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Relatos de empregadas domésticas reunidos no Facebook vão virar livro

Página ‘Eu Empregada Doméstica’, lançada em julho de 2016, reúne histórias de abusos de patrões, contadas pelas próprias empregadas

    Em julho de 2016, a página do Facebook Eu Empregada Doméstica chamou atenção por explicitar as frágeis relações entre patrões e empregadas domésticas no Brasil.

    Criada pela rapper e professora de história Joyce Fernandes, conhecida como Preta-Rara, a página reúne relatos de abusos de patrões, enviadas via e-mail por mulheres que trabalham ou trabalharam como empregadas domésticas e que passaram pela experiência. Há também mensagens enviadas por familiares e amigos que acompanharam a rotina de trabalho dessas mulheres.

    Entre histórias ali contadas há casos em que empregadas foram discriminadas e ridicularizadas pela fala, pela escrita, pela aparência e, até mesmo, pela conquista de seus direitos trabalhistas.

    "Você foi contratada para cozinhar para a minha família, e não para você. Por favor, traga marmita e um par de talheres, e se possível coma antes de nós na mesa da cozinha."

    Relato postado na página Eu Empregada Doméstica

    Em menos de seis meses no ar, a página publicou mais de 4.000 relatos e adquiriu 130 mil seguidores. A criadora, agora, pretende transformar o projeto em livro homônimo feito a partir de financiamento coletivo.

    A campanha captou até esta sexta-feira (16) R$ 11.500 de 222 doadores. O objetivo é atingir R$ 30 mil até o dia 24 de dezembro. Caso o valor seja ultrapassado, os organizadores pretendem ainda realizar um documentário contando a história de algumas dessas mulheres.

    A criação da página

    A página do Facebook surgiu de um post de Preta-Rara em sua conta pessoal na rede social. Na época, ela resolveu relatar um caso que a marcou em sua última experiência como empregada doméstica, em 2009. A patroa pedia que ela levasse seus próprios talheres e copos de casa, para não usar os da família.

    “Isso viralizou muito rápido e eu criei a página. No começo, escrevia sempre no passado. Não acreditava que existiam mulheres vivendo ainda assim.”

    Preta-Rara

    Historiadora, rapper e criadora da página Eu Empregada Doméstica

    Preta trabalhou como empregada doméstica dos 18 aos 25 anos. Mesmo emprego de sua mãe e avó. Largou a profissão após, já estudando história na faculdade, conseguir um estágio numa escola de São Vicente, litoral de São Paulo.

    “Eu trabalhei como empregada porque eu procurava emprego e não conseguia. Nem pra entrevista me chamavam. Quando parei de entregar currículo com foto, me chamaram para entrevista, mas não dava em nada. Por isso fui ser doméstica. Quando falei para minha mãe, ela ficou super triste, porque ela sempre foi doméstica e sabia o que eu ia passar. Essa profissão é hereditária para a mulher preta. Minha vó foi empregada, minha mãe foi empregada.”

    Preta-Rara

    Historiadora, rapper e criadora da página Eu Empregada Doméstica

    Parte dos relatos postados hoje na página, todos anônimos, não são pessoais, mas de filhos e netos escrevendo sobre suas mães e avós. “A internet ainda não é de fácil acesso para todas. E muitas mulheres ainda são semianalfabetas ou analfabetas, então os filhos acabam escrevendo a história das mães.���

    Dar voz às domésticas

    Quando criada, em julho de 2016, a página trazia como imagem de perfil uma foto do filme americano “Histórias Cruzadas" (2011). O longa  retrata a trajetória de uma jovem branca de elite, aspirante a jornalista, que decide contar as histórias das empregadas negras, em meio ao ápice das turbulências raciais no país. Para Preta, o diferencial de sua página é justamente o de dar voz diretamente às mulheres negras.

    “Não é uma pessoa que pesquisa o assunto que criou a página. Mas uma pessoa que pesquisa e já foi também empregada doméstica. Somos protagonistas da nossa história. É ressignificar e utilizar o espaço da internet como ferramenta de propagar ideias. A intenção é gerar incômodo e criar empatia. Fazer com que as pessoas percebam que ainda existem mulheres trabalhando em situações análogas à escravidão. A senzala moderna é o quartinho da empregada.”

    Preta-Rara

    Historiadora, rapper e criadora da página Eu Empregada Doméstica

    O livro trará a narrativa das três mulheres da família de Preta, feitos em primeira pessoa, intercalados com os depoimentos anônimos que recebeu nos últimos meses - a maior parte deles será inédito. 

    As experiências serão ilustradas por Nenê Surreal, considerada a grafiteira mais velha do Brasil em atividade, e pela artista plástica Ana Maria Santana. Rapper, Preta também prepara uma música sob o mesmo título, que será lançada em janeiro em sua página oficial.

    As relações entre patrões e empregados domésticos no Brasil

    O Brasil concentra o maior número de trabalhadores domésticos do mundo, numa relação de 117 países avaliados em 2013 pela OIT (Organização Internacional do Trabalho). São 7,8% dos trabalhadores nessa categoria. Entre as mulheres, a porcentagem chega a 17%. São 6 milhões de trabalhadores domésticos ao todo, a maior parte mulher, negra e com pouca escolaridade.

    Só em 2015, porém, os direitos das domésticas foram devidamente formalizados. Ainda assim, a informalidade prevalece: pouco mais de 30% das domésticas têm carteira assinada.

    Formais ou informais, as relações de trabalho entre patrões e empregados domésticos são ainda marcadas muitas vezes por resquícios escravocratas e patriarcais - como mostram os relatos reunidos por Joyce. Entre eles, patrões exigem que empregadas levem seus próprios talheres para comer, usem um banheiro separado, apenas circulem pelos elevadores de serviço e comam refeições de dias anteriores.

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