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Qual o simbolismo na escolha de uma mulher para comandar a seleção feminina de futebol

Mulheres no mercado do futebol ainda enfrentam resistência - os salários são baixos e elas precisam se provar muito mais que os homens para conseguirem continuar na carreira

     

    A ex-jogadora e treinadora Emily Lima é a nova técnica da seleção feminina de futebol, conforme anúncio feito na terça-feira (1º). Desde seu primeiro amistoso, em 1986, o time brasileiro vinha sendo comandado por homens. Pela primeira vez na história do futebol feminino nacional, uma mulher foi escolhida pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para ocupar o cargo de treinadora.

    Além da vasta experiência como jogadora em times brasileiros e europeus, ela também já atuou como supervisora e auxiliar técnica na Portuguesa, no Juventus, no São Caetano e, de 2013 a 2014, como treinadora da seleção feminina Sub-17. Em 2016, à frente da equipe feminina do São José dos Campos, foi vice-campeã da Copa do Brasil.

    A escolha de Emily é um avanço diante de uma prática do futebol brasileiro que, nos últimos tempos, tem sido mais criticada pela imprensa esportiva: a resistência em contratar mulheres para o cargo de treinadora nos times femininos. No mundo, as melhores seleções femininas de futebol são treinadas por mulheres - entre elas, estão os EUA, a Alemanha e o Japão.

    Apesar do avanço, ainda há muito o que superar. Em 1941, a proibição do então presidente Getúlio Vargas de que mulheres jogassem futebol atrasou a evolução do esporte no país. A consequência é que, 80 anos depois, mesmo profissionais renomadas, com experiência fora do país e histórico de conquista de títulos no exterior são pouco valorizadas pelos times nacionais - e, quando o são, recebem bem menos que os homens que ocupam posição equivalente nos times masculinos.

    ‘Marta melhor que Neymar’

    Recentemente, o futebol feminino ganhou holofotes na Olimpíada do Rio. A habilidade técnica das jogadoras virou tema na imprensa esportiva, em conversas em mesa de bar e na internet.

    Por fim, as jogadoras brasileiras ficaram em quarto lugar na classificação geral, mas o destaque ao futebol feminino deu origem a um debate sobre as consequências da falta de estímulo e interesse pelo esporte quando disputado por mulheres no Brasil.

    As condições enfrentadas pelas jogadoras profissionais em grandes times nacionais são diametralmente opostas ao status que jogadores e técnicos homens na primeira divisão têm no Brasil. Geralmente, elas recebem pouco, são contratadas por temporadas e acabam sem emprego quando os campeonatos chegam ao fim.

    Em entrevista ao Nexo, a jornalista esportiva Roberta Cardoso, do site “Dibradoras”, especializado na cobertura de esportes femininos, contou que emissoras que compram direitos de transmissão esportiva e a CBF não parecem empreender grandes esforços para aumentar a visibilidade do futebol feminino - e atrair patrocinadores.

    “Por que todo mundo, de repente, começou a amar Super Bowl? Porque a ESPN transmite, divulga, investiu no jogo estrangeiro e, de repente, virou febreca irá investir dinheiro e patrocinar um time feminino se não terá visibilidade? O jogo delas não passa na TV, não é divulgado nos jornais e noticiários, os jogos são disputados às 15h de uma terça-feira”, analisa.

    A escolha de Emily para treinar a seleção feminina parece ser uma resposta a esse debate recente - um reconhecimento, pressionado pelo debate público, de que existem mulheres capacitadas para gerir times de sucesso no mercado brasileiro. Ela também vem em seguida à decisão da Confederação Sul-Americana de Futebol que determina que todos os times que quiserem disputar a Libertadores precisarão manter uma equipe feminina.

    “Acima de tudo, ela foi escolhida porque é capacitada para desempenhar tal função. É uma mulher que vive o futebol há muito tempo e está em constante atualização. A carreira de treinadora da Emily é repleta de conquistas importantes e simboliza uma evolução dentro de um meio tão machista (como o futebol) e tão atrasado quando se refere à presença feminina no esporte (seja jogando, treinando, gerindo ou apitando)”

    Roberta Cardoso

    Repórter do site "Dibradoras", em entrevista ao Nexo

    Mulheres na comissão técnica

    A equipe permanente da comissão técnica da seleção feminina de futebol sempre foi formada apenas por homens. Assim foi inclusive com a equipe tática de Vadão, o último treinador.

    Em 2015, o "Dibradoras" perguntou ao coordenador de futebol feminino da CBF, Marco Aurélio Cunha, o que faltava para que mulheres tivessem mais chances em posições de comando técnico no Brasil.

    “É preciso ter mulher preparada, capacitada. O que acontece é que aquelas que terminaram a carreira, salvo raras exceções, não continuaram na atividade porque economicamente não é viável”, respondeu. “Não basta ser ex-jogadora”.

    Em uma coluna no site, Renata Mendonça, do “Dibradoras”, contestou a afirmação: primeiro, porque o Brasil tem bons exemplos de técnicas talentosas que são aclamadas em países onde o futebol feminino é mais valorizado, como a ex-jogadora Sissi, que treina times femininos nos EUA há 12 anos.

    Depois, porque a parte em que Cunha aponta que mulheres saem da carreira esportiva no futebol porque não é economicamente viável - ou seja, os salários são muito baixos - é um problema perpetrado pela CBF: quando Emily Lima comandou as seleções sub-15 e sub-17 em 2014, ela precisou deixar o cargo por problemas financeiros, já que não recebia um salário mensal e só era paga quando havia competições.

    Por fim, destaca Mendonça, a CBF não parece ter o mesmo nível de exigência em termos de experiência e preparação quando se trata de técnicos homens. Dunga foi nomeado treinador da seleção em 2006 sem nenhuma experiência prévia na função, e depois do 7 a 1, voltou a ser convocado para o cargo, ainda que em 4 anos tenha acumulado apenas 9 meses de experiência como técnico do Internacional.

    “O homem não precisa provar que é capaz, mas a gente precisa provar a cada dia que nós somos capazes de estar nesta função. Eu acho que é uma questão cultural, mas as coisas estão mudando.”

    Emily Lima

    Técnica da seleção feminina brasileira de futebol, em entrevista ao site Trivela

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