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Anarcha, Lucy e Betsy: as escravas mães da ginecologia moderna

Cura cirúrgica para a fístula vesico-vaginal é atribuída a um médico. Mas pouco se fala sobre escravas que fizeram parte de seus experimentos

 

O médico americano James Marion Sims é considerado o pai da ginecologia moderna. Ele atuou nos EUA na metade do século 19 e é responsável por desenvolver a cura cirúrgica de uma condição que afeta mulheres: a fístula vesico-vaginal. Suas descobertas, porém, só foram possíveis por causa de escravas utilizadas sistematicamente em seus experimentos - e, muitas vezes, sem anestesia.

As desconhecidas que tornaram possível que Sims desenvolvesse a cura para a fístula são pesquisadas pela médica e historiadora Vanessa Gamble, da Universidade George Washington, nos EUA.

Dez mulheres escravas foram centrais para os experimentos do médico. Três são nomeadas em seus registros: Anarcha, Lucy e Betsy. “Essas mulheres eram propriedades, não tinham condições de consentir”, afirma Gamble no podcast “Hidden Brain”, dedicado às  ciências sociais e ligado à rádio pública americana “NPR”.

Segundo Vanessa Gamble, Sims passou a conduzir cirurgias de caráter experimental em mulheres negras escravizadas na tentativa de encontrar uma solução para a fístula vesico-vaginal. Essa condição de saúde, incurável até 1850, consiste em uma comunicação entre a vagina, a bexiga ou o intestino, que faz com que urina ou fezes passem diretamente pelo canal vaginal. Ela pode ser causada por um trauma obstétrico, uma infecção, ou acompanhar a mulher desde o nascimento.

Os experimentos

De acordo com a historiadora, Sims chegou a realizar 30 cirurgias  em Anarcha, atendida pela primeira vez aos 17 anos, após um parto traumático que causou a fístula. Foram necessárias tentativas consecutivas para aperfeiçoar a técnica.

O médico também registrou como Lucy chorava de dor por conta das cirurgias e achava que fosse morrer. Ao mesmo tempo, ele também escreveu que as escravas queriam a cirurgia para não terem mais que lidar com aquela condição.

Como o relato de Sims é o único disponível, não há como ter certeza se essas mulheres queriam ou não ser operadas. “O que fica faltando nessa história são as palavras e vozes das próprias mulheres”, observa a professora Vanessa Gamble.

“As cirurgias eram feitas sem anestesia. Na época, acreditava-se que pessoas negras não sentiam dor da mesma maneira [que pessoas brancas], não eram vulneráveis à dor, especialmente as mulheres negras. A dor delas era ignorada”

Vanessa Gamble

No podcast “Hidden Brain”

Segundo a historiadora, com os experimentos, as escravas ficavam incapacitadas de dar à luz e tinham sequelas que as impediam de trabalhar. Consequentemente, perdiam valor para seus donos.

À medida que a reputação de Sims por sua “pesquisa” crescia, outros médicos começaram a ser convidados para assistir às cirurgias. Operadas nuas, as mulheres não tinham escolha sobre esses eventuais espectadores.

O sucesso de um procedimento de reparo cirúrgico da fístula vesico-vaginal foi registrado por Sims pela primeira vez em 1852. O médico se consagrou: ele é lembrado por três estátuas em estados onde viveu nos EUA: uma na Carolina do Norte, outra no Alabama e a terceira em Nova York, no Central Park.

Ética x contribuição

O legado de J. M. Sims é controverso e sua ética é bastante discutida entre a comunidade médica. Há uma série de artigos com diferentes pontos de vista publicados no “Jornal de Ética Médica” do Centro Nacional de Informação em Biotecnologia dos EUA.

Um deles, intitulado “A ética médica do Dr. J. Marion Sims: um olhar renovado sobre o registro histórico”, considera injustas e anacrônicas as críticas feitas a Sims por autores modernos.  

“Numerosos autores modernos atacaram a ética médica de Sims, argumentando que ele manipulou a instituição da escravidão para executar experimentos humanos eticamente inaceitáveis em mulheres impotentes, sem o seu consentimento. Este artigo revisa estas alegações usando fontes históricas primárias e conclui que as acusações feitas contra Sims  não se confirmam. Os críticos modernos de Sims não levam em conta o enorme sofrimento experimentado por vítimas da fístula, ignoram a controvérsia em torno da introdução da anestesia na prática cirúrgica na metade do século 19 e distorceram os registros históricos em seus ataques”, defendeu o antropólogo L. L. Wall no artigo.

Já o médico Jeffrey Sartin, autor de um artigo publicado no site especializado “Medscape”, acredita que a “conclusão inescapável” é que o otimismo e o fervor messiânico do médico em sua jornada de descoberta o cegaram para o sofrimento de suas pacientes e quaisquer implicações éticas.

“Podemos julgar Sims não pelos parâmetros de nosso tempo, mas por aqueles de sua época? Críticos apontam que muitos de seus contemporâneos fizeram a medicina avançar sem o uso de pacientes prisioneiros e não informados”, escreve Sartin.

Vanessa Gamble não acredita ser possível discutir o legado do médico deixando as violações cometidas “no passado”. “Podemos dizer que mulheres hoje se beneficiam das cirurgias conduzidas por ele, especialmente nos países pobres. Mas ao mesmo tempo, não podemos esquecer como isso veio a acontecer”, destaca.

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