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Como o racismo se apresenta em tempos de Uber e Airbnb

Estudo revela que pessoas negras esperam mais por carros no Uber. No Airbnb, pedidos de reserva são negados

     

    Um estudo feito pelo National Bureau of Economic Research, órgão americano de pesquisas relacionadas à economia, constatou que pessoas negras esperam 35% mais tempo por um carro no Uber. Mais: a frequência de cancelamento das corridas é duas vezes maior se o usuário têm um nome de origem afro-americana.

    A pesquisa analisou 1.500 corridas em três aplicativos de transporte que operam nos EUA - Uber, Lyft e Flywheel. As rotas, nas cidades de Seattle e Boston, eram controladas. Os números mostraram, segundo os pesquisadores, um “padrão de discriminação”. Além de questões de racismo, há também um viés de gênero: se a cliente for mulher, a tendência era que os motoristas fizessem corridas mais longas e mais caras.

    A diferença na espera foi percebida entre motoristas do UberX, a versão mais barata e popular do Uber, e do Lyft, aplicativo que tem o mesmo funcionamento, em uma escala menor. Os dados do Flywheel, outro aplicativo de caronas compartilhadas, não mostraram diferenciação entre os usuários.

    Chances de a corrida ser cancelada aumentam se o passageiro for homem negro

    Segundo os dados, há diferença “significativa” no tempo de espera entre os usuários do UberX - o que, para os pesquisadores, é uma evidência de discriminação entre os motoristas da empresa.

    Os resultados mostram que as chances de cancelamento aumentam se o passageiro é homem e a região é pouco densa populacionalmente. Nesses casos, um homem negro tem quatro vezes mais chance de ter sua corrida cancelada do que um homem branco. Se o ponto de partida for próximo a uma estação de metrô, essas chances aumentam ainda mais - provavelmente porque indicam que o passageiro optou por modalidades de transporte mistas, o que pode significar uma renda menor.

    No UberX, os motoristas veem a foto e o nome da pessoa que está solicitando o serviço só depois de confirmarem a corrida. No Lyft, os motoristas conseguem ver a foto antes de aceitar. Por isso, a discriminação acontece de maneira diferente nos dois aplicativos: no primeiro, com a demora e o cancelamento dos motoristas; no segundo, a discriminação acontece quando os motoristas não aceitam a corrida ao ver a foto.

    Os pesquisadores são cautelosos ao afirmar que se trata do comportamento individual dos motoristas e não algo que passe pela política das empresas donas dos aplicativos. E também lembram que, entre os táxis, também há discriminação: é mais fácil para um homem branco conseguir uma corrida.

    Eles recomendam às empresas que evitem identificar os passageiros com nomes - no lugar, códigos poderiam ser usados - e adotem desincentivos para cancelamentos.

    Em nota, o Uber nos EUA afirmou que os aplicativos de compartilhamento de caronas estão mudando o status quo nos transportes, que tem sido desigual por gerações, e tornando mais acessível o acesso a transportes. “A discriminação não tem espaço na sociedade e não tem espaço no Uber”, disse a empresa ao site TechCrunch. O Lyft afirmou que a empresa teve um impacto positivo nas comunidades negras, pois através dele as pessoas têm acesso a corridas convenientes e acessíveis em áreas historicamente negligenciadas pelos táxis. “Não toleramos nenhuma forma de discriminação”, disse o porta-voz da empresa.

    Denúncias no Airbnb motivaram reação da empresa

    Não é a primeira vez que um estudo analisa discriminação em aplicativos do tipo. E não é a primeira vez que se encontram evidências de tratamento diferenciado quando o cliente é negro.

    Pesquisadores da Universidade de Harvard publicaram um estudo em 2015 que detalha evidências sobre discriminação racial no aplicativo de aluguéis Airbnb. Analisando dados de Nova York, eles perceberam que anfitriões negros ganham menos dinheiro alugando quartos ou apartamentos do que brancos.

    Nas páginas dos espaços para locação, há um perfil do anfitrião com uma foto. Para os pesquisadores, “essas plataformas tornam fácil discriminar”. Uma saída seria eliminar a foto, já que, para eles, não há razão prática para o interessado ver a cara do anfitrião antes de fazer a reserva.

    Números e campanhas fizeram o Airbnb rever suas políticas

    No mesmo aplicativo, do lado dos clientes, também há evidências de discriminação. Se o interessado tiver um nome comum na população afro-descendente dos EUA - como Jamal, Tyrone ou Lakisha, entre outros - a chance dele ter sua reserva aceita é 16% menor.

    Os números foram confirmados empiricamente por usuários, que divulgaram casos de racismo por meio da hashtag “#AirbnbWhileBlack”. As denúncias obrigaram a empresa dona do aplicativo a se pronunciar. Em setembro de 2016, o Airbnb reconheceu o problema e divulgou um trabalho em que detalha os esforços contra discriminação. Entre eles, está a contratação de um número maior de funcionários negros, mecanismos de denúncia e mudanças na maneira como é exibido o perfil dos usuários, com um destaque menor para a foto e informações mais objetivas.

    Questão racial na economia do compartilhamento

    Os aplicativos relacionados à chamada “economia do compartilhamento” permitem que qualquer pessoa alugue, venda algo ou forneça serviços a terceiros. O relacionamento entre cliente e fornecedor é construído por meio da reputação e da avaliação mútua. As empresas atuam como intermediárias, com a plataforma que conecta quem oferece o serviço e seus contratantes, e fica com uma porcentagem do pagamento.

    “As empresas de economia compartilhada fundamentam o funcionamento de suas plataformas na reputação dos usuários: as avaliações qualitativas são fornecidas com base na experiência de quem oferece um serviço ou de quem o contrata. O problema é que, nos casos de racismo, a ‘reputação’ é formalizada antes mesmo de a experiência começar”, escreveu o sociólogo e pesquisador Túlio Custódio em um texto em que relata casos de racismo no Uber e no Airbnb no Brasil.

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