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Alberto Youssef, o doleiro que Moro perdoou duas vezes

Ele foi preso no caso Banestado, solto após fechar delação, e preso de novo na Lava Jato. Agora, vai cumprir a pena em casa por voltar a colaborar com a Justiça

     

    O doleiro Alberto Youssef é uma das figuras centrais do maior escândalo de corrupção já revelado no Brasil. Preso ainda na primeira fase da Operação Lava Jato, em março de 2014, ele foi acusado de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, uso de documentos falsos e sonegação.

    Na prática, ele operava um complexo sistema de lavagem de dinheiro desviado de contratos superfaturados entre empreiteiras e a Petrobras. Dinheiro esse que ia parar nas mãos de políticos do Partido Progressista, um dos aliados dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff responsáveis pela indicação de funcionários-chave dentro da estatal petrolífera, como o ex-diretor Paulo Roberto Costa.

    Após o processo criminal, foi condenado a 122 anos de prisão pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal em Curitiba. Nesta quinta-feira (17), depois de 2 anos e 8 meses de prisão em regime fechado, porém, o doleiro deixará a prisão. Ficará mais quatro meses em casa, com uma tornozeleira eletrônica, e depois estará livre.

    Trata-se do resultado de seu acordo de delação premiada, que incluiu ainda a devolução de R$ 50 milhões aos cofres públicos. Ao lado das confissões de Paulo Roberto Costa, as revelações feitas pelo doleiro foram essenciais para que os desvios na Petrobras chegassem a políticos importantes de Brasília.

    A pena de Youssef

    Condenação

    122 anos por lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção ativa e passiva

    Pena após delação

    3 anos:  2 anos e 8 meses em regime fechado (já cumpridos) e 4 meses em casa, com tornozeleira eletrônica

    Multa

    Devolução de R$ 50 milhões

    Restrição

    Não pode voltar a cometer crimes por 10 anos senão perde todos os benefícios do acordo de delação

    Como Youssef foi pego na Lava Jato

    Alberto Youssef já havia sido detido ao menos sete vezes antes da Lava Jato. O doleiro costumava ser o braço direito do deputado federal José Janene, morto em 2010, e um dos pivôs do escândalo do mensalão, quando foi acusado de receber R$ 4,1 milhões para votar a favor do governo Lula. O deputado do PP chegou a ser réu por formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas morreu antes do julgamento.

    Na Lava Jato, Youssef era o responsável por operar o esquema de propinas na Petrobras que abastecia o caixa do Partido Progressista, de Janene.

    Youssef foi preso pela Polícia Federal em março de 2014 em São Luís na primeira fase da ainda desconhecida Operação Lava Jato. Ele estava na capital do Maranhão para entregar R$ 1,4 milhão em dinheiro em propina da construtora UTC. Foi preso no início da manhã e transferido para Curitiba em seguida.

    A polícia chegou a Youssef depois de monitorar telefonemas de uma rede de doleiros por quase um ano. Três dias antes de Youssef, sua sócia e amante Nelma Kodama havia sido presa em flagrante tentando embarcar para Milão com 200 mil euros escondidos.

    O juiz que autorizou a prisão foi Sergio Moro, que Youssef já conhecia da operação que investigava crimes no Banco do Estado do Paraná, outro caso de corrupção em que se envolveu dez anos antes.

    Quem Youssef delatou na Lava Jato

     

    A premissa para o fechamento do acordo era que ele confessasse os crimes e detalhasse o funcionamento do esquema na Petrobras. O doleiro concordou em identificar “autores, coautores e partícipes das diversas organizações criminosas de que tenha conhecimento”.

    Em dezembro de 2014 o acordo foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal, já que envolvia políticos com foro privilegiado. Na época, era apenas a terceira delação premiada fechada pela Lava Jato - hoje são cerca de 50.

    Youssef admitiu ser responsável pelas propinas destinadas ao PP e que entregava o dinheiro pessoalmente muitas das vezes. Ele forneceu provas que levaram as investigações a empreiteiras, partidos políticos e novos operadores.

    Foi Youssef, por exemplo, o primeiro a citar Eduardo Cunha, então presidente da Câmara no auge de seu poder. Os ex-ministros José Dirceu e Antônio Palocci, hoje presos, também foram citados pelo doleiro. O PP, partido onde operava o doleiro, foi o que teve mais políticos com mandato parlamentar investigados na Lava Jato. Os inquéritos correm no Supremo Tribunal Federal.

    Sergio Moro chegou a escrever em um despacho que Youssef era um “profissional do crime”. Mesmo reincidente, Youssef foi considerado um bom delator porque as investigações em geral confirmavam o que ele dizia nos depoimentos. “Tudo que ele revelou na delação se comprovou”, disse ao Estadão o delegado Márcio Anselmo, que participou do início das investigações.

    Banestado foi o primeiro perdão de Moro

    Condenado por participar de um esquema de empréstimos fraudulentos envolvendo o Banco do Estado do Paraná (Banestado), Alberto Youssef assinou, em 2004, o primeiro acordo de delação premiada do Brasil. A delação foi homologada pelo juiz do caso, Sergio Moro, na época com apenas 31 anos.

    O doleiro pagava propinas para que empresas conseguissem crédito no banco público. O Banestado também era o local onde doleiros abriam contas em nome de laranjas para enviar dinheiro para o exterior.

    Youssef foi condenado a sete anos de prisão por corrupção ativa, mas com a delação cumpriu apenas um ano e se livrou de outras acusações envolvendo o Banestado. Segundo o Ministério Público, o acordo “permitiu a investigação de centenas de crimes” e foi “uma das mais frutíferas colaborações da história”.

    Moro chegou a se declarar suspeito para julgar Youssef em outro processo em 2010. O juiz explicou mais tarde que fez isso porque, em sua avaliação, a nova investigação contra o doleiro descumpria o acordo de delação firmado anos antes.

    “Não cabe a autoridade policial concordar ou não com os termos do acordo de delação premiada, que foi feito perante este Juízo envolvendo mais de uma dezena de membros do Ministério Público Federal e do Ministério Público Estadual”, explicou na época.

    O acordo foi invalidado em 2014 pelo próprio Sergio Moro logo após a prisão do doleiro na Lava Jato. O juiz entendeu que Youssef tinha desrespeitado o acordo firmado em 2004 ao voltar a cometer crimes.

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