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Qual foi o papel de Fidel no mundo e que legado ele deixa

Frei Betto, ex-assessor de Lula e amigo pessoal do cubano, e Wagner Pinheiro Pereira, professor de história da UFRJ, analisam conquistas e fracassos do líder morto nesta sexta-feira

    A vida de Fidel Castro, líder da revolução cubana, terminou na noite desta sexta-feira (26), em Havana, mas o significado de suas ações na geopolítica mundial continuará em disputa por muito tempo.

    Processos históricos são feitos de forças contraditórias, e a trajetória de Fidel não foi diferente. Ele conseguiu derrubar, em 1959, um ditador que fazia da ilha um espaço de usufruto norte-americano, construir um sistema que oferecia condições mínimas de saúde e educação para seus habitantes, e se manteve firme na defesa do socialismo a apenas 165 km do litoral da maior potência capitalista.

    Por outro lado, Fidel reprimiu e matou opositores, montou um regime de partido único impermeável a divergências políticas, se manteve no comando do país até o limite de sua condição de saúde e, quando renunciou, o transmitiu ao irmão. Não permitiu que a população escolhesse seu presidente para mandatos fixos, regra básica das democracias modernas.

    O Nexo perguntou que papel o líder cubano representou no mundo e qual será o seu legado histórico para:

    • Frei Betto, ex-assessor especial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e amigo de Fidel Castro.

    • Wagner Pinheiro Pereira, professor de história da América no Instituto de História da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).


    Qual foi o papel de Fidel no mundo?

    Frei Betto Libertar uma pequena ilha do Caribe chamada Cuba de ser o prostíbulo da máfia dos Estados Unidos. E ele conseguiu, por meio da ação revolucionária, levar dignidade e apreço mundial ao seu país.

    Seja a favor ou contra, hoje o país é respeitado em todo mundo. Qualquer coisa que ocorra em Cuba tem repercussão mundial que nenhum outro país da América Latina recebe. Basta dizer que Cuba mereceu quatro visitas papais [1998, 2012, 2015 e 2016] em muito pouco tempo, sem ser um país tradicionalmente católico.

    Do ponto de vista econômico, Cuba não tem peso. Mas, apesar da pobreza, não há miséria. Ninguém nunca viu uma foto de uma família cubana jogada embaixo da rua, em cracolândias. Graças ao socialismo, Cuba conseguiu assegurar aos seus cidadãos uma vida digna, garantindo direitos fundamentais como saúde e educação.

    Wagner Pinheiro Pereira A história de vida de Fidel se mistura com a de uma nação e a de um processo revolucionário. Além disso, ele pegou o cenário mais conflituoso da Guerra Fria e colocou Cuba e a América Latina como uma das peças-chaves do jogo político mundial.

    Desde o momento em que chegou ao poder, numa luta anti-imperialista — Cuba era o terraço dos Estados Unidos, considerada um grande cassino e dominada pela prostituição — ele tenta construir um consenso no povo cubano em torno de sua imagem, seja por simpatia, neutralidade benévola ou uma sensação de absoluta impotência de se opor ao regime.

    Fidel pode ser visto com um paradigma da justiça social. Talvez o que mais se destaque da experiência cubana sejam os níveis elevados de saúde pública e da educação, a erradicação da desnutrição infantil e do analfabetismo, por meio de reformas centralizadas. Ele personificou como nenhum outro o potencial utópico-romântico-revolucionário do século 20, que buscou colocar em prática a experiência de construção de uma sociedade não baseada no lucro e no sistema capitalista.

    Mas teve também experiências de fracasso. Ele adotou um modelo marxista-leninista de desenvolvimento, converteu Cuba numa ditadura socialista, onde foi muito presente o viés autoritário, ditatorial, a repressão a todos que discordassem. Muitos foram presos, assassinados, colocados em campos de concentração. Houve repressão forte à liberdade de imprensa, liberdade religiosa, a homossexuais. Isso começou a ser amenizado a partir da década de 1990.

    Como Fidel entrará para a história?

    Frei Betto Como um grande líder político do século 20, respeitado inclusive por seus críticos e inimigos, que assegurou a Cuba sua soberania e independência.

    Ele é o único revolucionário do século 20 que sobreviveu ao êxito da própria obra, por mais de 50 anos. A maioria dos revolucionários, como Lenin, Mao Tse Tung, Ho Chi Minh, teve uma vida curta após o êxito da revolução. Não foi o caso de Fidel.

    O que vai prevalecer é o homem de uma pequena ilha que ousou enfrentar o império norte-americano. E o império não conseguiu esmagar Cuba como pretendeu. Apesar de todas as dificuldades, sabotagens, terrorismos, tentativas de atentados ao próprio Fidel, a nação soberana sobreviveu. Essa é a imagem. O Davi enfrentou Golias e, se não venceu, pelo menos não foi derrotado pelo gigante.

    Wagner Pinheiro Pereira Ele foi o último e talvez mais importante líder carismático do século 20, uma figura bastante ambígua. Depois da dissolução da União Soviética, Fidel abraça ideias ambientalistas e antiglobalização. No século 21, com a vitória de governos de esquerda na América Latina, há referências ao seu legado como uma luta em busca de uma sociedade humanitária.

    É arriscado pensar como será a imagem de Fidel daqui a 50 anos. Uns dizem que ele era uma figura retrógrada, com ideias vencidas, que comprovadamente não deram certo. Ou que as suas conquistas tiveram um preço muito alto, como a liberdade de imprensa e intelectual.

    Mas isso é compreendido no cenário da época. Outros regimes, não só de esquerda, de direita também, realizaram práticas semelhantes. Não estou concordando ou apoiando, mas a marca [autoritária] do regime que a direita usa para acusar Fidel, a gente também viu nos regimes militares de direita, com [Augusto] Pinochet no Chile, [Jorge Rafael] Videla na Argentina e a ditadura brasileira. A história da América Latina é marcada por instabilidade política e dificuldade de se instalar uma democracia plena.

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