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O discurso de Madonna no prêmio da ‘Billboard’ e o que homens e mulheres podem ou não fazer

Ícone feminista dos anos 80, cantora reivindica o direito a envelhecer, a se posicionar e a ter a mesma liberdade que David Bowie e Prince

     

    Madonna foi eleita Mulher do Ano pela premiação Billboard Women in Music 2016, da revista americana “Billboard”, realizada na última sexta-feira (9) em Nova York. A cantora aproveitou a entrega do prêmio para fazer um discurso sobre a condição da mulher no meio do entretenimento. Ela abriu sua fala dizendo: “Estou parada diante de vocês como um capacho. Digo, como uma artista do sexo feminino”. 

    Seu discurso é irônico ao repetir o que foi dito ao longo de toda sua carreira, de forma velada ou explícita, que ela podia ou não fazer. Mas também falou com franqueza às mulheres que a ouviam para que valorizassem seus méritos, se apoiassem e se inspirassem.

    Ícone musical do século 20, Madonna também se tornou um símbolo da luta feminista nos anos 1980, da liberdade sexual e da comunidade gay. Sua trajetória já foi analisada por teóricas feministas como a acadêmica americana Bell Hooks e segue sendo objeto de estudos sobre identidade de gênero. 

    Madonna criou a caricatura oitentista de Marilyn Monroe em “Material Girl”,  e o clipe de “Justify My Love”, banido pela MTV em 1990 por ser “muito sexualmente explícito” e defendido pela feminista Camille Paglia em um artigo no jornal americano “The New York Times” do mesmo ano. 

    Ela escancarou suas fantasias sexuais em “Human Nature” e é a porta-voz da mensagem explicitamente feminista de “What It Feels Like for a Girl”: não é a primeira vez que Madonna levanta a bandeira feminista. A cantora foi protagonista de controvérsias que extrapolaram a cultura pop e se tornaram assunto no meio acadêmico e no debate público sobre igualdade de gênero.   

    O discurso de Madonna em cinco momentos

    O início

    “As pessoas estavam morrendo de Aids em todos os lugares. Não era seguro ser gay, não era legal ser associada à comunidade gay. Era 1979 e Nova York era um lugar muito assustador. No meu primeiro ano [na cidade] eu fiquei sob a mira de uma arma de fogo, fui estuprada em um terraço com uma faca na minha garganta (...) Com o passar do tempo, perdi para a Aids ou para as drogas ou para as armas quase todos os amigos que tinha. Como vocês podem imaginar, todos esses acontecimentos inesperados não apenas me ajudaram a me tornar a mulher ousada que está aqui, mas também me lembraram que sou vulnerável, e que na vida não há segurança verdadeira exceto sua autoconfiança”

    “Não há regras se você é um garoto”

    “Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry e Chrissie Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e feminino e isso me agradava. Ele me fez pensar que não havia regras. Mas eu estava errada. Não há regras se você é um garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que jogar o jogo. Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito esperta. Não aja como se você tivesse uma opinião que vá contra o status quo”

    "Envelhecer é um pecado"

    “Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma prostituta, mas não assuma e se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja, e mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada e humilhada e definitivamente não tocará nas rádios”

    Casamento

    “Eventualmente fui deixada em paz porque me casei com Sean Penn e estava fora do mercado. Por um tempo eu não fui considerada uma ameaça. Anos depois, divorciada e solteira, fiz meu álbum ‘Erotica’ e meu livro ‘Sex’ foi lançado. Eu me lembro de ser a manchete de cada jornal e revista. Tudo que lia sobre mim era ruim. Eu era chamada de vagabunda e de bruxa. Uma das manchetes me comparava ao demônio. Eu disse ‘Espera aí, o Prince não está correndo por aí usando meia-calça, salto alto, batom e mostrando a bunda?’ Sim, ele estava. Mas ele era um homem”

    A sobrevivente de uma geração

    “Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi continuar por aqui. Michael se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas e agradeço todos os dias por isso. O que eu gostaria de dizer para todas as que estão aqui hoje é: mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que precisam apoiar um homem.(...) Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para as inspirem, apoiem e instruam”

    Kesha: um outro caso de sexismo na indústria

    A cantora Kesha, de uma geração mais nova que Madonna, também foi homenageada pelo Billboard Women in Music 2016 e discursou sobre o desafio do amor próprio e sua luta contra os distúrbios alimentares. Nos últimos anos, a cantora foi abusada física e psicologicamente por seu então produtor, Dr. Luke, com quem disputou uma batalha legal que quase a mergulhou no ostracismo. 

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