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Como o governo Trump ameaça os compromissos contra o aquecimento global

Presidente eleito se refere ao aumento de temperatura no planeta como ‘boataria’ e indica negacionista para agência de meio ambiente

 

Donald Trump considera o aquecimento global “uma boataria”. Eleito presidente dos EUA no dia 8 de novembro, ele pretende nomear, a partir de janeiro, quando assume a Casa Branca, um time de “negacionistas” - pessoas que, como ele, afirmam que as mudanças climáticas provocadas pela ação humana não passam de especulação sem qualquer respaldo científico.

A equipe de transição, nessa área, tem à frente Myron Ebell, que costuma se expressar em alto e bom som a favor do uso dos combustíveis de origem fóssil, sobretudo na indústria automotiva.

Ebell é um dos “colaboradores” do “Projeto Aquecimento Global”, que se apresenta como “um grupo ad-hoc [não-permanente] informal dedicado a combater o mito do aquecimento global”.

Num post publicado no dia 6 de dezembro - dois dias antes da eleição presidencial, portanto - Ebell ironizou o compromisso anunciado por Barack Obama de que as metas assumidas pelos EUA em relação ao clima permaneceriam vigentes independentemente de quem fosse o candidato eleito.

Ao falar dos compromissos em relação à redução da emissão de gases, Obama havia declarado, em Issy-les-Moulineaux, na França, o seguinte: “Mesmo que alguém de um partido diferente me suceda [como acabou acontecendo, com a vitória de Trump], uma das coisas que você percebe, uma vez que assume esse trabalho, é que você passa a pensar diferente de quando estava apenas concorrendo para o cargo [de presidente]”.

Ao comentar a declaração, Ebell escreveu: ele [Obama] “confirmou sua intenção de que o Acordo do Clima de Paris [de redução de gases] irá vincular o próximo presidente, mesmo que ele [Obama] seja sucedido por um republicano [Trump] que se oponha ao tratado”. Ao lado do comentário, Ebell publicou uma montagem na qual o Leviatã [criatura mitológica evocada para representar o Estado] aparece com o rosto de Obama.

“[Trump] fez várias promessas, em várias ocasiões, sobre energia e clima. Eu acho que é bem claro. É preto no branco”

Myron Ebell

Cotado para assumir a agência ambiental americana no governo Trump, em entrevista à “National Geographic

Num longo perfil publicado em maio de 2007, a revista “Vanity Fair” apresentou Ebell como um “lobista da indústria energética”, com enorme conhecimento de políticas públicas, capacidade de convencimento e persuasão.

Mais recentemente, publicações americanas, como a “National Geographic” e a “Scientific American”, passaram a dar como certa a indicação de Ebell para coordenar a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos).

Citando cientistas americanos, a “National Geographic” prevê um “caos” provocado pelo governo Trump na área do meio ambiente e das mudanças climáticas, lembrando que “se a espécie humana não reduzir as emissões de gás imediatamente, estudiosos do clima afirmam que a temperatura na Terra subirá 11º Celsius até 2100, em comparação com as temperaturas registradas na Era Pré-Industrial [iniciada no século 18], provocando o aumento das secas e dos incêndios, o aumento do nível dos mares e grandes alterações na agricultura”. 

O que é a EPA

O órgão para o qual Ebell é cotado se chama Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (ou, em inglês, United States Environmental Protection Agency, EPA). Ela foi criada em 1970 pelo então presidente Richard Nixon. O chefe da EPA sempre é indicado pelo presidente da República e, após passar por sabatina na Câmara e no Senado, assume o cargo com status de ministro, embora a agência não seja um ministério.

Cabe à EPA regular assuntos sanitários e de meio ambiente nos EUA. Ela assessora e aconselha tecnicamente o Congresso em temas legislativos, assim como os governos dos 50 Estados americanos. Além disso, tem o poder de impor sanções a entes públicos e privados em casos de descumprimento das normas. 

Mudanças de rumo

Quais as chances de Ebell assumir

A indicação para o cargo é uma atribuição exclusiva do presidente dos EUA. Logo, não há qualquer impedimento legal para que Trump siga adiante, nomeando Ebell para a EPA a partir de 20 de janeiro, que é quando o republicano assume a Casa Branca.

Quais as chances de Ebell não assumir

Apesar de Trump ter a prerrogativa da indicação, o indicado precisa, primeiro, passar por sabatina no Congresso. Mesmo que os republicanos tenham maioria no Legislativo, o próprio Trump nunca foi unanimidade no partido. Por isso, ainda é uma incógnita a forma como ele vai se relacionar com deputados e senadores - muitos dos quais, durante a campanha, viram em Trump uma figura nefasta. Além disso, haverá pressão de cientistas, de parte importante da imprensa e da opinião pública mundial.

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