Por que estudantes largam a faculdade no Brasil

Estudos apontam altos índices de desistência no ensino superior nacional, que variam de acordo com área do conhecimento, região e tipos de processos seletivos, entre outros fatores

     

    As taxas de desistência no ensino superior são uma preocupação constante de pesquisadores e autoridades. Os números variaram nos últimos anos, com a implementação de políticas de financiamento e novas formas de seleção, porém permaneceram elevados.

    Atualmente, o índice de evasão no Brasil, nas instituições públicas e privadas, é de cerca de 20%, de acordo com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). O número de estudantes matriculados ultrapassa sete milhões.

    Na USP (Universidade de São Paulo), maior instituição pública do país, o índice de evasão equivale ao nacional -  20,2%, segundo um estudo realizado pela Pró-Reitoria de Graduação da instituição entre 2000 e 2015.

    No geral, apontam pesquisas, as desistências estão menos associadas a escolhas equivocadas de áreas de estudo e mais ligadas às dificuldades de permanência na universidade, seja por questões financeiras ou capacidade de acompanhamento das aulas. O segundo fator é decorrência da defasagem da educação básica.

    Discrepâncias da evasão

    Os números relacionados à desistência variam de diversas formas: entre tipos de cursos, áreas do conhecimento, região do país, sistema público e privado e, até mesmo, forma de ingresso utilizada para acessar a instituição.

    Essas discrepâncias são inclusive um obstáculo para a realização de pesquisas sobre o tema, que devem considerar essas questões antes de tomarem conclusões sobre os fatores responsáveis pelos índices de evasão. Entenda algumas dessas variações:

    Sistema público x sistema privado

    Segundo dados do Inep, a evasão no sistema particular de ensino superior é maior que no sistema público: 25,9% ante 18,3%. O principal motivo para essa diferença é a dificuldade de pagamento da mensalidade de instituições particulares.

    Embora o quadro tenha sido amenizado nos anos seguintes por políticas governamentais de financiamento como o Fies e o Prouni, a impossibilidade de arcar com as despesas da educação permanece como principal fator para o abandono no setor privado.

    Áreas do conhecimento

    Outro fenômeno identificado por pesquisadores é o de que cursos com mais vagas remanescentes, ou seja, cuja procura é menor, apresentam mais desistências. Em 2012, a evasão era maior em áreas como Processamento da Informação (36%), Marketing (35%) e Ciências da Computação (32%). Já cursos muito concorridos, para os quais os candidatos precisam se dedicar mais para ingressar - como é historicamente o caso de Medicina - a evasão é menor.

    Essa diferença se dá, entre outros motivos, pois estudantes por vezes se candidatam a cursos menos concorridos pelo qual pouco se interessam de fato apenas para garantirem uma vaga. A falta de perspectiva profissional nessas áreas também é um fator que faz com que muitos desistam no meio do caminho.

    Forma de ingresso

    A evasão também pode variar dependendo do processo seletivo realizado pelo estudante para acessar a universidade. É o que mostrou uma pesquisa feita pelo Grupo de Trabalho sobre Evasão e Retenção das instituições federais de Ensino Superior do Brasil.

    Segundo o estudo, de 2013, por um período, a evasão nas instituições públicas federais foi menor que a média entre alunos que utilizaram sistemas seriados (em que o estudante já começa a ser avaliado no 1º ano do Ensino Médio), equivalente entre os que prestaram vestibular, e maior entre aqueles que chegaram ao Ensino Superior pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada), que permite o ingresso via a nota do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio).

    Um fator responsável pela evasão inicial de ingressantes pelo Sisu está no fato de que estudantes podiam se inscrever para diversas opções de cursos em diferentes regiões do país, sendo por vezes direcionados a uma determinada instituição que não era a de sua preferência. 

    “[Segundo esse sitema] Os melhores alunos de todos os Estados irão para as melhores universidades do país, restando para os demais cursos distantes de casa ou fora de sua preferência. Muitos deles, mesmo aprovados, acabam desistindo do ingresso na universidade. Outros, abandonam o curso”, explica a educadora Aparecida Xavier Barros, ao Nexo.

    Segundo Raul Ceretta Nunes, que pesquisa evasão no Ensino Superior na Universidade Federal de Santa Maria, houve de fato uma perturbação inicial no início da implementação do Sisu, porém que foi corrigida com o tempo.

    “A nossa conclusão foi de que no início da implementação do Sisu houve uma pequena elevação da evasão, mas que ele não estava pressionando a evasão nacional para cima. Isso foi corrigido com uma mudança de metodologia, segundo a qual o aluno poderia ter apenas uma segunda opção”, explicou ao Nexo.

    Segundo o especialista, desde que a pesquisa foi feita, a Universidade Federal de Santa Maria criou mecanismos de acompanhamento da evasão por meio de indicadores, para implementar políticas de permanência estudantil a partir deles - como auxílio moradia e alimentação para estudantes de baixa renda de outras regiões do país e acompanhamento acadêmico.

    “As universidades públicas não sabem as causas que estão maximizando sua evasão. A privada tem uma causa bem identificada que é o valor da mensalidade e essa causa é cuidada pelos gestores anualmente através de apoios governamentais e financiamento estudantil. Na pública, a culpa [pela evasão] é da reprovação? É falta de apoio financeiro? É preciso identificar os outros fatores para corrigi-los.”

    Raul Ceretta Nunes

    Pesquisador da Universidade Federal de Santa Maria, ao Nexo

     

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