Ir direto ao conteúdo

O papa e o aborto: qual o alcance dos gestos do líder católico

Vaticano permite que padres concedam perdão. Mas a doutrina da Igreja permanece a mesma: se envolver em um aborto é pecado

     

    O papa Francisco estendeu a todos os padres o direito de perdoar pessoas que fizeram um aborto. A decisão, publicada na segunda (21) pelo Vaticano na carta apostólica "Misericordia et Misera", tornou permanente um aceno feito pelo líder da Igreja Católica em 2015. Até então, apenas bispos estavam autorizados a conceder o perdão à interrupção da gravidez, prática considerada um “grave pecado” pela Igreja. 

    Vista por alguns como mais um sinal de um papado progressista, que pretende tornar a Igreja Católica mais inclusiva, a permissão ainda frustra católicos mais liberais, para quem a concessão do perdão está longe de apontar para uma mudança real.

    “Não há pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e apagar quando encontrar um coração arrependido buscando se reconciliar com o Pai”

    Papa Francisco

    Em documento no qual autoriza o perdão ao aborto

    O que diz a Igreja sobre o aborto

    Segundo a lei canônica, pessoas envolvidas em um aborto - seja a mãe, médico ou enfermeiro que participam da operação - devem ser excomungadas (excluído da comunidade católica), a não ser que confessem e recebam absolvição. Até então, porém, essa absolvição só podia ser concedida por um bispo, ou por um padre que tivesse recebido a autoridade de um bispo para tanto.

    Em dezembro de 2015, o papa autorizou temporariamente padres de paróquias a também conceder o perdão, como parte do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

    O Jubileu é um ano especial no calendário da Igreja, dedicado à remissão dos pecados e de suas penitências. Nesse período, o papa concede indulgência plena aos fiéis que se deslocam até Roma.

    O último Jubileu aconteceu em 2000, durante o papado de João Paulo 2º. O próximo, segundo o calendário católico, deveria ser em 2025, mas o papa Francisco decidiu realizar um Jubileu Extraordinário antes disso. O ano decorreu de 8 de dezembro de 2015 até 20 de novembro de 2016.

    A mudança tem um teor simbólico, principalmente em lugares como os Estados Unidos, onde bispos comumente já delegavam padres com a função. Para alguns analistas, é uma forma de diminuir a “burocracia” católica que afasta muitas pessoas da religião.

    Não há mudança de doutrina

    A decisão se insere no projeto do papa Francisco de tornar a Igreja um lugar mais inclusivo. A permissão para conceder o perdão, no entanto, opera mais na lógica da “misericórdia pastoral” do que na de abertura e mudança da antiga doutrina católica (conjunto de verdades e crenças da religião). Ou seja, os valores da Igreja em relação à família permanecem os mesmos. Especialistas dizem que este era um entendimento da lei católica já interpretado por João Paulo 2º - de certa forma, Francisco apenas aprofunda esse projeto.

    O mesmo vale para outras decisões e discursos feitos pelo pontífice. Em 2015, o papa afirmou que todas as pessoas, independente da orientação sexual, deveriam ser tratadas com respeito. Ainda assim, uniões e casamentos homossexuais permanecem não sendo aceitos pela Igreja.

    “Não há nenhum embasamento para considerar uniões homossexuais semelhantes ou análogas aos planos de Deus para o casamento e para a família.”

    Papa Francisco

    Em documento publicado em 2015

    Em abril de 2016, o papa publicou o documento sobre os valores católicos considerado mais polêmico até agora. No chamado “Amoris Laetitia”, ele permitia a comunhão a pessoas divorciadas que voltaram a se casar, mas mediante um longo processo de acompanhamento de um padre.

    “O escopo de ‘Amoris Laetitia’ é típico de Francisco: uma vasta combinação de passagens bíblicas, meditações sobre o amor marital, conselhos caseiros sobre costumes familiares, passagens lastimando a solidão frenética da vida moderna e um chamado para que famílias se aproximem da Igreja e vice-versa.”

    Jim Yardley e Laurie Goodstein

    Jornalistas, em análise publicada no “New York Times”

    Enquanto as declarações do papa ainda frustram católicos liberais, sofrem reações dos mais conservadores, para quem as medidas vão longe demais. Em setembro, quatro cardeais enviaram uma carta ao papa questionando a “Amoris Laetitia”. A carta foi posteriormente tornada pública, mas Francisco não respondeu.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!