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Como o antigo ato de bordar acabou ganhando um novo significado nos dias atuais

Prática antes associada a donas de casa e senhoras idosas voltou pelas mãos de jovens feministas

     

    Durante muitas décadas ponto cruz foi disciplina obrigatória para mulheres. Saber bordar e tricotar era tão essencial quanto cozinhar e cuidar dos filhos. A prática, historicamente associada ao papel do gênero feminino, ganha agora um novo significado, a partir de grupos que se reúnem para debater feminismo enquanto realizam trabalhos artesanais.

    Nos últimos anos, surgiram lojas e cursos dedicados ao bordado, crochê, tricô e macramê. O coletivo Clube do Bordado, por exemplo, foi criado em 2013 com a proposta de trabalhar temas de gênero com o tempo exigido pelas atividades artesanais, resgatando uma prática tradicional.

    Atualmente, o coletivo oferece cursos em diversas cidades do país. A mesma lógica foi adotada pelo Bordado Empoderado,  iniciativa da jornalista gaúcha Bruna Antunes, e pelo Nectarina - Bordados Subversivos.

    A mestranda em imagem e som Giovanna Consentini, de 27 anos, foi uma das mulheres atraídas pela prática. Em julho, em busca de um hobby, ela se matriculou em um curso de duas semanas do Clube do Bordado. As aulas mostravam os pontos básicos, acabamentos com as linhas e dicas de onde comprar material.

    “Tenho problemas com ansiedade, e fazer coisas manuais me ajuda a concentrar e não pensar nos ‘desgraçamentos’”, diz. Desde que começou, faz alguns trabalhos esporadicamente em seu tempo livre e criou uma página no Instagram para divulgar os resultados.

    “Quando minha vó me ensinou ponto cruz e crochê, eu achava que era uma coisa de velha. Mas dá para ver que hoje em dia tem muito mais mulheres abraçando esses trabalhos”

    Giovanna Consentini

    Mestranda em imagem e som

    A assistente de projetos Fernanda Dalberto, de 25 anos, também foi atraída pelo tipo de abordagem dos novos cursos. Ela se matriculou na oficina “O Corpo e o Feminino no Cinema”, que buscava resgatar a prática manual do bordado atrelada às rodas de conversas. “A ideia era o resgate como uma forma de empoderamento feminino”, diz.

    “Como eu e minha mãe estávamos conversando bastante sobre a questão da mulher, eu mostrei pra ela porque eu achei que seria uma boa fazermos juntas, como um espaço para conversamos mais sobre isso. Fizemos mais pelo tema do que pelo bordado em si”

    Fernanda Dalberto

    Assistente de projetos

    Em cada encontro, segundo conta, era apresentado um curta de temática feminista, seguido pelo bordado e conversa. A temática, como esperado, aparecia nos produtos finais. “Meu primeiro bordado foram peitinhos e o segundo, um útero”, diz.

    A publicitária Camila Pons, de 27 anos, não se inscreveu em um curso, mas aprendeu a bordar por conta própria a partir de inúmeros tutoriais disponíveis na internet. A partir de 2017, ela pretende organizar workshops para ensinar a arte a suas colegas de trabalho.

    “Acho que é uma maneira de aproximar pessoas que desconfiavam dessa prática, taxada como coisa de mulher desatualizada. Tinha um estereótipo. Quando você vê mulheres dando outros valores, você aproxima uma nova geração de algo que é gostoso de fazer”

    Camila Pons

    Publicitária

     

    O bordado como resistência na história

    À despeito do estigma que circunda o bordado, ele já teve importantes dimensões políticas em sua história. Muitas mulheres, por exemplo, utilizaram o bordado como subterfúgio psicológico ou como fonte de renda, seja para o orçamento familiar, ou como forma de emancipação.

    O livro “Bordados”, da cartunista iraniana Marjane Satrapi (autora de “Persépolis”), é um exemplo de como a tradição já foi apropriada por mulheres anteriormente. Na obra, Satrapi relata um ritual típico de sua família em sua infância no Irã: após o jantar, enquanto os homens tiravam a siesta, mulheres lavavam a louça e depois se reuniam em um quarto privado para bordar. O bordado, no entanto, servia como pretexto para conversarem sobre seus problemas e intimidades, na ausência dos homens. Estupros, adultérios e frustrações estavam entre os temas. Bordado era também o termo utilizado para se referir a cirurgia de reconstituição do hímen, feita por mulheres que não queriam abrir mão da vida sexual antes do casamento, em uma sociedade extremamente conservadora.

    “Acho que hoje a finalidade de bordar foi mudando mesmo, mas a troca de experiências ainda fica no clima desse livro. Mesmo que seja na internet”

    Giovanna Consentini

    Mestranda em imagem e som

    No Chile, existem as arpilleras, técnica de bordado utilizada pelas mulheres para denunciar as violações cometidas pela ditadura militar no país. Elas foram criadas por um grupo de bordadeiras de Isla Negra, no litoral chileno, que costuravam a mão imagens feitas de pano,  distribuídas clandestinamente.

    A técnica servirá de fio condutor para o desenvolvimento do documentário “Arpilleras: bordando a resistência”, sobre pessoas atingidas por barragens no Brasil. No filme, cinco mulheres farão parte de uma arpillera, bordando para as outras a sua história. 

    A cultura do ‘feito à mão’

    Para além do trabalho de ressignificação feminista, a recuperação do bordado se insere no chamado “movimento slow”. Basicamente, uma filosofia que repensa a correria do dia a dia adotando um estilo de vida mais tranquilo que envolve, entre outros fatores, o resgate de atividades manuais como forma de fugir à frenética sociedade conectada.

    Para o doutor em filosofia política Matthew Crawford, que abandonou o trabalho na academia para se tornar mecânico em uma oficina de motocicletas, o exercício de trabalhos manuais nos ajuda a nos sentir melhores e a agir melhor no dia a dia.

    Segundo ele, o cansaço que as pessoas sentem no fim de um dia de trabalho na frente do computador pode não ter a ver com a profissão que escolheram ou com a carga de trabalho, mas, simplesmente, um efeito colateral de uma ocupação focada no intelecto e não no trabalho manual.

    “As satisfações de se manifestar concretamente no mundo através de trabalhos manuais é conhecida por ter a capacidade de trazer tranquilidade. [Esses trabalhos] parecem aliviar a necessidade do indivíduo de pensar em interpretações trepidantes para justificar seu valor. Ele pode simplesmente observar: o prédio está de pé, o carro funciona, as luzes ligam”

    Matthew Crawford

    Acadêmico e mecânico

    Estudos também mostram que  bordar e tricotar pode trazer benefícios para a saúde. Especialistas dizem que tais atividades levam a um estado de relaxamento similar ao da meditação e da ioga. Elas também podem ajudar a reduzir a dor e ajudar no tratamento de depressão, ansiedade e esquizofrenia.

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