Ir direto ao conteúdo

Para que serve o sentimento de vergonha e quando ele é um problema

No livro ‘Vergonha’, a psicanalista Marina Kon Bilenky explica esse sentimento universal e ajuda a dominá-lo

     

    A vergonha é um sentimento humano universal. Mas os motivos para senti-la variam com tempo, contexto e indivíduo.

    Lançado em novembro deste ano pela editora Blucher, o livro “Vergonha” descreve esse mecanismo a partir da experiência clínica e pesquisas realizadas pela psicanalista “Marina Kon Bilenky”, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

    Em entrevista ao Nexo, ela afirma que o tema aparece com frequência em seus atendimentos.

    “Na época do Freud, o principal conflito que  existia era o desejo sexual e a necessidade de reprimi-lo de acordo com a moral vigente. Hoje em dia tem ganhado força a questão da aparência, a exigência de ser muito boa, não errar. Nas redes sociais todos estão lindos, têm sucesso. Ninguém fala que não passou em um exame, o erro não faz parte do cotidiano. As pessoas se sentem muito fracassadas e têm vergonha disso”

    Marina Kon Bilenky

    Psicanalista, em entrevista ao Nexo

     

    Vergonha” faz parte da série “O que Fazer”, que apresenta a leigos temas ligados à psicanálise.

    O Nexo destacou alguns tópicos da obra e conversou com Bilenky para entender o que é vergonha e qual o seu papel.

    O que é vergonha

    Até entre dois ou três anos de idade, o bebê não se entende como um ser apartado de seus pais.

    A partir do momento em que desenvolve sua autoconsciência como indivíduo observado por terceiros passa, no entanto, a sentir vergonha de suas próprias ações, aponta Bilenky.

    “Sentir ‘verecundia’ [o termo em latim para vergonha] é ter uma séria preocupação a princípio da própria capacidade de gerir apropriadamente uma relação interpessoal. É uma espécie de autoconsciência temerosa”, escreve Bilenky.

    O sentimento de vergonha parte de uma reflexão sobre si mesmo e de um terceiro ao mesmo tempo. A pessoa envergonhada entende que está sendo observada e avalia a sua posição segundo o olhar do observador.

    Qual é o papel da vergonha

    De acordo com a obra, a vergonha é uma força que atua como um meio para adaptar o comportamento de uma pessoa e garantir a vida em sociedade. “Ela impede a vazão do curso selvagem dos instintos”, afirma Bilenky.

    Isso significa que não há motivos dados ou essenciais para sentir vergonha. Esses mudam com o tempo, junto com as normas sociais e, mesmo para quem vive na mesma época, variam de pessoa para pessoa de acordo com sua expectativa, experiência de vida e contexto.

    Bilenky usa como exemplo algumas descobertas da obra de Norbert Elias, sociólogo alemão que estudou livros de etiqueta e boas maneiras escritos entre os séculos XIII e meados do século XX. Elias retrata a mudanças dos valores que regem a vida em sociedade ao longo do tempo.

    Regras antigas prescreviam, por exemplo, não cumprimentar alguém que estivesse defecando. O que mostra que defecar na rua já foi uma prática aceita, e não objeto de vergonha. 

    Mais tarde, a recomendação era de que se procurasse um lugar reservado e fora do alcance do olhar para se defecar, o que indica “mais um passo em direção à privacidade”. Hoje, nenhuma das duas situações é aceitável.

    Quando a vergonha é um problema

    De acordo com Bilenky, as pessoas sentem vergonha quando acreditam que não são capazes de corresponder a um ideal que carregam dentro de si. Esse ideal é construído desde antes do nascimento, “quando nossos pais sonham com o filho que querem ter”.

    Os pais tendem a ajustar essa imagem idealizada à realidade. “Mas o desejo de receber aquele olhar de admiração e maravilhamento permanece dentro de nós, que buscamos atingir aquela imagem ideal de perfeição para voltar a ser alvo daquele amor incondicional”, escreve Bilenky.

    Em paralelo, a criança também cria uma imagem idealizada dos pais, um modelo que persiste essencialmente pelo resto da vida, mesmo quando se entende que aquela imagem é irreal.

    Outras figuras idealizadas são construídas com base em referências que surgem ao longo da vida: a do estudante universitário que conquista tudo sem esforço, a do chefe que inspira e é admirado pelos subalternos, a da mãe capaz de aliar, com tranquilidade, carreira, filhos e vida acadêmica, para citar apenas alguns exemplos.

    Bilenky afirma que a vergonha de expor que é incapaz de atingir  ideais como esses pode se tornar um entrave escravizador durante toda a vida.

    “O envergonhado procura esconder sua própria vergonha e também a ausência dos atributos que valoriza. Ele evita situações em que corre o risco de revelar o que acredita que são seus defeitos e, desse modo, deixa de viver experiências que podem ser fundamentais em sua vida”

    Marina Kon Bilenky

    Psicanalista, em seu livro ‘Vergonha’

    A vergonha e a obsessão atual pelo sucesso

    Para Bilenky, a sociedade contemporânea é marcada pela competição e obsessão pelo sucesso. Um motivo constante de vergonha é o fracasso, ou mesmo o simples trabalho para atingir o padrão supostamente ideal.

    Em seu livro, a psicanalista cita como exemplo os alunos de universidades americanas de ponta, para quem a  imagem de sucesso sem esforço tem um grande valor .

    Um dos casos é o da universidade de Duke nos Estados Unidos que expôs o problema em 2003 no relatório “Iniciativa das Mulheres”. O documento aponta como se esperava que as calouras universitárias sejam espertas, realizadas, atléticas, belas e populares. E sem que aparentem se esforçar para isso.

    O mesmo tipo de questão é tratada informalmente - tanto no caso de mulheres como de homens - na universidade de Stanford como “a síndrome do pato”. Todos parecem passar pelas exigências da vida universitária placidamente, como patos que deslizam sobre a água. Sob a superfície, os alunos escondem suas remadas frenéticas.

    O ideal de sucesso nos dias atuais faz com que as pessoas tratem percalços, fracassos e o próprio esforço como algo vergonhoso. É preciso viver de forma plena, excitante e fácil. Algo que é reforçado pelas narrativas positivas cuidadosamente construídas em perfis em redes sociais como Facebook e Instagram.

    Por que conhecer a própria vergonha

    Ao Nexo, Bilenky afirma que entender como o mecanismo da vergonha funciona, e conhecer o que motiva o sentimento sobre si mesmo pode ser libertador.

    Isso permite entender que os ideais são sempre relativos, e os motivos para se envergonhar também. As normas que valem para um grupo não são as mesmas que valem para outro. O que significa que é possível para um indivíduo criar as suas próprias referências.

    Também é possível  se preparar para criar recursos e enfrentar a vergonha, ao invés de olhar para o lado, esconder o rosto e evitar uma situação vergonhosa.

    “Você tem um monte de mecanismos, ideias, crenças que tem dentro de você e age de acordo com essas crenças. Mas pode rever seus ideais, se perguntar se não está sendo dominado por aquilo e ser mais natural de acordo com as coisas que acha mais importantes. Ser mais coerente com você mesmo”

    Marina Kon Bilenky

    Psicanalista, autora do livro ‘Vergonha’, em entrevista ao Nexo

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: