Ir direto ao conteúdo

O tamanho do problema de assédio no Uber. E como a empresa está lidando com isso

Ninguém sabe exatamente a quantidade de casos. Mas relatos recentes mostram que o problema é recorrente

     

    O Uber, aplicativo que oferece serviço de transporte com motoristas autônomos, tem enfrentado denúncias de assédio no Brasil e no mundo.

    Um caso recente que veio a público foi o da cantora Karina Buhr. Em um post no seu perfil no Facebook, ela contou ter pego uma corrida em São Paulo na qual o motorista, além de dirigir perigosamente, desviou da rota e não a deixou sair do veículo - o que a obrigou a descer do carro. O post foi apagado após ela receber mensagens ofensivas.

    Outros casos do tipo foram relatados recentemente no país por veículos como o jornal “Folha de S.Paulo” e o site Buzzfeed.

    As passageiras ouvidas pela “Folha” relatam que motoristas dirigiram a elas perguntas inadequadas, convites para sair, elogios incômodos e até mesmo mensagens e tentativas de contato posteriores às viagens via redes sociais.

    Em março de 2016, um vazamento de dados internos do aplicativo Uber nos Estados Unidos chegou às mãos do Buzzfeed. O veículo relatou que uma busca nessa base de dados - que compreende o período entre dezembro de 2012 e agosto de 2015 nos EUA - pelos termos “assédio sexual” teve 6.160 resultados em pedidos de suporte de usuários.

    Outra busca, dessa vez por “estupro”, obteve 5.827 resultados individuais em mensagens de suporte. Outras variações também obtiveram um número alto de resultados.

    Na Índia, denúncias de estupro acarretaram no banimento do serviço em Nova Delhi, em dezembro de 2014. A medida, no entanto, foi revogada, mas as ocorrências continuaram. Tantas, na verdade, que é possível “perder a conta”, segundo o jornal “India Today”.

    Ninguém sabe ao certo o tamanho do problema

    A companhia argumentou que os números apresentados pelo Buzzfeed eram “exagerados” e negou o pedido do site para ter acesso às informações completas ou aos procedimentos de análise de dados da empresa.

    Segundo o Uber, apenas cinco entre todas essas mensagens levantadas pelo Buzzfeed atenderam ao parâmetro da empresa que classifica a autenticidade de um incidente desse tipo em uma viagem.

    A política da empresa no Brasil segue a mesma linha. O Uber afirma que não divulga o número de casos de assédio e incidentes relacionados. A empresa afirma prezar pela segurança do usuário e não tolerar “qualquer tipo de violência no uso da plataforma”.

    O que o Uber faz pela segurança das passageiras

    Para que um motorista se cadastre na plataforma, é necessário ter carteira de motorista com licença para exercer atividade remunerada e passar por uma checagem de segurança. É exigido que se apresente um atestado de antecedentes criminais fornecido pela Secretaria de Segurança Pública do Estado em que o motorista vai atuar.

    Quando o usuário precisa contatar o motorista ou vice-versa, o número de telefone fica anônimo, segundo o Uber. A empresa não explica como alguns motoristas conseguem enviar mensagens a passageiras pelas redes sociais.

    Perguntada pelo Nexo sobre se o treinamento recebido pelos motoristas compreende a conscientização sobre condutas de assédio a passageiras, a empresa respondeu que “não é a Uber que contrata motoristas, mas sim os motoristas que contratam a Uber para utilizar o aplicativo”. Isso os torna, segundo eles, “totalmente independentes”, sem subordinação à empresa.

    É o mesmo posicionamento que a empresa adota em relação à reivindicações trabalhistas dos motoristas, por exemplo, embora a Justiça de alguns lugares esteja reconhecendo que existe vínculo empregatício entre motoristas e Uber.

    Por se posicionar como uma plataforma de serviço que conecta prestadores e clientes, a estratégia para garantir a segurança divulgada pela empresa é baseada em atitudes dos próprios passageiros. Uma delas é a função de compartilhamento de rota, que permite ao passageiro mandar para qualquer pessoa dados sobre a corrida em tempo real.

    A outra é a avaliação mútua entre motoristas, chamados por eles de “parceiros”, e passageiros. Tanto os motoristas quanto os passageiros são avaliados em um ranking de zero a cinco estrelas - os que têm nota menor do que 4.6 são descredenciados da plataforma. É essa estratégia que garante que a plataforma permaneça “saudável”, disse ao Nexo a assessoria do Uber.

    Os incidentes reportados são “analisados caso a caso” por uma equipe interna da empresa, segundo a assesoria. Quando uma denúncia é recebida, a Uber entra em contato com o passageiro, pode tomar medidas para suspender a comunicação entre a vítima e o motorista e, se for o caso, tirá-lo de circulação.

    Segundo a empresa, isso acontece em casos de violência sexual. Mas esse desligamento depende de uma avaliação da gravidade do incidente cujos critérios não ficam claros, pois não são divulgados.

    Se o ocorrido tiver sido reportado em boletim de ocorrência, o que nem sempre acontece por conta da altíssima subnotificação do estupro no Brasil, a empresa diz que passa a colaborar com as autoridades no curso das investigações.

    A Uber disse ao Nexo que realizou duas campanhas em 2016. Uma delas incentivava as mulheres a denunciarem assédio e abordagens agressivas durante o Carnaval. A outra, em junho, enviou mensagens aos motoristas com conteúdos de combate ao machismo. A empresa afirmou que envia e-mails aos "parceiros" com "temas diversos" - entre eles, o assédio. Outra política é o aumento no número de motoristas mulheres. A Uber assumiu o compromisso de chegar a mais de 1 milhão de “mulheres-parceiras” na plataforma até 2020, no mundo inteiro.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!