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4 metrópoles globais vão banir o carro a diesel. Mas há quem queira trazê-lo de volta ao Brasil

Paris, Madri, Atenas e Cidade do México seguem política adotada por brasileiros desde 1970. As razões, no entanto, são diferentes

 

Quatro das maiores cidades do mundo, Paris, Madri, Atenas e Cidade do México, planejam proibir veículos a diesel de suas ruas até 2025.

A proposta foi anunciada no início de dezembro na Cidade do México, na conferência de prefeitos do Grupo C40 de Liderança Climática.

Criado em 2005, o grupo reúne mais de 80 megacidades comprometidas a adotar medidas que diminuam a emissão de gases estufa e o aquecimento global, entre elas Rio de Janeiro e São Paulo.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que liderou a iniciativa, destacou que sua proibição visa diminuir principalmente problemas de saúde que a substância causa diretamente.

A queima do diesel gera uma quantidade maior de fuligem e óxidos de nitrogênio do que a gasolina, o que contribui para problemas respiratórios e de circulação.

Essas pequenas partículas podem se alojar no pulmão ou fluir pela corrente sanguínea, gerando asma, doenças claudiovasculares e acidente vascular cerebral.

Ainda não está claro se as cidades vão banir os veículos a diesel completamente ou se a restrição ocorrerá apenas em determinadas áreas dos municípios.

“Os prefeitos já se reuniram para dizer que a mudança climática é uma das maiores mudanças que nós enfrentamos. Hoje, nós estamos dizendo que não toleraremos mais a mudança na poluição do ar e os problemas de saúde e mortes que ela causa, em particular para os nossos cidadãos mais vulneráveis”, afirmou Hidalgo.

A medida não é isolada. Em dezembro de 2015 a Suprema Corte Indiana baniu veículos de luxo movidos a diesel na cidade de Deli, que sofre com excesso de poluição. A medida foi encarada como um sinal de que restrições podem vir a ser implementadas contra o diesel em geral.

Medidas voltam atrás em políticas da década de 90

A adoção da medida por países do C40, que tem como finalidade principal combater o aquecimento global, é curiosa.

Apesar de gerar poluentes mais perigosos à saúde humana, motores a diesel foram defendidos na década de 90 por em tese emitirem uma proporção menor de gases do efeito estufa em relação à gasolina - um dado que tem sido questionado recentemente.

Esse foi um fator importante para que alguns governos europeus, como o da França e da Alemanha, concedessem incentivos à indústria do diesel naquela década, que foi marcada pela assinatura em 1998 do Protocolo de Kyoto, tratado com o objetivo de reduzir a emissão de gases do efeito estufa.

A mudança também atendia a interesses de companhias automotivas como a francesa Peugeot e a alemã Volkswagen, que vinham investindo em motores a diesel. Hoje, cerca de metade dos carros da Europa são a diesel.

Por que o diesel pode voltar no Brasil

A iniciativa das cidades não é novidade para o Brasil. O país proíbe o consumo do diesel em veículos leves, como carros, desde os anos 1970.

Por aqui, a política não teve inspiração ambientalista ou de saúde pública, mas sim o objetivo de diminuir as importações de petróleo.

O diesel é liberado apenas para veículos utilitários, como caminhões, ônibus e picapes com capacidade de carga acima de 1.000 kg. A restrição também está suspensa para veículos com tração 4x4.

Está em tramitação na Câmara dos Deputados, no entanto, o Projeto de Lei 1013 de 2011, de autoria do deputado Aureo (PRTB-RJ) que libera a comercialização de carros a diesel no Brasil.

Ao justificar sua proposta, Aureo afirma que a produção de diesel “aumentou expressivamente, permitindo o atendimento de uma frota automotiva maior do que em tempos em que a importação respondia por mais da metade do total de combustível consumido no país”.

Ele argumenta que a “boa utilização dos recursos energéticos do país” passa por otimizar o uso das fontes disponíveis. Isso seria feito com a liberação do diesel.

Em artigo de opinião escrito em junho de 2016 para o portal UOL, o engenheiro de transportes Cristiano Façanha, que coordena o ICCT (International Council of Clean Transportation), criticou o avanço do projeto na Câmara, e afirmou que a restrição vigente tem tido sucesso em diminuir o impacto negativo do diesel no país.

“A restrição a este combustível no Brasil limitou seus impactos negativos, especialmente quando comparados a regiões como Europa ou Índia onde políticas de apoio à ampla comercialização do diesel juntamente a normas de emissões veiculares frouxas contribuíram para severos problemas da qualidade do ar”

Cristiano Façanha

Engenheiro de transportes e coordenador do ICCT (International Council of Clean Transportation), em artigo para o portal UOL

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