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Como um caso do MasterChef ilustra a desigualdade de gênero na alta gastronomia

Finalista Dayse Paparoto foi menosprezada ao longo da competição. No Ocidente, diferença de prestígio entre homens e mulheres na cozinha data de séculos

     

    A primeira temporada do programa MasterChef Profissionais, da TV Bandeirantes, que chegou ao final nesta terça-feira (13) foi marcada por manifestações de machismo e disputas de gênero. Durante uma das provas, a vencedora Dayse Paparoto chegou a ouvir do participante Ivo Lopes que deveria varrer o chão.

    “Trabalhar com mulher na cozinha é um pouco mais delicado, vamos ser realistas. Ela acaba sendo um pouco mais frágil”, justificou o chef.

    A atitude não passou despercebida pelas pessoas que acompanhavam o programa no Twitter - e o participante acabou pedindo desculpas publicamente:

     

    A sugestão para varrer o chão não foi um fato isolado. Mais de uma vez a chef foi considerada pelos outros participantes como a mais fraca da competição. Este vídeo reúne as situações consideradas machistas pelas quais Dayse passou:

     

    Dayse não foi a única a reclamar. A participante Priscylla Luswarghi, eliminada no sexto episódio, deixou o programa comentando que as mulheres eram subestimadas na cozinha. A situação vivida pelas participantes no reality show parece ser lugar-comum no mundo da gastronomia.

    “A cozinha é vista como uma profissão muito masculina, bruta e física. Por isso, existe essa ideia que só homem consegue segurar essa onda”, disse ao Nexo Bel Coelho, chef do restaurante O Clandestino, em São Paulo. Para a chef, o machismo no mundo da gastronomia reflete o que está presente em outras áreas.

     

    “Homem diante de homem tem uma postura de respeito e diante de mulher tem outra. E essas coisas que homens fazem na rua também fazem na cozinha, como boicotar coisas que fazemos ou nos encoxar.”

    Bel Coelho,

    chef do restaurante O Clandestino

    Sobre as polêmicas do programa, a chef diz que as questões levantadas no reality extrapolam seus participantes. “Na verdade, o que existe há muitos anos é a tentativa de empurrar as mulheres para atividades consideradas menos glamourosas e escondidas, como a limpeza.”

    A histórica divisão entre o masculino e o feminino na cozinha

    A visão de Bel Coelho tem respaldo histórico. Raffaella Sarti, professora de História Moderna na Universidade de Urbino, na Itália, explica que durante a Idade Moderna, na maioria dos lugares, o responsável pela cozinha variava de acordo com a classe à qual a família pertencia. Enquanto as mulheres de classes mais baixas eram responsáveis pelo preparo do alimento, as classes mais altas designavam homens para a tarefa de cozinheiro. Na França, Itália e Espanha, predominava o gênero masculino na cozinha. A exceção era a Inglaterra e a Alemanha, onde mulheres eram a maioria dos cozinheiros.

    No artigo “Flexionando o gênero: a subsunção do feminino no discurso moderno sobre o trabalho culinário”, o pesquisador Carlos Alberto Dória, doutor em sociologia na Unicamp, mostra que expressões como “cozinhar com amor” estão associadas à culinária mais simples, afetiva e, portanto, feminina. Já a boa cozinha, uma arte superior, foi associada à figura masculina.

    Na França, por exemplo, considerada berço da gastronomia moderna ocidental, os homens passaram a dominar as cozinhas da aristocracia ao longo do século 16, no reinado de Henrique 4º. Nos séculos seguintes, as diferenças sociais nas categorias “mulher na cozinha” e “homem na cozinha” se evidenciaram.

    Dessa forma, mulheres foram excluídas da alta gastronomia, enquanto homens passaram a ganhar dinheiro e prestígio como chefs.

    O artigo de Dória ainda explora a obra de Auguste Escoffier, chef da alta cozinha francesa, que teve um de seus discursos publicados em Londres no ano de 1895 sob o título “Why Men Make the Best Cooks” (Porque os homens se tornam os melhores cozinheiros, em tradução livre para o português).

     

    “O homem é mais rigoroso no seu trabalho, e o rigor está na raiz de tudo o que é bom, como em tudo o mais. Um homem é mais atento sobre os vários detalhes que são necessários para produzir um prato verdadeiramente perfeito... Para ele nenhum detalhe é mais importante do que outro.”

    Auguste Escoffier

    “Why Men Make the Best Cooks” (Porque os homens se tornam os melhores cozinheiros, em tradução livre para o português), discurso publicado em 1895

    A fala de Escoffier sintetiza a diferença de gêneros na cozinha. O chef afirmou que, nas tarefas domésticas, “é muito difícil encontrarmos um homem se igualando ou excedendo uma mulher; mas cozinhar transcende um mero afazer doméstico, trata-se, como eu disse antes, de uma arte superior”.

    Para o pesquisador Dória, “o discurso sobre a excelência, sobre o estilo culinário, sobre a criatividade, está centrado atualmente na figura do chef” - que é masculino. “E o contradiscurso opressor nesse domínio é também muito claro: trabalho de cozinha é coisa árdua, não é para mulheres”, diz em seu artigo.

    A historiadora Rafaella Sarti complementa a análise: “a marginalização das mulheres dos locais mais prestigiosos como chefs é similar à que acontece em outros ambientes de trabalho”, disse ao Nexo. “Muitos países estão buscando leis para igualar a oportunidade entre homens e mulheres e há pessoas lutando para acabar com a cultura patriarcal que impede as mulheres de alcançar a mesma posição que os homens.”

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