TV peruana agora tem um noticiário em quéchua. Por que isso é um gesto político e social

Além de levar informação na língua originária de milhões de pessoas, ‘Ñuqanchik’ busca a legitimação do idioma no espaço público

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    As plataformas de imprensa estatal peruanas “TV Perú” e “Radio Nacional” passaram a contar, desde o dia 12 de dezembro, com um noticiário conduzido totalmente em quéchua - língua originária da região andina. O programa é o primeiro do tipo no país a ter abrangência nacional.

    Seu nome, “Ñuqanchik”, já dá dicas de sua proposta, como explicou o antropólogo Luis Mujica ao “El País”. O termo, em quéchua, pode ser traduzido para português com o significado de “nós”. Mas a diferença é que a língua possui duas palavras diferentes para o mesmo “nós” do português.

    Um deles é o “ñuqayku”, do tipo excludente - ou seja, quando alguém fala de si mesmo como parte de um grupo que se diferencia de outros. Já o “ñuqanchik” é do tipo “nuclear”, que agrega todas as pessoas.

    Ao criar o noticiário, o governo indica que pretende legitimar a língua no espaço público, historicamente excluída tanto no Peru quanto em outros países da América Latina castelhana.

    Essa é a visão de Miryam Yataco, peruana defensora dos direitos linguísticos e professora no Departamento de Estudos Multilinguísticos e Multiculturais da Universidade de Nova York, em conversa com o Nexo. Para ela, o noticiário “Ñuqanchik” representa “o quéchua entrando pela porta principal” no imaginário público.

    Mosaico de idiomas

     

    Embora o vídeo promocional indique a contagem oficial de 8 milhões de pessoas falando o quéchua no continente, a estimativa é que a quantidade seja bem maior. De acordo com um censo nacional de 2007, 13% dos mais de 30 milhões de peruanos falam a língua.

    A dificuldade em determinar o número exato acontece por múltiplos fatores. Os principais são a falta de interesse do governo, por muitos anos, em fazer uma contagem oficial, e o fato de que ainda hoje muitas pessoas bilíngues - que falam tanto quéchua quanto castelhano - mentem ao dizer que não falam a língua, com medo de serem discriminadas.

    12 milhões

    de pessoas são estimadas como falantes de quéchua na América Latina, segundo Yataco

    O quéchua não é a única língua a dividir espaço com o castelhano trazido pela colonização espanhola. De acordo o Instituto Nacional de Estatística e Informação do Peru, existem 47 idiomas diferentes no país - a maioria deles na região amazônica.

    A contagem ainda pode ser maior, dado que o próprio quéchua, como explica Yataco, se divide em diferentes línguas derivadas que conseguem se comunicar entre si. Isso também acontece com outros idiomas.

    “O quéchua não é só uma língua, mas uma família de línguas. [...] Tem diferentes nomes: no Peru e na Bolívia se chama quéchua, no Equador se chama kichwa, na Colômbia se chama ingano”

    Miryam Yataco

    Professora da Universidade de Nova York

    Exclusão linguística

     

    O estabelecimento de uma língua oficial europeia, em um país que tem grande parte de sua população ainda falando línguas pré-hispânicas, é considerado uma forma de exclusão social por meio do idioma.

    No caso peruano, essa imposição se manteve por séculos, tendo deixado marcas importantes na forma como se dá a organização social no país até hoje. De acordo com Yataco, quem “nasce com uma língua materna diferente do espanhol, já nasce com a exclusão da cidadania”.

    “[Exclusão linguística] significa que há um sistema que coloca algumas línguas como mais privilegiadas. No caso da América Latina que fala castelhano, o privilégio discursivo é só de uma língua - o espanhol. Dessa maneira se exclui não apenas as muitas línguas que existem, mas também os seus falantes. É uma forma de criar subalternos”

    Miryam Yataco

    Professora da Universidade de Nova York

    A proibição oficial das línguas originárias no Peru aconteceu ainda em 1780, com a Revolução de Tupac Amaru. O indígena José Gabriel Condorcanqui liderou uma insurreição contra a dominação espanhola inspirado no líder da população inca, que dá nome ao evento histórico. Após algumas vitórias, acabou preso e morto pelos colonizadores.

    Embora a proibição tenha acabado ao longo do tempo, o impacto social de ter o quéchua como língua materna permaneceu em duas principais formas - na dificuldade de acesso à estrutura pública e no preconceito.

    Acesso

    Dados do Banco Mundial apontam que dentre todos os peruanos que não têm acesso a serviços básicos de saúde, 60% falam quéchua. Outros estudos mostram como existe uma relação direta entre língua e acesso a todo o tipo de serviço público peruano, como educação, ao fornecimento de água, eletricidade, saneamento e meios de comunicação.

    Antes do reconhecimento do direito de falar quéchua no país, quem não falasse espanhol não poderia se comunicar com o médico no hospital público e nem ter acesso ao sistema de Justiça do país. Embora as leis tenham mudado, Yataco diz que a criação de uma estrutura que insira o quéchua no serviço público “está funcionando muito lentamente” e que “ainda não é de conhecimento geral que existe esse direito”.

    As regiões mais pobres do Peru, segundo dados do governo - Apurímac, Ayacucho, Cajamarca e Huancavelica - são também, não por acaso, as que mais abrigam a população que fala quéchua. Isso se solidificou ao longo do tempo com a dificuldade em acessar o mercado formal de trabalho.

    “Existe uma distribuição muito desigual da riqueza, e sempre os mais pobres são os que falam quéchua. [...] Basicamente, os que falam apenas quéchua vivem em comunidades rurais e tradicionais”

    Miryam Yataco

    Professora da Universidade de Nova York

    Preconceito

    Além da dificuldade do acesso, os que falam quéchua passaram anos escondendo sua língua materna para se proteger do preconceito. O adjetivo “serrano” é considerado um xingamento no Peru, por associar a população que vive nas serras andinas com pobreza e atraso, segundo Wilfredo Ardito, professor de direito da PUCP. Essa área é habitada principalmente por indígenas, com línguas maternas diferentes do castelhano.

    Pelo rechaço social, famílias historicamente optaram por não ensinar suas línguas maternas aos filhos, temendo que as gerações posteriores também sofressem com a discriminação. Esse é um dos principais motivos pelos quais 56 idiomas pré-hispânicos estão em situação de vulnerabilidade, segundo a Unesco.

    “O quéchua, em certos momentos - principalmente em Lima [capital do Peru] - a perspectiva era como se fosse um grito animal, uma vergonha absoluta. O nível de rechaço e discriminação era altíssimo. Falar quéchua era o segredo mais guardado que alguém poderia ter”

    Miryam Yataco

    Professora da Universidade de Nova York

    Legitimação dos idiomas originários

     

    Desde então, a principal mudança institucional só foi acontecer em 1993, com o reconhecimento constitucional do Peru como um país multilíngue. Em 2011, a promulgação da Lei 29735 contribuiu ao regular a preservação e o desenvolvimento das línguas originárias.

    Alguns dos direitos garantidos a partir de 2011 tentam reverter a tendência histórica de exclusão das línguas originárias do serviço público, como os seguintes, no Artigo 4:

    • Ser atendido em sua língua materna nos organismos ou instâncias estatais;
    • Gozar e dispor dos meios de tradução direta ou inversa que garantem o exercício de seus direitos em todos os âmbitos;
    • Receber educação em sua língua materna e em sua própria cultura sob um enfoque de interculturalidade.

    A linguista Yataco faz questão de lembrar que o reconhecimento da legitimidade das línguas originárias não veio por acaso. Segundo ela, “o mundo quéchua mudou muito, saiu ao espaço público e começou a confrontar o castelhano. Acredito que a política de Estado está respondendo a uma demanda criada pela população quéchua”.

    Nesse sentido, o noticiário “Ñuqanchik” deixa de ser apenas um jornal de televisão ou de rádio, mas constitui a primeira iniciativa de uma rede estatal de comunicação, com abrangência nacional, de apresentar o idioma como uma língua válida e aceitável no espaço público.

    “Sempre houve a impressão de que as pessoas que falam quéchua só usam roupas típicas, são personagens folclóricas, como se o mundo quéchua só tivesse passado, sem presente nem futuro. Ao criar um noticiário contemporâneo, falando com muita segurança sobre temas diários e modernos, e refletindo sobre temas que acontecem em castelhano, mas na língua quéchua, isso rompe muitos mitos”

    Miryam Yataco

    Professora da Universidade de Nova York

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