassada tentativa golpista. O presidente turco Erdogan acusa os EUA de estarem por trás dos golpistas.

    A estratégia russa é atrair a Turquia para o grande bloco geopolítico e econômico que está sendo construído na Eurásia, sob a liderança da China. Esse bloco tem como principal instrumento a Organização para a Cooperação de Xangai, na qual deve ingressar brevemente o Irã. Se Donald Trump levar adiante o que prometeu, desmontando o acordo nuclear que o presidente Obama costurou com o Irã e tornando ainda mais incondicional o apoio estadunidense a Israel, o resultado será o isolamento crescente dos EUA no Oriente Médio e na Ásia Central, favorecendo a consolidação do eixo Moscou-Beijing-Teerã

    Cecilia Baeza Muitos observadores consideram que Putin está jogando um jogo arriscado na Síria e na Ucrânia. O país já enfrenta sérias dificuldades econômicas, mas o aumento inconsiderado das despesas militares assim como as sanções resultantes da atuação do governo Putin na Ucrânia têm piorado as condições estruturais da economia russa.

    Considerando esses dados e o fato de que a Rússia tem um PIB apenas equivalente ao da Itália, cabe perguntar até quando o país poderá sustentar uma confrontação com os EUA. Talvez por isso Putin tenha interesse na vitória de candidatos mais favoráveis a seus interesses, como Donald Trump nos EUA e, no futuro, François Fillon ou Marine Le Pen, na França, em vez de preferir apostar no agravamento das tensões com os membros da Otan. Para sua própria sobrevivência, a Rússia precisa absolutamente deslocar a correlação de forças para o terreno político e não unicamente militar.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!