Quem é o campeão de xadrez que está deixando o esporte com ares descolados

Aos 25 anos, Magnus Carlsen chama atenção da mídia com frases como ‘ser inteligente é o novo sexy’

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    No dia 30 de novembro termina em Nova York o Campeonato Mundial de Xadrez, um evento anualmente esperado por poucas pessoas. Mas a disputa de 2016 tem atraído uma atenção inesperada de público e mídia, por dois motivos em particular.

    O primeiro deles é histórico: a partida entre o norueguês Magnus Carlsen, 25, e o russo Sergey Karjakin, 26, tem sido associada a uma disputa à la Guerra Fria entre ocidente e oriente.

    A final é comparada àquela travada em 1972 entre o americano Bobby Fischer e o soviético Boris Spassky - foi a última vez que uma disputa de xadrez chamou tanto a atenção mundial.

    O segundo é o próprio Carlsen. O jovem norueguês tornou-se popular e dá um ar descolado a um esporte intelectual. O enxadrista já disse pretender provar que “inteligente é o novo sexy”.

    E ele parece estar conseguindo. O interesse por xadrez aumentou consideravelmente em seu país de origem desde que ganhou o mundial em 2013 contra o indiano Vishy Anand - que detinha o título desde 2007. Segundo a federação norueguesa de xadrez, filiações cresceram 36%. A final deste ano é transmitida ao vivo na Noruega no horário nobre.

    “Em três anos, toda a população norueguesa foi de inexperiente à conhecedora de todas as regras do xadrez.”

    Kristoffer Gressli

    Porta-voz da federação, ao “The Guardian”

    Carlsen é o único norueguês no top 100 mundial: são cinco franceses, seis ingleses, sete americanos e 24 russos, entre outras nacionalidades. Não há brasileiros.

    Capas de revistas, filmes, aplicativos

    Hoje midiático, Carlsen já disse em entrevistas ter sofrido bullying nos tempos de colégio. O jovem enxadrista começou a treinar com seu pai (amador) quando tinha 5 anos. Segundo os pais disseram em entrevista ao “The Telegraph”, aos 4 ele já demonstrava boa habilidade de memorização, recitando nomes de capitais e acidentes geográficos por diversão. Participou de seu primeiro campeonato de xadrez aos 8 anos, idade considerada tardia entre os grandes profissionais.

    “Ele era uma criança muito curiosa. Você conseguia fazer com que ele se interessasse por qualquer coisa, realmente. Mas parecia que ele tinha o talento para o xadrez. Ele tinha a curiosidade intelectual, boa memória, boa habilidade de visualização e de foco. Ele sentava por horas para realizar uma tarefa e não percebia quando falávamos com ele.”

    Henrik Carlsen

    Pai de Magnus, à “Vice”

    Aos 13, Carlsen tornou-se grande mestre, título vitalício concedido pela Federação Internacional de Xadrez aos enxadristas profissionais. Foi o terceiro mais jovem da história. Aos 22, em 2013, tornou-se campeão mundial.

    Nesse período, ele fez bicos como modelo, atraiu milhares de seguidores no Facebook, lançou seu próprio aplicativo, entrou para lista da revista “Time” de personalidades mais influentes do ano e para a lista da “Cosmopolitan” de homens mais sexy do mundo. Teve ainda um filme feito sobre ele - que estreou em Nova York no dia 18 de novembro.

     

    O app para celular, Play Magnus, permite a usuários jogarem xadrez contra uma versão computacional de Carlsen em diferentes idades. O próprio diz por vezes brincar com o aplicativo - e se frustrar ao perder para ele mesmo.

    Ao “The Guardian”, o enxadrista disse praticar cerca de uma hora por dia - curiosamente, nem sempre munido de um tabuleiro de xadrez: conhece o jogo tão bem que pode apenas imaginar estar diante de um tabuleiro. Ele é treinado pelo dinamarquês Peter Heine Nielsen.

    “Jogar bem xadrez não é uma questão apenas de memória. Isso ajuda, mas não deveria ser superestimado. Você deve estudar jogos anteriores e reconhecer os momentos críticos e as diferenças importantes. Você ganha uma intuição com base na experiência e conhecimento de todos os padrões. Quando eu estou jogando, eu meio que já sei intuitivamente qual movimento é o correto. A maior parte do meu pensamento vai para verificar meu instinto inicial.”

    Magnus Carlsen

    Em entrevista à “Vice”

    O estilo no tabuleiro e a relação com outros esportes

    O escandinavo se destaca por seu estilo de ataque e por não estabelecer jogadas ensaiadas de início - o que dificulta a preparação de seus adversários.

    Além de jogar xadrez, Carlsen treina futebol (ele é fã do Real Madrid) e esquia, embora se considere preguiçoso. Exercícios físicos parecem ser sua única distração quando não está pensando no jogo de tabuleiro - ele diz ter dificuldades para se concentrar em livros e não assistir muita televisão.

    Se ele alimenta a mídia com sua personalidade atraente por um lado, por outro, a atenção gigantesca que tem recebido parece o ajudar na partida. “Meus oponentes ficam um pouco mais intimidados quando jogam contra mim”, disse em entrevista ao “Telegraph”. Seu ego, possivelmente, só é equilibrado pelas três irmãs - que o acompanham nas partidas e invariavelmente tiram sarro da estrela.

    “No mundo do xadrez, há um grande perigo em se tornar obsessivo, passar a noite acordado, pensando em possíveis movimentos e permutações, mas espero que eu tenha dado um jeito de evitar essa armadilha.”

    Magnus Carlsen

    Em depoimento ao “Telegraph”

    Carlsen, porém, não é responsável único pelo crescimento da popularidade do xadrez nos últimos tempos. Segundo a “Vice”, a proliferação de sites e aplicativos atraíram muitas pessoas online para o jogo de tabuleiro. A existência atualmente de muitos jogadores jovens também tem ajudado a mudar a imagem do esporte. No top 10 mundial, seis profissionais têm menos de 30 anos.

    Como é um campeonato de xadrez

    O campeonato mundial de xadrez é travado entre dois jogadores em 12 partidas, ou rounds. O campeão de um ano sempre disputa a final seguinte contra um jogador escolhido por torneios zonais ao longo do ano - antigamente, o campeão escolhia quem iria desafiar.

    Os jogadores pontuam a cada partida, dentro de um determinado período de tempo. Os limites são estabelecidos por movimento em cada fase da partida e não para a disputa inteira. Também variam de jogo para jogo e de campeonato para campeonato. Partidas podem durar por horas.

    Uma vitória equivale a 1 ponto. Um empate, 0,5 ponto para cada jogador. A final entre Magnus Carlsen e Sergey Karjakin manteve-se empatada por sete partidas, com cada jogador conquistando 3,5 pontos.

    Os encontros de 2016 em Manhattan acontecem numa sala escura e sem janelas. Ingressos para acompanhar a competição ao vivo custam US$ 75 ao menos - US$ 1.200 para a área vip. Os competidores vão dividir um prêmio no valor de US$ 1,1 milhão - 60% para o campeão, 40% para o perdedor.

    O evento, conforme descreve o "The New York Times", tem seus momentos midiáticos marcantes. A abertura não contou com a presença do diretor da Federação Mundial de Xadrez, Kirsan Ilyumzhinov, por ele estar atualmente banido dos EUA devido a suas ligações com o governo sírio. Ilyumzhinov é também conhecido por acreditar que foi abduzido por aliens e que o xadrez foi inventado em outra galáxia.

    Já o ator Woody Harrelson ("True Detective"), reconhecidamente um amante da prática, esteve presente. Ele foi imbuído de realizar o primeiro movimento do jogo: avançou com um peão branco, pertencente a Carlsen. Na coletiva de imprensa posterior à partida, ambos jogadores reconheceram não ter ideia de que era Harrelson.

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