Qual a gravidade da poluição do ar na China

Quase meio milhão de pessoas vivem em regiões com qualidade do ar até seis vezes pior do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde

 

A quarta-feira (21) foi o sexto dia seguido de “alerta vermelho” em cidades no norte da China. A capital do país, Pequim, está entre os locais afetados desde o sábado anterior (17). A medida força o fechamento de escolas, estradas e fábricas, e encoraja a população a permanecer dentro de casa.

O motivo da ação emergencial, colocada em prática pelos governos locais de três regiões do país — Pequim, Hebei e Tianjin — é o nível da poluição atmosférica. Imagens das cidades afetadas mostram a forte neblina causada por poluentes, dificultando a visão e fazendo com que as pessoas que precisam sair às ruas recorram ao uso de máscaras.

O acontecimento tem se tornado comum na China e já tem até nome para quando acontece: “arpocalipse”.

 

Partículas poluentes microscópicas, do tamanho de até 2,5 micrômetros (milionésimos de metro) conhecidas como PM2.5, atingiram níveis alarmantes. Elas são produzidas por todo tipo de combustão, como motor de carro, indústrias de energia, queima de lenha domiciliar e processos industriais, por exemplo.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que a quantidade máxima segura desse tipo de poluente seja de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Em todos os locais sob o “alerta”, análises apontaram para um índice seis vezes maior.

1.000

microgramas por metro cúbico de PM2.5 e PM10 foram detectados na cidade de Shijiazhuang, na região de Hebei — 40 vezes mais do que o aceito

Os números demonstram o tamanho do problema. Segundo o jornal “Financial Times”, na terça-feira (20), antes mesmo do meio-dia, o Aeroporto Internacional de Pequim já havia cancelado 217 voos por falta de visibilidade, causada pela alta concentração de poluentes no ar. Isso representa um terço de todos os voos do dia.

460 milhões

de pessoas estão expostas à poluição “pesada”, ou seja, seis vezes mais do que o recomendado pela OMS

Na sexta-feira (16), a agência de notícia “Xinhua”, do governo chinês, publicou em seu Twitter uma série de imagens de Pequim que mostra a neblina de poluentes tomando conta da cidade ao longo do dia.

Centenas de habitantes das áreas atingidas optaram por deixar suas casas e irem para outras regiões do país, ou até do mundo, para “aliviar os pulmões”. Segundo o jornal local “China Daily”, a agência de viagens Ctrip espera que 150 mil pessoas saiam do país para fugir da fumaça.

Wang Min, professor de política pública e ambiental na Universidade de Pequim, disse ao “Financial Times” que o problema é particularmente grave esse ano por questões ambientais, uma vez que a região tem “poucos ventos” e as temperaturas têm ajudado a neblina a ficar “presa no nível do solo”. Segundo ele, em média, os níveis de poluição estão caindo ao longo dos anos.

Queima de carvão é principal problema

 

Um estudo conduzido por cientistas americanos e chineses divulgado em agosto mostrou que a maior parte das mortes causadas pela poluição do ar na China ocorre pela queima de carvão. Não por acaso, as cidades mais afetadas pela neblina poluente estão entre as maiores concentrações de indústrias de carvão e ferro do país.

177 mil

mortes prematuras foram causadas pela queima de carvão, representando 40% do total de mortes por poluição

O país consome quase tanto carvão quanto todo o resto do mundo junto, e tem no “ouro negro” sua principal fonte de energia elétrica, usada para abastecer a produção industrial da segunda maior economia do globo.

Os níveis de poluição pioraram especialmente nos últimos meses, depois de o governo conceder incentivos à indústria para reverter um cenário de queda econômica. O estímulo deu certo, e no segundo trimestre de 2016 o país cresceu 6,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

 

Mas a conta a ser paga é a poluição, uma vez que a economia do país ainda é altamente dependente dos combustíveis fósseis e, em especial, do carvão. A chegada do inverno é outro complicador, uma vez que a demanda por energia elétrica tende a crescer. O primeiro “alerta vermelho” por poluição da história de Pequim — e da China — foi em 2015, também em dezembro.

Um grupo de advogados de Pequim entrou com um processo contra o governo chinês, considerando que a política ambiental definida pela própria administração pública não é cumprida. A principal reclamação é não fazer valer a lei que exige das empresas a divulgação pública de suas emissões.

As medidas do governo

Na falta de ações abrangentes, resta aos governos locais tomarem medidas paliativas. Desde que os níveis de poluição começaram a subir, foram adotadas políticas de restrição na circulação de pessoas e um rodízio entre carros com placas par ou ímpar.

Mas a China tem planos para diminuir seu uso de combustíveis fósseis e mudar a matriz energética na direção de fontes renováveis. Os principais alvos são a energia eólica e a hidrelétrica. O investimento em barragens é tão grande que os chineses inclusive geram impactos negativos no abastecimento de água de países vizinhos ao desviar a rota de rios.

Outro indicador positivo identificado por especialistas é o fim do negacionismo governamental com relação à poluição. Em 2008, a embaixada americana em Pequim instalou um medidor de poluição de ar, causando a revolta do governo chinês. Pressionada, a administração do país passou a fazer ela mesma a medição, abrindo espaço para mudanças políticas a partir do reconhecimento do problema.

Se antes o país apontava o aquecimento global como uma desculpa criada pelos EUA para que as potências emergentes não desenvolvessem suas indústrias, hoje é a própria China que faz pressão para que o presidente eleito Donald Trump não deixe de lado os acordos internacionais ambientais quando assumir a presidência.

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