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3 motivos que levaram à vitória de Trump. E 5 consequências imediatas

Desglobalização, nativismo e demografia explicam vitória inesperada. Mudanças de rumo devem começar pela economia, defesa, migração, meio ambiente e relações com Moscou

    O empresário republicano Donald Trump foi eleito na madrugada desta quinta-feira (9) o 45º presidente dos EUA, contrariando a maioria das pesquisas de intenção de voto, todas as estimativas de probabilidade e até mesmo a campanha negativa feita pelos maiores jornais americanos ao longo da campanha eleitoral.

    A vitória de Trump frustra a possibilidade de os EUA elegerem em 2016, pela primeira vez em mais de 200 anos de democracia, uma mulher para presidente. A candidata democrata Hillary Clinton foi uma favorita seguida de perto por Trump. Sua derrota interrompe oito anos de administração democrata na Casa Branca.

    Trump assumirá no dia 20 de janeiro, quando o atual presidente, Barack Obama, se despede de seu segundo mandato. O Partido Republicano, de Trump, também assegurou maioria no Senado e na Câmara, abrindo caminho para reformas profundas.

    Campanha de ódio

    A marca da campanha de Trump foram as declarações agressivas, sobretudo a respeito das mulheres e dos imigrantes, o que lança dúvidas sobre como o presidente eleito transformará sua postura de comício numa postura de governo.

    O bilionário - que antes de se lançar candidato, era estrela de um reality show na TV - se apresentou como um personagem indomável, rebelde em relação a tudo o que representasse o establishment, fosse contra os políticos tradicionais de maneira geral, fosse contra o seu próprio partido.

    O jornal americano “The Washington Post” - que endossou abertamente a campanha de Hillary - classificou a plataforma de Trump como “a política do dedo do meio”.

    Uma das dúvidas agora diz respeito à formação do novo gabinete de governo, uma vez que Trump sequer foi ungido pelos caciques do Partido Republicano. O ex-governador do Texas, o também republicano Rick Perry, já havia chamado Trump de “câncer conservador”.

    Três fatores que explicam a escolha do eleitorado americano

    Desglobalização

    Trump se referiu, ao longo das primárias e da campanha, à globalização como um fenômeno nocivo para a economia americana. Ele apelou para a classe média trabalhadora - sobretudo a desempregada - prometendo trazer de volta aos EUA os empregos que foram criados no exterior, no processo de internacionalização das empresas americanas.

    Esse apelo à “desglobalização” não é exclusividade da campanha republicana. No Reino Unido, o discurso protecionista e nacionalista fez triunfar em plebiscito a proposta de retirar o país da União Europeia, num processo apelidado de Brexit, em junho.

    “Forças nacionalistas capitalizaram o descontentamento provocado pela fraca recuperação da crise econômica global. Nacionalistas culparam o comércio internacional e os estrangeiros pelo fracasso dos governos nacionais. É mais fácil culpar os outros do que encarar os próprios problemas”, disse ao Nexo, em outubro, Simon Evenett, professor de Comércio Internacional e Desenvolvimento na Faculdade de Economia da Universidade de St. Gallen, na Suíça.

    Nativismo

    Outro ponto de apoio da campanha triunfante de Trump foi o apelo ao nativismo - nome dado à política de legitimar as razões dos cidadãos considerados nativos de um determinado lugar, em detrimento dos que são vistos como “os outros”.

    Trump chamou os imigrantes mexicanos de estupradores e traficantes, generalizou afirmações preconceituosas que ligavam o islã ao terrorismo e prometeu construir um muro na fronteira sul dos EUA, dando concretude a um discurso nacionalista exacerbado.

    O nativismo “é um fenômeno que irrompeu sobretudo em períodos de crise, como nos anos 1790, 1870, 1890 e, mais tarde, em 1918. Não é algo novo. Desde 2008 os EUA vêm vivendo uma crise social e econômica de baixa intensidade, logo, esse tipo de reação não chega a causar surpresa”, disse ao Nexo o historiador canadense Jeremy Adelman, diretor do Laboratório de História Global da Universidade de Princeton, no Estado americano de Nova Jersey.

    Demografia

    A candidatura de Trump ficou conhecida pelo apoio fervoroso de um núcleo duro formado pela classe média branca, trabalhadora, moradora das cidades do interior, com menor nível de escolaridade.

    Apesar dessa marca, no entanto, Trump conseguiu romper bolsões de aceitação e extrapolou sua mensagem para fora desse círculo previsível, arrancando votos importantes em Estados que eram tidos como mais propensos a votar nos democratas dessa vez, como a Flórida.

    Alguns analistas apostavam que as declarações misóginas de Trump terminariam por drenar apoio do eleitorado feminino branco, além das perdas consideradas inevitáveis entre o eleitorado de origem latina e os negros. A vitória, no entanto, sugere que episódios como o vazamento de um vídeo no qual ele diz que pode fazer o que quiser com as mulheres não tiveram força suficiente para lhe tirar votos na reta final.

    Consequências para o futuro

    Algumas áreas devem sofrer mudanças bruscas com a chegada de Trump à Casa Branca.

    Ao longo da campanha, ele anunciou o desejo de recuperar o poderio militar americano perdido desde a Guerra Fria. “Nosso arsenal de armas atômicas - nossa última linha de defesa - foi levado à atrofia e se encontra em necessidade desesperada de modernização”, disse em 27 de abril.

    Ele também indicou que pretende delegar mais responsabilidades aos parceiros da Otan (Aliança do Tratado do Atlântico Norte), como forma de aliviar o peso do orçamento americano de defesa.

    Outra promessa que deve se concretizar é a da construção de muro na fronteira com o México, para conter a imigração. “Eu vou construir um grande muro - e, acredite, ninguém constrói muros melhor do que eu - e vou fazer isso de um jeito muito barato. Eu vou construir uma grande muralha em nossa fronteira sul, e vou fazer o México pagar por isso. Anote essas palavras”, proclamou em 23 de setembro, e reafirmou em visita ao México no dia 31 de agosto: “Os Estados Unidos têm o direito de construir um muro fronteiriço”.

    Por fim, a economia americana deve protagonizar uma virada protecionista, com consequências para toda a economia mundial. “Fechar-se para o comércio internacional e para a movimentação de pessoas têm impactos negativos na produtividade do país e do mundo, principalmente em se tratando de uma economia como a americana”, disse ao Nexo o professor de economia Gesner Oliveira. Após a eleição, a Bolsa de Tóquio caiu 5,36% e a do México, 10,2%.

    Trump deve rever ainda compromissos assumidos por Obama em relação ao consumo de combustíveis fósseis, tomando como base suas declarações de descrédito em relação às causas do aquecimento global.

    Por fim, o candidato manteve uma postura enigmática em relação à Rússia. Durante a campanha, Trump sugeriu que o presidente Vladimir Putin espionasse e-mails da adversária, Hillary Clinton, dando lugar a rumores e anedotas de que seria o candidato preferido do Kremlin.

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