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Por que mulheres famosas estão optando por lidar publicamente com a depressão

Iniciativa serve como forma de combate aos estigmas em torno de problemas psicológicos como um todo

     

    No começo de novembro, o site americano “The Cut”, da "New York Magazine", publicou uma lista de 25 mulheres famosas que assumiram sofrer de ansiedade ou depressão, e que falaram publicamente sobre o tema. Há na seleção depoimentos de nomes como a atriz Kerry Washington, a escritora J.K. Rowling e a jornalista Anna Wintour.

    A iniciativa de reunir os relatos foi uma forma de demonstrar a importância do tema que é muitas vezes subestimado ou acobertado por aqueles que apresentam o sintoma, seja por vergonha, medo ou negação ante um problema estigmatizado, visto muitas vezes como sinal de fraqueza.

    No caso de celebridades, em particular, transtornos do gênero foram (e ainda são) disfarçados por assessores de imprensa com a intenção de não “abalar” a imagem de artistas. A direção, agora, parece ser a oposta: assumir o problema para acabar com rumores e derrubar estigmas.

    A questão ganhou corpo em setembro quando a atriz Mara Wilson - conhecida por interpretar, quando criança, a menina Matilda no filme homônimo de 1996 -, lançou a autobiografia “Where am I now?” (onde estou agora?). No livro, Wilson, hoje com 29 anos, conta como sucumbiu à tristeza quando teve de enfrentar os padrões de beleza hollywoodianos.

    “Hoje sei que não é minha função ser linda, ou fofinha, ou qualquer outra coisa que alguém quer que eu seja. Então, a próxima vez que alguém escondido atrás de um apelido online decidir me dizer o que eu devo fazer para ficar mais bonita, vou propor um encontro cara a cara. E vou contar o que é passar pela puberdade diante dos olhos do público, pouco depois de perder sua mãe para o câncer”

    Trecho de  “Where am I now?” reproduzido pelo site da BBC

    No Brasil, a atriz Adriana Esteves reconheceu, recentemente, ter passado por um período de depressão provocado por críticas que recebeu por sua atuação na novela “Renascer”, de 1993. “Foram os anos mais difíceis da minha vida", disse ela em entrevista à revista “Claudia”, em agosto de 2016. Como consequência, ela se manteve longe do trabalho até 1997, quando protagonizou “A Indomada”.

    A atriz Cássia Kiss Magro, Priscila Fantin e a cantora Zizi Possi são algumas das personalidades brasileiras que também se manifestaram abertamente sobre a questão.

    A mudança de estratégia

    Entrevistados pela BBC, especialistas levantaram algumas hipóteses para a “mudança de estratégia” entre celebridades.

    Segundo eles, o reconhecimento público dos transtornos psicológicos pode ter a ver com a diminuição das distâncias entre famosos e fãs provocada pelas redes sociais - que revelam o cotidiano de celebridades de forma mais imediata que os antigos paparazzis, além de criarem um canal de diálogo entre artistas e público.

    "Uma das coisas que mudaram foram as expectativas que as pessoas têm em relação às celebridades. Agora os fãs (e até aqueles que não são fãs) estão mais acostumados a ver seu cotidiano pelas redes sociais"

    Mark Brown

    Pesquisador de saúde mental, à BBC

    Para outros especialistas ouvidos, a nova estratégia tem a ver com uma mudança na percepção da saúde mental. Há uma maior conscientização e aceitação sobre o tema - que, por sua vez, é impulsionada pelas declarações de personalidades influentes.

    Segundo uma pesquisa citada pela BBC, feita em 2014 pela organização britânica Mind, 28% de 2.000 entrevistados revelaram assumir um problema psiquiátrico após uma declaração pública feita por uma pessoa famosa.

    Declarações marcantes

    “Acho que tive tendência a depressão quando bem jovem. Tornou-se mais grave entre meus 25 e 28 anos, foi um período sombrio. É essa ausência de sentimentos - inclusive da esperança de que vai se sentir melhor. E é muito difícil descrever para alguém que nunca passou por isso, porque não é tristeza. [...] Isso são o que os ‘Dementadores’ [personagens de ‘Harry Potter’] representam”

    J.K. Rowling

    Escritora, no “Oprah Winfrey Show” em 2010

    “Quando ninguém te escuta, ou você sente que ninguém te escuta, todo tipo de coisa começa a acontecer. Você tem tanta dor dentro de você que você começa a se machucar por fora, porque você precisa de ajuda, mas é a ajuda errada a que você está buscando”

    Princesa Diana

    Em entrevista à BBC, em 1995

    “Sempre fui ansiosa, mas nunca fui o tipo de pessoa ansiosa que corre quilômetros por dia ou faz várias ligações no Blackberry. Eu sou o tipo de pessoa ansiosa que pensa: ‘Não vou conseguir sair hoje, nem amanhã, talvez não consiga sair nas próximas 67 noites”

    Lena Dunham

    Atriz e escritora, ao programa “Refinery29’s RIOT”, em maio de 2016

    "Ser bipolar é perder o controle. Você perde a paciência num nível mais agudo com os filhos, por exemplo. Quando vê está sacudindo a criança, falando mais alto. Vira meio bicho, sabe? É uma coisa que amedronta as pessoas”

    Cássia Kiss Magro

    Atriz, à revista “TPM”

    “A depressão parece um chamado que você não sabe de onde vem. Tem que dar uma parada e olhar para dentro, se permitir estar só com você, se fazer carinho. Eu tinha muito pouco produção de serotonina e trabalhava excessivamente”

    Priscila Fantin

    Atriz, ao site “UOL”

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