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A descoberta que colocou uma brasileira na elite da ciência mundial

Pesquisadora lembrada pela revista científica mais renomada do mundo ajudou a provar a relação entre o vírus zika e a microcefalia

     

    A epidemiologista Celina Maria Turchi Martelli foi citada entre os dez pesquisadores mais importantes do mundo em 2016, de acordo com uma lista anual feita pela revista científica “Nature”, a mais renomada do mundo.

    Turchi é especialista em doenças infecciosas da Fiocruz Pernambuco. Ele se formou em medicina na Universidade Federal de Goiás, Estado onde nasceu, tornou-se mestre em epidemiologia na London School of Hygiene & Tropical Medicine e doutora em medicina preventiva na Universidade de São Paulo.

    Sua carreira adquiriu novo rumo quando, em setembro de 2015, o Ministério da Saúde pediu a ela que investigasse o surto, em Pernambuco, de bebês nascendo com cérebros menores do que o tamanho padrão — condição conhecida como microcefalia.

    “Nem mesmo em meus piores pesadelos como epidemiologista eu imaginaria uma epidemia de microcefalia em recém-nascidos.”

    Celina Turchi

    Epidemiologista, em entrevista à “Nature”

    Imediatamente, a cientista reuniu uma espécie de força-tarefa internacional, formada por epidemiologistas, pediatras, neurologistas e biólogos, para investigar as origens da epidemia de microcefalia em bebês. Foi quando a associação entre a rara condição neurológica e o vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti foi confirmada.

    Os estudos conduzidos por Turchi compararam amostras de sangue e de um líquido do sistema nervoso de 32 recém-nascidos com microcefalia a 62 bebês saudáveis. Todos nasceram entre janeiro e maio em oito hospitais públicos do Recife.

    Os resultados, publicados em setembro de 2016 na “Lancet Infectious Diseases”, mostraram que 41% dos bebês com microcefalia estavam contaminados com o vírus, ante nenhum dos bebês saudáveis. O estudo avançará nos próximos meses para identificar melhor os riscos e outros fatores envolvidos na doença.

    Em entrevista à agência de notícias portuguesa “Lusa”, Turchi atribuiu o mérito da descoberta a todos os cientistas que participaram das pesquisas sobre o tema. “São cientistas que têm muito interesse, que se empenharam muito, trabalharam em equipes multidisciplinares, com múltiplas universidades e institutos de pesquisa. Esta distinção é para todos os componentes desse grupo”, disse.

    Segundo o editor da “Nature”, Richard Monastersky, a escolha dos cientistas que compõem a lista considera os avanços feitos pelas pesquisas iniciadas por eles.

    Outros cientistas que aparecem na lista são a argentina Gabriela González, por sua pesquisa sobre ondas gravitacionais; o espanhol Guillem Anglada-Escudé, que descobriu um planeta de proporções semelhantes à Terra; a cazaque Alexandra Elbakyan, que disponibilizou ilegalmente na internet 60 milhões de artigos acadêmicos; o chinês John Zhang, responsável pelo nascimento do primeiro bebê do mundo com DNA de três pais diferentes; e o britânico Terry Hughes, que alertou para a descoloração da Grande Barreira de Coral australiana.

    O surto de microcefalia

    Entre os anos de 2015 e 2016, casos de microcefalia no Brasil aumentaram cerca de nove vezes. Após investigações, pesquisadores associaram a doença ao vírus zika, transmitido pelo Aedes aegypti  — mesmo inseto responsável pela transmissão da dengue e da chikungunya. Ainda assim, especula-se que outras infecções e condições ambientais possam ser responsáveis pelo surto no país.

    Até setembro deste ano, casos de zika, dengue e chikungunya somavam 1,86 milhão no Brasil. Algumas projeções indicam que serão mais de 2 milhões de casos ao final de 2016.

    Em novembro, a Organização Mundial de Saúde declarou que o zika não era mais considerado uma emergência internacional. A organização da ONU enfatizou, porém, a necessidade de continuar combatendo o vírus, que tem surgido em outras regiões do globo.

    Na Colômbia, por exemplo, o número de casos de microcefalia quadruplicaram em um ano. Entre agosto de 2015 e novembro de 2016, houve cerca de 105 mil casos suspeitos de contaminação por zika no país — 20 mil eram em gestantes.

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