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As vitórias do Brasil no principal prêmio de ciência dos países em desenvolvimento

Dois cientistas ganharam nas categorias Ciências Sociais e Matemática. Pesquisadora brasileira foi a única mulher a receber o prêmio neste ano

 

O Brasil venceu duas das nove categorias premiadas pelo “Twas” em 2016 . A sigla encurta o nome do “The World Academy of Sciences for the Advancement of Science in Developing Countries”, uma espécie de Nobel da pesquisa exclusivo dos países em desenvolvimento.

Os pesquisadores Marilda Sotomayor e Lorenzo Justiniano Díaz Casado levaram, respectivamente, os prêmios das categorias Ciências Sociais (que recebe o nome, inclusive, de Twas-Celso Furtado, em homenagem ao economista brasileiro) e Matemática. Sotomayor foi a única cientista mulher a receber o prêmio este ano.

As pesquisas vencedoras

Teoria dos Jogos

Apesar da premiação em áreas distintas, ambos os pesquisadores são matemáticos. Sotomayor é professora aposentada da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da Faculdade de Economia da USP (Universidade de São Paulo) e é uma das únicas especialistas no Brasil em mercados de matching, um dos ramos da Teoria dos Jogos que trata da formação de pares nos mercados. Sua atuação nessa área lhe rendeu o Twas-Celso Furtado. Ela faz parte do primeiro time internacional na área de pesquisa multidisciplinar em que atua, a Teoria dos Jogos.

“Os mercados de matching são de interesse da economia porque refletem o comportamento de pessoas em mercados da vida real. Eles operam em ambientes onde os participantes procuram parceiros para realizar alguma atividade”, explica a pesquisadora em entrevista ao Nexo. “A teoria dos matchings fornece modelos matemáticos para esses mercados. Através deles podemos compreender e detectar suas falhas, o que pode ajudar a organizá-los melhor ou a ‘consertá-los quando quebram’”. Ela se dedica à Teoria dos Jogos desde 1970 e contribuiu ativamente para a evolução teórica do tema.

Sotomayor também é integrante titular da Academia Brasileira de Ciências.

Teoria dos Sistemas Dinâmicos

Professor da PUC-Rio e também membro titular da Academia Brasileira de Ciências, o matemático espanhol Lorenzo Justiniano Díaz Casado vive e conduz seu trabalho de pesquisa no Brasil desde 1985. Ele recebeu o Twas por suas contribuições à Teoria dos Sistemas Dinâmicos desde que atua no país.

Sistemas dinâmicos podem ser fenômenos físicos, químicos, biológicos ou econômicos que tenham sua evolução determinada por uma equação, fórmula ou lei matemática.

Um dos sistemas dinâmicos mais famosos é o dado pela “equação de Lorenz”: ele aparece na previsão do tempo e também se relaciona com o efeito borboleta, princípio da Teoria do Caos segundo o qual o voo de uma borboleta pode provocar um tufão do outro lado do mundo. Ele ilustra como pequenas mudanças podem produzir grandes alterações com o passar do tempo.

Díaz Casado destaca não só a importância dos prêmios concedidos pelo Twas, mas também de outras formas de incentivo, como bolsas e conferências promovidas pela organização. “O Brasil tem se destacado na pesquisa sobre sistemas dinâmicos e o apoio à ciência em países em desenvolvimento [dado por organizações como essa] tem tido um papel importante nisso”, disse o pesquisador em entrevista ao Nexo.

Ele também cita o apoio das agências brasileiras de fomento à pesquisa, como a Capes. “Espero que para as novas gerações esse apoio continue com força”, diz.

Onde estão as mulheres

Aos 72 anos, a pesquisadora Marilda Sotomayor reconhece ser uma exceção entre as mulheres de sua geração.

“As mulheres da minha faixa etária viveram numa época em que tudo isso era inacessível para elas. Era inconcebível que uma mulher, casada ou solteira, viajasse sozinha para o exterior ou tivesse colegas do sexo masculino e, se casada, tivesse compromissos outros que não fossem com o trabalho no lar, com os filhos e o marido”, diz. “Uma minoria foi para a universidade. No meu caso, excepcionalmente, tive o privilégio de ser filha de uma professora de matemática de ensino médio que estava à frente de seu tempo.”

De dentro do meio acadêmico, a cientista avalia que o Brasil deu um grande salto no que diz respeito à participação feminina nas universidades. Mas por que, em 2016, Marilda foi a única mulher a receber um prêmio que considera a produção científica de vários países?

“Certamente o fato de haver mais homens do que mulheres bem-sucedidos na carreira científica não se deve às diferenças genéticas entre os dois sexos. É que, tradicionalmente, em todos os países do mundo, os homens têm o respaldo da família e da sociedade para realizar com sucesso o seu trabalho, enquanto as mulheres, em geral, estão ainda buscando por seus direitos”

Marilda Sotomayor

Em entrevista ao Nexo 

A história do ‘Twas’

Fundado em 1983 por um grupo de cientistas de países em desenvolvimento, o Twas é uma academia de ciências global baseada em Trieste, na Itália. Sob a liderança do físico paquistanês Abdus Salam, ganhador do Prêmio Nobel em 1979, a academia foi criada com o objetivo de fortalecer a produção científica de países em desenvolvimento como forma de enfrentar desafios como fome, pobreza e epidemias. 

Desde 1991, o Twas é um programa administrado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O governo italiano também contribui financeiramente com a operação da Academia, ano a ano, desde que essa contribuição foi aprovada por lei no país em 2004.

Atualmente, a organização conta com 1.176 membros eleitos em mais de 90 países, 15 dos quais já foram premiados pelo Nobel. Cerca de 85% dos pesquisadores vêm de nações em desenvolvimento e o restante são cientistas e engenheiros de países desenvolvidos cujos trabalhos tiveram impacto significativo para os países do hemisfério sul.

Os prêmios compreendem nove campos científicos: Ciências Agrícolas, Biologia, Química, Geociências, Engenharia, Matemática, Ciências Médicas, Física e Ciências Sociais.

Os ganhadores deste ano são cientistas do Brasil, Chile, China, Índia, México, Paquistão e Turquia. O prêmio em dinheiro é de US$ 15.000.

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