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Como o aquecimento global pode afetar o tempo dedicado ao trabalho e ao lazer

Em relação ao que ocorre com máximas entre 24,4ºC e 26,7ºC, dias com temperaturas acima de 37,8ºC registram quase uma hora a menos de atividades profissionais ao ar livre

    Diversas pesquisas apontam o impacto do aquecimento global sobre a natureza, agricultura e cidades costeiras. Há relativamente poucas projeções, no entanto, sobre a forma como as temperaturas mais altas podem mudar o comportamento das pessoas.

    Publicado em 2014 no “Journal of Labour Economics”, o estudo “Temperatura e a Alocação do Tempo: Implicações da Mudança Climática” busca entender como as pessoas distribuem seu tempo entre trabalho e atividades de lazer dentro e fora de casa quando há picos de temperatura.

    Realizado nos Estados Unidos, o estudo destaca as mudanças esperadas no clima, caso não haja redução de emissões de gases estufa. O número de dias com temperaturas máximas acima de 37,7ºC durante o ano no país deve subir de 1%, quando considerado o período entre 2003 e 2006, para 15% do total entre 2070 e 2099.

    Esses dias extremamente quentes são concentrados no verão. O que significa que metade dessa estação terá temperaturas máximas acima de 37,7ºC nos Estados Unidos.

    Nessas condições, as pessoas cujas profissões são exercidas ao ar livre tendem a diminuir em cerca de uma hora o tempo trabalhado. E mesmo atividades de lazer ao ar livre são prejudicadas: as pessoas passam a preferir realizá-las em espaços fechados.

    O próprio trabalho avalia que tem limites, e não serve para entender as mudanças mais amplas que devem surgir com o aquecimento global. Os dados podem ajudar, no entanto, “a iluminar uma forma pela qual o aquecimento global afetará o bem-estar social, e que vem sendo até o momento ignorada”.

    O efeito do calor sobre o trabalho

    A pesquisa cruzou informações sobre temperatura do Centro Nacional de Dados Climáticos com informações coletadas pelo governo dos EUA sobre como a população americana gasta seu tempo.

    A conclusão do estudo é de que temperaturas altas demais tendem a diminuir o tempo dedicado ao trabalho. Mas isso não acontece de forma homogênea. Trabalhos ao ar livre, mais expostos ao clima, são especialmente prejudicados. Entram na lista agricultura, pesca, construção, mineração e transporte.

    A maior parte da redução ocorre ao final do dia. O estudo levanta a hipótese de que é nesse momento que “a fadiga causada pela exposição prolongada ao calor tem efeito”.

    Segundo a pesquisa, o tempo de trabalho em temperaturas acima de 37,78ºC é cerca de 59 minutos menor do que em temperaturas entre 24,4ºC e 26,7ºC — entre quem faz atividades em ambientes abertos.

    O efeito do calor sobre o lazer

    O calor também muda a forma como as pessoas distribuem o tempo dedicado ao lazer. Em dias moderadamente quentes, a quantidade de horas gastas em atividades em ambientes fechados diminui, e o tempo gasto em atividades ao ar livre aumenta.

    Essa redistribuição vale especialmente para aqueles que não estão trabalhando, à medida que têm maior liberdade para decidir sobre os seus próprios horários — se preferem ficar dentro ou fora de casa. Entram nesse grupo aposentados (38%), desempregados (12%) e estudantes (50%).

    Segundo a pesquisa, a transferência de tempo de trabalho para atividades de lazer fora de casa tem um limite. Conforme se atingem as temperaturas mais elevadas, essas atividades se tornam desagradáveis, e o lazer em lugares fechados passa a ser uma alternativa mais atraente.

    O tempo gasto em atividades de lazer fora de casa fica estável até as temperaturas de 37,78ºC, quando passa a cair. “Esse padrão é consistente com evidências fisiológicas que sugerem que há fadiga devido à exposição a extremos de temperatura”, diz o estudo.

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