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Por que o muro de Trump está longe de ser uma exceção no mundo

Metade das barreiras fronteiriças erguidas no mundo após a 2ª Guerra são recentes, posteriores ao ano 2000. Dado mostra que plano de republicano é mais tendência do que fato isolado

     

    Uma das promessas de campanha mais conhecidas do republicano Donald Trump é a construção de um muro que separe os EUA do México. A intenção é impedir a entrada de imigrantes ilegais em território americano. O novo presidente afirma, inclusive, que vai cobrar dos mexicanos o pagamento pelos custos da barreira.

    Os dois países têm uma fronteira de mais de 3.000 quilômetros, separada tanto por acidentes naturais - como rios e desertos - quanto por 48 postos de controle migratório, perto dos quais há barreiras, ora em forma de muro ora em forma de cerca.

    Mesmo depois de terminada a eleição, não está claro do que se trata exatamente o muro de Trump. As declarações do presidente eleito tiveram caráter político, não de engenharia. Portanto, não há detalhes sobre a construção: se cobriria áreas de deserto, se seria de concreto em toda a sua extensão, se teria mais de 3.000 quilômetros contínuos.

    Embora Trump tenha levado os muros e fronteiras a um paroxismo, a existência de barreiras físicas construídas para impedir a passagem de pessoas indesejadas é algo cada vez mais comum

    Quando questionado, Trump reage com um misto de assertividade e de vagueza, como nesse diálogo com o jornalista mexicano Jorge Ramos, numa entrevista coletiva realizada no dia 25 de agosto:

    “Como o sr. vai construir um muro de 3.000 quilômetros?”, perguntou Ramos. “Muito fácil. Eu sou um construtor. Isso é fácil. Eu construo edifícios … Posso lhe dizer o que é mais complicado? O mais complicado é construir um prédio de 95 andares. Ok?”, respondeu Trump.

    O muro de Trump se estende, até agora, muito além de seu efeito prático. Ele materializa uma das muitas falas agressivas do novo presidente americano que foram premiadas pelo eleitor nas urnas, no dia 8 de novembro.

    Durante toda a campanha, o republicano canalizou a frustração do eleitorado para os estrangeiros. Quando falava de terrorismo, citava “radicais islâmicos”. Quando se referia à criminalidade, mencionava os latino-americanos. Empresas estrangeiras também foram culpadas pela perda de empregos nos EUA. O mundo foi pintado como hostil à prosperidade do trabalhador americano e o muro, como um dos símbolos da solução.

    A estratégia de repelir “o outro” e reafirmar a própria identidade a qualquer custo foi identificada como um “nativismo” renovado por estudiosos como o historiador Jeremy Adelman, da Universidade de Princeton. E como “desglobalização” pelo economista Simon Evenett - ambos em entrevistas ao Nexo.

    Porém, embora Trump tenha levado os muros e fronteiras a um paroxismo, a existência de barreiras físicas construídas para impedir a passagem de pessoas indesejadas é algo comum. Essa é uma realidade que, de acordo com alguns estudiosos, não está caindo em desuso. Na verdade, se trata de algo que está aumentando.

    Muros crescem

    Das 51 barreiras fortificadas construídas entre países desde o fim da Segunda Guerra (1945), quase a metade (25) foi erguida entre 2000 e 2014, de acordo com dois cientistas políticos que pesquisam o assunto.

    Ron Hassner e Jason Wittenberg, ambos professores de Relações Internacionais na Universidade de Berkeley, na Califórnia, afirmam que  “a Europa terá mais barreiras físicas entre seus países dos que tinha na Guerra Fria”. A projeção se apoia no ritmo atual de crescimento dessas construções.

    Crescimento

    Gráfico mostra crescimento da construção de barreiras fronteiriças no mundo desde os anos 1950
     

    No livro “Barreiras para Entrar: Quem constrói fronteiras fortificadas e por quê?”, Hassner e Wittenberg explicam que “os Estados não constroem barreiras fortificadas em resposta a disputas fronteiriças ou para prevenir o terrorismo. Ao contrário, muitas dessas barreiras são erguidas por razões econômicas, para manter afastados imigrantes de Estados mais pobres”, afirmam.

    Essa afirmação se aplica sobretudo a países desenvolvidos que tentam conter a entrada de imigrantes, como nos casos americano e europeu.

    Porém, há casos nos quais o que está em jogo é a demarcação precisa de uma linha fronteiriça, ou a proteção de um país contra o risco de ataques estrangeiros. Um exemplo disso é o que ocorre na fronteira que separa a Arábia Saudita do Iêmen ao longo de mais de mil quilômetros. Os sauditas começaram a construir o muro em 2003, sob alegação de impedir ataques terroristas dos iemenitas, que, por sua vez, protestaram alegando que a barreira violava os acordos fronteiriços existentes entre os dois países. Em 2015, a Arábia Saudita passou a liderar uma coalizão militar que ataca o Iêmen sob o pretexto de preservar o mandato do atual presidente Abdrabbuh Mansour Hadi.

    Também no Oriente Médio, israelenses construíram um muro de mais de 700 quilômetros na Cisjordânia, região disputada desde a criação do Estado de Israel, em maio de 1948. A barreira é apresentada pelos israelenses como uma contenção contra ataques palestinos, que por sua vez lembram que ela viola os limites fixados pela chamada Linha Verde, de 1967.

    Apesar de as barreiras americanas e europeias não estarem ligadas a conflitos, elas acabam - de acordo com Hassner e Wittenberg - legitimando essa prática em outros países, como se dessem uma chancela moralmente inquestionável a esse tipo de solução.

    A teoria dos ‘nós interligados’

    Outro autor americano que estuda o crescimento dos muros no mundo é Joshua Cooper Ramo, autor de um livro chamado “O Sétimo Sentido”.

    Ele não fala apenas de barreiras físicas, de cercas, arames farpados, postos fronteiriços e muros. Ramo fala também das cercas tecnológicas, políticas, sociais e econômicas que mantêm grupos de interesse mútuo apartados dos demais.

    “Muros, cercas e barreiras do mundo moderno parecem estar cada vez mais longas, mais ambiciosas e mais defensivas a cada ano. A criação de portões será o diferencial dessas conexões”

    Para Ramo, a globalização não está ligando indivíduos solitários. A globalização está ligando grupos, chamados por ele de “nós”. Aqui, a palavra “nós” não se refere à primeira pessoa do plural, mas aos “nós” usados para atar cabos - embora o trocadilho entre as duas palavras até ganhe um significado adequado na língua portuguesa.

    Esses nós são, em alguma medida, fechados - alguns mais, outros menos -, e seu grau de eficiência está ligado à permeabilidade às influências externas e à qualidade de quem exerce o controle sobre as entradas e saídas desses nichos.

    “Muros, cercas e barreiras do mundo moderno parecem estar cada vez mais longas, mais ambiciosas e mais defensivas a cada ano. A criação de portões será o diferencial dessas conexões”, prevê, usando um sentido figurado para comparar o funcionamento dos muros e dos portões físicos com as características de fechamento e de permeabilidade dos diferentes nós.

    Crise migratória pressiona

    A previsão de “a Europa terá em breve mais barreiras em suas fronteiras do que tinha durante a Guerra Fria” foi corroborada pela revista britânica “The Economist”, em janeiro.

    A expressão “Guerra Fria” se refere ao período iniciado após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e concluído após a queda do Muro de Berlim, em 1989. Nesses 44 anos, duas grandes potências - EUA e URSS - dividiram boa parte do mundo entre satélites que orbitavam ao redor de um polo capitalista (americano) e outro comunista (soviético).

    A Europa foi separada por uma simbólica “cortina de ferro”, que dividia países do oeste europeu (bloco próximo dos EUA) dos países do leste europeu (bloco próximo da URSS). No caso mais extremo, a Alemanha foi separada ao meio, pelo Muro de Berlim.

    Esse período extremo da história era considerado até agora um dos ápices das divisões fronteiriças. Tanto assim que a queda do Muro de Berlim (1989), foi tido como um momento de inflexão na direção de um novo mundo, mais conectado.

    Novos fatos históricos, como a atual onda migratória do Oriente Médio e do Norte da África na direção dos países europeus banhados pelo  Mediterrâneo, reavivaram a política de construção de barreiras.

    Nas teorias de Hassner, Wittenberg e Ramo, o muro de Trump é mais uma barreira física que acelera a tendência de os países se fecharem fisicamente. Além disso, é também um símbolo do nó apertado que o presidente eleito está dando no país, de maneira a diminuir as portas de conexão com outros grupos.

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