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Como um projeto de estruturas virou um sucesso de crowdfunding

Ignorado por investidores, kit que ensina estrutura para arquitetos se tornou realidade com doações de estudantes, professores e pesquisadores

     

    Enquanto fazia sua especialização, o arquiteto Márcio Sequeira de Oliveira tinha uma dificuldade: as aulas de estrutura. Ele considerava a disciplina, que ensina como as estruturas se comportam diante de fenômenos físicos, abstrata demais. “Tem muito cálculo, você não consegue visualizar. Sempre tive dificuldade em compreender”, ele contou ao Nexo.

    Oliveira inventou uma solução: um kit, formado por molas, imãs e pequenas peças, que simula o comportamento das estruturas. Era uma maneira de visualizar, concretamente, o que os cálculos projetavam no papel. Quase dez anos de pesquisa e peregrinação depois, o kit - chamado Mola - saiu do papel e começou a ser distribuído em agosto de 2015. E não apenas se tornou realidade, como viabilizou o surgimento de uma empresa, quebrou os recordes de crowdfunding no Brasil e já foi exportado para 50 países.

    Ninguém quis financiar o produto

    Quando cursava a especialização, Oliveira foi convidado por um professor a fazer mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto.  Em sua tese, se dedicou a validar o modelo do Mola, pensado por ele na graduação. “A gente queria saber até que ponto poderia confiar”, lembra. Deu certo: o pequeno kit se comportava da mesma maneira que as estruturas. O mestrado foi concluído em 2008.

     

    O arquiteto passou os anos seguintes buscando investidores para conseguir produzir o produto em uma escala maior, já que vários professores e estudantes haviam demonstrado interesse. Não houve retorno. “Não sei se eu não falei com as pessoas certas, mas ninguém enxergou a possibilidade de sucesso do produto”, ele lembra.

    Foi numa conversa de bar, em 2012, que um amigo levantou a possibilidade de crowdfunding - isto é, de viabilizar o lançamento do produto através de doações. Siqueira passou dois anos estudando o modelo antes de lançar, de fato, a campanha para financiar coletivamente o Mola. Simplificou o produto. Planejou a campanha. “Tinha de ser certeiro”, ele lembra.

    A ideia era viabilizar apenas 150 peças, que seriam compradas pelos professores, arquitetos, engenheiros e pesquisadores que já haviam manifestado interesse no produto. Para isso, Oliveira estipulou uma meta inicial de R$ 50 mil para desenvolver as primeiras peças. A partir daí, ele pensou, seria mais fácil conseguir investimento.

    A meta foi batida em três dias. No total, em 45 dias de campanha ao longo de 2014, foram encomendados mais de 1600 kits, com mais de R$ 600 mil arrecadados.

    A corrida para entregar

    Até esse ponto, os kits eram produzidos pelo próprio arquiteto, na sala da casa dele. A nova demanda tornou impossível a produção artesanal. Siqueira precisou trocar de fornecedores, criar ferramentas específicas, contratar profissionais para ajudar na produção, criar uma empresa e alugar um espaço para produzir o Mola em uma escala maior.

    “Eu nunca imaginei essa demanda. Pensei que eu fosse lutar para conseguir a verba inicial”, ele lembra.

    O crowdfunding foi em 2014. Demorou um ano para que todos os kits encomendados fossem entregues. A partir de então, a venda começou a ser feita online. Siqueira se prepara, agora, para lançar o Mola2, novo kit, também financiado coletivamente (e que já bateu a meta de arrecadação mesmo antes do fim da campanha).

    Por que o projeto deu certo

    O Mola representa, em pequena escala, o movimento das estruturas diante de fenômenos como o vento. Todas as construções reagem a esse tipo de fenômeno, mas nós não sentimos. O Mola torna possível “ver” esse comportamento. “A gente amplia essas deformações no modelo físico. Vendo como ele se deforma, fica mais fácil entender”, explica o arquiteto.

    Embora existam outros kits do tipo, o inventado pelo brasileiro é diferente porque é versátil. Permite que se estude pontes, vigas, lajes e vários outros tipos de construções.

    Durante a campanha, ficou claro que o foco de quem colaborou financeiramente não era apenas a ideia: eles queriam o produto. Cerca de 90% das doações eram de mais de R$ 350, o valor mínimo para se adquirir o kit.

    Oliveira acredita que a razão do sucesso de seu produto é simples: ele é uma solução. “O problema que eu tive na faculdade de não entender estrutura existe em praticamente todas as escolas de engenharia e arquitetura do mundo”, diz.

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