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Por que o tratamento de depressão é um privilégio no Brasil

80% dos depressivos não recebem nenhum tratamento no país. Brancos têm uma probabilidade menor de sofrer do problema, e maior de tratá-lo

 

A depressão é considerada uma das doenças mentais mais comuns do mundo. Frequentemente, ela se apresenta de forma crônica, o que significa que é parte constante da vida de quem sofre dela. É um problema agravado pelo estigma, que associa a depressão a fraqueza ou inadequação.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, conduzida pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, apontam que cerca de 7,9% da população brasileira sofre de depressão. Entre essas pessoas, 78,8% não recebem nenhum tipo de tratamento, que chega de forma desigual aos pacientes.

Os dados fazem parte do trabalho “Desigualdades no acesso ao tratamento de depressão: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde Brasileira - PNS”, publicado em novembro de 2016 no “Jornal Internacional por Igualdade na Saúde” por pesquisadores da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e da USP (Universidade de São Paulo).

O estudo descobriu que brancos têm uma probabilidade menor de sofrer de depressão no país. E a maior probabilidade de obter tratamento. A pesquisa também apontou que as regiões Norte e Nordeste são aquelas onde a maior proporção de depressivos não tem nenhum tratamento.

Entender quem são os depressivos do Brasil e quais deles não se tratam é importante porque, além de piorar a qualidade de vida de forma geral, a depressão está associada diretamente a outros problemas que poderiam ser mitigados por meio do cuidado adequado.

Dados globais apresentados na pesquisa “Impacto de enfermidades depressivas por país, sexo, idade e ano”, publicada em 2013 na Public Library of Science, apontam que 4 milhões de pessoas morrem anualmente de doenças do coração associadas à depressão.

E que esta doença está relacionada ao suicídio de 16 milhões de pessoas todo ano no mundo.

Em entrevista concedida em junho de 2016 ao Nexo, a psiquiatra Alexandrina Meleiro, coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, ressaltou que essas mortes, associadas à depressão, são evitáveis.

“É como tomar uma vacina ou diminuir o sal. É possível buscar tratamento antes de chegar a uma consequência tão desastrosa.”

Alexandrina Meleiro

Psiquiatra e coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, em entrevista concedida em junho de 2016 ao Nexo

Quem sofre de depressão no Brasil

A pesquisa foi feita com entrevistas com pessoas acima de 18 anos de quase 70 mil lares brasileiros, visitados pelos pesquisadores. Os entrevistados responderam um questionário sobre sintomas, intensidade e tratamento.  Segundo o trabalho, as mulheres são as que mais sofrem de depressão no Brasil. A doença atinge 10,7% dessa população, e 4,7% da população masculina.

Ela também afeta principalmente os pretos e pardos. A prevalência nesse caso é de 8,6% e 8,2% nessas populações, respectivamente. Em seguida estão os indígenas (8,1%), asiáticos (7,7%) e brancos (7,5%).

Aqueles acima de 70 anos estão na faixa etária dos mais afetados - 10,3% deles têm depressão. E a região mais atingida pela doença é a Sul, onde 9,1% dos adultos apresentam depressão.

Depressão por raça/etnia e por região

Quem tem acesso ao tratamento no país

De acordo com o trabalho, a imensa maioria dos depressivos não recebe nenhum tipo de tratamento. E a maior parte dos que se tratam recebe apenas medicamentos, ou seja, não passam por nenhum tipo de psicoterapia.

O trabalho não aponta um tipo de tratamento como superior ao outro, afirma apenas, com base no “Guia prático para tratamento de pacientes com graves problemas de depressão”, publicado em 2010 pela Associação Americana de Psiquiatria, que: “o tratamento efetivo da depressão inclui medicamentos antidepressivos e psicoterapias, seja individualmente ou em combinação”.

Acesso a tratamento por tipo

A probabilidade de receber tratamento aumenta quando o paciente atende a um ou mais dos seguintes fatores: ter diploma universitário, ser branco, ser mulher, ter alguma outra doença relacionada à depressão e estar na faixa etária compreendida entre 30 e 69 anos.

A dificuldade de obter tratamento também tem um recorte regional. Ela é especialmente alta na região Norte, onde 90% dos depressivos não têm acesso a nenhum tratamento, e menor no Sul e no Sudeste, onde essa é a realidade de 67,5% e 75,9% das pessoas com depressão, respectivamente.

Os pesquisadores ressaltam que essa diferença reflete a má distribuição de serviços e especialistas de saúde no país. De acordo com o estudo “Demografia médica no Brasil 2015”, do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), a região Sudeste concentra 4.104 psiquiatras, o que corresponde a um profissional para cada 15 mil habitantes.

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É o número de psiquiatras presentes na região Norte. O que equivale a um profissional para cada 80 mil pessoas

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