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O erotismo na animação sob uma perspectiva feminina

Três diretoras que exploram a sexualidade em seus filmes falam ao ‘Nexo’ sobre como mulheres lidam com o tema

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    A animação não tem limites para contar uma história nem para expressar desejos e sentimentos. É por isso que ela é um recurso recorrente para falar sobre sexualidade, por exemplo. É raro, no entanto, que o erotismo seja abordado sob uma perspectiva feminina nesse formato.

    O Animage, Festival Internacional de Animação de Pernambuco, chama atenção para a produção que já existe, na tentativa de reverter essa ausência. O festival, que acontece até o dia 27 de novembro, incluiu na sua programação uma Mostra Erótica só com filmes feitos por mulheres.

    Eles retratam uma outra perspectiva, mais sutil e emotiva, sobre um tema comumente relacionado à objetificação e ao machismo, segundo falaram algumas cineastas ao Nexo. Conheça três delas:

    'What she wants', de Ruth Lingford

     

    “Acho que homens e mulheres tendem a manifestar ansiedade sobre sexo de formas diferentes. Em filmes feitos por homens, geralmente vemos mulheres gigantes engolindo-os. E uma aversão em torno de mulheres mais velhas/bruxas”, disse ao Nexo a britânica Ruth Lingford, pesquisadora do departamento de artes visuais e ambientais da Universidade de Harvard e diretora de “What she wants”, um dos curtas exibidos no festival.

    “Muitos homens fazem filmes introspectivos e amáveis sobre sexo. Mas se tiver que generalizar, diria que filmes feitos por homens são menos introspectivos que os feitos por mulheres.”

    Ruth Lingford

    Diretora de “What she wants”

    “What she wants” (“O que ela quer”), feito em 1994, é um filme sobre sexo e consumismo na sociedade. Na época, sem acesso aos equipamentos necessários para se fazer animação, Lingford desenvolveu o curta com ajuda de uma Amiga 1500, antigo computador pessoal vendido pela empresa Commodore. “Acho animação um meio ótimo para falar de experiências interiores. E sua capacidade de metamorfose nos permite ver as conexões entre as coisas de forma psicológica”, diz a cineasta.

    “Acho que talvez mulheres se sintam mais livres para abordar questões emocionais difíceis. Minha relação com meu corpo conduz boa parte do meu trabalho e, como tenho o corpo de uma mulher, isso afeta o tipo de trabalho que faço.”

    Ruth Lingford

    Diretora de “What she wants”

    'Little Vulvah', de Sara Koppe

     

    A dinamarquesa Sara Koppel é criadora do projeto Naked Love, série de animações sobre erotismo, sexo e gênero feita usando financiamento coletivo. Naked Love é também o nome de seu estúdio de animação, em Copenhague. Suas animações são todas feitas à mão no papel - cada segundo de filme tem aproximadamente 12 desenhos. “Little Vulvah & Her Clitoral Awareness” (a pequena vulva e sua percepção do clitóris), curta de 4 minutos e 30 segundos que se apresenta no Animage, recebeu 10 prêmios desde que foi lançado, em 2013.

    Para ela, muito do que existe sobre eroticismo é feito a partir da perspectiva masculina, que, para Koppel, geralmente foca na veneração do corpo feminino como um objeto da luxúria masculina. “Já mulheres fazendo arte e cinema erótico, no geral, focam mais no prazer feminino, mesmo quando veneram o corpo feminino - como também fazem vez ou outra”, disse ao Nexo.

    A cineasta conta que, depois de “Little Vulvah & Her Clitoral Awareness”, muitas mulheres entraram em contato com ela contando que se sentiram impactadas e descobriram o próprio clitóris depois do filme. “Até na Dinamarca, que é um país bastante libertário sexualmente, é difícil falar abertamente sobre essas coisas. Em outros países onde a sexualidade é um tabu ainda maior, pessoas me disseram que o filme teve uma grande influência”, ela conta.

    “Isso era uma das coisas que esperava: comover pessoas e fazê-las pensar sobre sua sexualidade de uma forma linda e positiva.”

    Sara Koppel

    Diretora de “Little Vulvah”

    'Le Clitoris', de Lori Malépart-Traversy

     

    Lori Malépart-Traversy fez “Le Clitoris” durante seu último ano de estudos em cinema na Concordia University (Canadá). Como trabalho de conclusão de curso, alunos deviam fazer um curta no período de oito meses. “Tínhamos total liberdade de conteúdo e técnica, então decidi explorar um tema pelo qual me interesso, que é a sexualidade feminina vista pelos olhos de uma mulher”, diz. Para ela, a ausência da temática na mídia e no cinema é responsável pela existência de muitos mitos e informações falsas sobre a questão.

    De cara, a cineasta canadense chegou à página da Wikipédia sobre o clitóris. “Lendo um monte de informação e dados históricos que não conhecia, como o fato de que o clitóris tem raízes longas e foi ‘descoberto’ pelo homem, pensei em talvez fazer um curta sobre esse órgão em particular. Achei que seria interessante desconstruir mitos sobre ele.”

    Segundo ela, o resultado foi positivo: mulheres que viram o curta disseram ter aprendido algo sobre o próprio corpo - e que o tom cômico do filme ajuda a tratar de um tema tabu.

    “Sendo mulher e tendo uma perspectiva feminista afetou definitivamente meu processo criativo. A mídia e os filmes estão cheios de pontos de vista masculinos, particularmente sobre sexualidade. Como mulher, eu aprendi sobre sexualidade pela perspectiva masculina, o que pode ser alienador.”

    Lori Malépart-Traversy

    Diretora de “Le Clitoris”

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