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A carta aberta de Björk contra o sexismo na música, em 4 trechos

‘No fim desse ano tumultuado, não vou deixar isso passar: porque todos merecemos o máximo de mudança nessa energia revolucionária na qual estamos imersos atualmente’, diz na carta

     

    Na penúltima semana do ano, a artista islandesa Björk se juntou ao coro de mulheres no campo das artes e do entretenimento que se pronunciaram ao longo de 2016 contra o sexismo em suas áreas de atuação.

    Diante de críticas sobre sua atuação recente como DJ, ela publicou no dia 21 de dezembro uma carta aberta em sua página no Facebook, na qual aponta tratamento assimétrico dado ao trabalho artístico de mulheres e homens.

    Björk ocupa um lugar de prestígio na música alternativa, experimental e eletrônica desde os anos 1990, quando lançou sua carreira solo. Antes disso, ela era um dos vocais da banda The Sugarcubes. Na verdade, cantava profissionalmente desde criança.

    Há cerca de um ano, Björk passou a subir nos palcos também como DJ. A apresentação mais recente da artista aconteceu no Festival Day For Night, nos Estados Unidos, e provocou críticas de jornalistas sobre ela estar “se escondendo atrás de uma mesa de som”.

    Ela apontou o sexismo do comentário: nenhum DJ homem, segundo afirma na carta, jamais foi acusado da mesma coisa.

    Em uma entrevista concedida à revista “Pitchfork Review” em 2015, após o lançamento do álbum “Vulnicura” ela já havia declarado que “depois de ter sido a única garota da banda por 10 anos, eu aprendi — do jeito difícil — que se eu quisesse que minhas ideias fossem executadas, teria que fingir que eles — os homens — tiveram essas ideias”.

    Os principais pontos da carta

    Tratamento assimétrico

    “Parte da mídia não conseguiu entender por que eu não estava ‘me apresentando’ e sim me ‘escondendo’ atrás de mesas [de DJ]. E meus colegas homens não [são acusados disso]. E eu acho que isso é sexismo. Ao fim desse ano tumultuado, não vou deixar isso passar: porque todos merecemos o máximo de mudança nessa energia revolucionária na qual estamos imersos atualmente”

    Cantoras-compositoras só estão autorizadas a fazer música sobre relacionamentos

    “As mulheres na música estão autorizadas a serem cantoras e compositoras que cantam sobre seus namorados. Se elas mudam de assunto para átomos, galáxias, ativismo, matemática nerd usada na edição de batidas ou qualquer outra coisa além de serem intérpretes cantando sobre seus amores, elas são criticadas: os jornalistas sentem que falta algo, como se nossos únicos assuntos fossem emocionais”

    Percurso pessoal

    “Eu fiz [os álbuns] ‘Volta’ e ‘Biophilia’ ciente do fato de que esses não eram assuntos sobre os quais mulheres normalmente escrevem. Eu senti que podia. No ativista ‘Volta’, cantei sobre pilotas suicidas de bombardeio grávidas e pela independência das Ilhas Faroë e da Groenlândia. No pedagógico ‘Biophilia’, cantei sobre galáxias e átomos mas foi só com ‘Vulnicura’, quando falei sobre uma desilusão amorosa, que ganhei aceitação total da mídia. Aos homens é permitido passar de um assunto a outro, fazer ficção científica, obras de época, palhaçadas e serem cômicos, nerds de música que se perdem esculpindo uma atmosfera sonora. Às mulheres não. Se não rasgarmos o peito e sangrarmos sobre os homens e crianças de nossas vidas, estamos enganando nosso público”

    Perspectiva de mudança

    “Espero que no ano que vem, embora eu tenha sido corajosa por compartilhar com vocês um assunto clássico [que se espera] das mulheres — o coração partido —, eu possa tirar essa fantasia e sair desse papel. Vocês congelaram Édith Piaf e Maria Callas nele (nenhum documentário que vi sobre ela [Callas] deixa de mencionar [Aristóteles] Onassis, mas não há menção sobre as mulheres que os músicos amaram ou sobre as que partiram seus corações). Vamos fazer de 2017 o ano em que executamos plenamente essa transformação!!! O direito à diversidade para todas as garotas aí fora!!!”

    2016: o ano em que mulheres do entretenimento falaram sobre machismo

    As acusações contra tratamentos machistas, assédio e diferença de remuneração e reconhecimento no trabalho de homens e mulheres feitas por mulheres do mundo do entretenimento, principalmente em Hollywood e na música, vêm em uma escalada desde 2015.

    Mas 2016, conforme observou a revista “Vanity Fair”, foi definitivamente o ano em que as mulheres revidaram.

    A revista se refere especificamente às mulheres de Hollywood ao listar todos os posicionamentos de mulheres que falaram contra a remuneração maior recebida por homens parceiros de set executando o mesmo trabalho, o policiamento contra seus corpos, seu envelhecimento, de suas escolhas pessoais e de seus relacionamentos — entre elas, as atrizes Renée Zellweger, Jennifer Aniston e Mila Kunis.

    Mas não foram só as atrizes que se levantaram contra essas circunstâncias: Madonna fez um discurso assertivo no prêmio Billboard Women in Music 2016, no qual disse que as mulheres no entretenimento são feitas de capacho e não têm a mesma liberdade que os homens.

    A cantora Kesha, homenageada no mesmo prêmio que Madonna, também protagonizou, neste ano, um episódio de combate ao machismo pelas mulheres da música: a batalha legal entre ela e seu antigo produtor, Dr. Luke, que foi acusado por ela de abuso sexual e a quem estava presa contratualmente.

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