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O que é o movimento pró-prévias presidenciais. E o que ele não quer ser

Grupo pede primárias para escolha de candidato único do ‘campo progressista’ nas eleições presidenciais, mas rechaça etiqueta de ‘esquerda’

    Um grupo formado por “movimentos sociais, partidos, coletivos, ativistas, estudantes, empresários, empreendedores etc.” anunciou que lançará na terça-feira (8) uma campanha pela realização de prévias para determinar quem será o candidato das “diferentes correntes e segmentos do campo progressista” nas eleições presidenciais de 2018.

    O grupo, que não quer ser chamado “de esquerda”, pretende unificar os votos num único nome, aumentando as chances de vitória diante do avanço do “campo conservador”. O lançamento da proposta coincide com o pior desempenho dos 37 anos de história do PT e com o fraco desempenho de partidos como a Rede e o PSOL nas eleições municipais de 2016 quando comparados com siglas adversárias, como o PMDB e o PSDB.

    O Nexo conversou com o empresário Rogério Silva, um dos cinco porta-vozes do grupo. Ele é sócio da empresa Move, que trabalha com consultoria nas áreas de educação, direitos humanos e meio ambiente, e participa desde o início da formulação da proposta expressa no site ���Quero Prévias 2018”.

    O que é a proposta

    O grupo pretende reunir apoio popular suficiente para fazer com que os partidos políticos definidos como “progressistas” aceitem o compromisso de participar de uma espécie de primárias antes das eleições presidenciais de 2018.

    O que é ‘progressista’, segundo o grupo

    O nome é empregado pelo grupo para se referir a “atores preocupados com a democracia, com a defesa dos princípios da Constituição de 1988 e com a redução da desigualdade no Brasil”. Não há menções a siglas específicas, nem a candidatos.

    Qual a utilidade da proposta

    Ao entrar na eleição com um candidato único, esse setor político espera reunir um maior número de votos em torno de um único candidato, em vez de dividir os votos entre vários candidatos da mesma corrente.

    Quem pode votar nas prévias

    Ainda não está claro. O grupo se diz “aberto à participação de todos os brasileiros”, mas não especifica se a votação nas primárias seria virtual ou presencial, em nível nacional ou em apenas alguns locais. Também não há informação disponível sobre o calendário e sobre quem comandaria o processo de votação e a apuração.

    Qual o valor jurídico

    O porta-voz do grupo reconhece que a prévia “não tem valor jurídico”. Ela depende da aceitação dos partidos envolvidos e do compromisso dos políticos em aceitar o resultado, seja ele qual for.

    Qual o cronograma

    A proposta ainda “está na última semana de gestação”, segundo Rogério Silva. Alguns partidos já começaram a ser contactados. Espera-se que as legendas confirmem ainda em dezembro a adesão formal à proposta.

    Quem teve a ideia

    Segundo Rogério Silva, há um mês tiveram início reuniões de grupos de 30 pessoas em São Paulo e de 20 pessoas no Rio de Janeiro, com a participação de acadêmicos, empresários, moderadores e consultores. O grupo era “pouco diverso do ponto de vista social e geográfico”, mas a base se expandiu rapidamente.

    Dia 30 de outubro circulou versão beta entre 917 pessoas reunidas num grupo de troca de mensagens por celular, o Telegram. Outra plataforma de troca de mensagens instantâneas, o Slack, serviu de base para a “formulação das decisões”.

    O grupo evita ter de nomear alguns de seus participantes, pois prefere reforçar a ideia de que não se trata de um clube de personalidades. Ao Nexo, Rogério Silva disse que, entre os 917 membros atuais, estão “Aldo Fornazzieri, Warley Alves, João Brant, Alessandra Orofino, Laura Carvalho, Sérgio Sampaio, Cassio França, Ursula Peres, Vera Masagão, Ana Carolina Evangelista, Marcos Nobre, Rosana Pinheiro Machado, Patrícia Santin, Ricardo Teperman, Maria Brant, Fernando Rugitsky, Rodrigo Araújo”.

    Qual a receptividade dos pré-candidatos

    Rogério Silva diz que o grupo fez contato com alguns nomes que despontam como possíveis candidatos em 2018 - “encontramos simpatia” no contato com o petista Tarso Genro, disse o porta-voz.

    No caso de Marina Silva (Rede), “os assessores foram simpáticos”. Ciro Gomes (PDT) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) têm “abertura para o diálogo”. Ele afirma que já há uma agenda de diálogo com os partidos, mas ela não é divulgada.

    O que o grupo não quer ser

    Rogério Silva refuta a classificação como “de esquerda” e diz que o grupo é “horizontal” e “aberto à participação de todos os brasileiros”. Ele explica que a ideia “não é promover prévias da esquerda. São prévias de atores preocupados com a democracia e com a defesa dos princípios da Constituição de 1988, com a redução da desigualdade”.

    “Evitamos caracterizar como um movimento de direita ou de esquerda, pois isso reduz o debate. Não tem um esquerdômetro instalado na porta de entrada no movimento”, diz.

    Outro comentário que é visto como crítica pelos organizadores é o de que se trata de uma iniciativa de “intelectuais” ou da “academia”.

    O site do movimento, porém, diz que a ideia partiu “de um impulso de setores da academia”. “Não temos nada contra os intelectuais - na verdade, é um privilégio tê-los - mas a iniciativa é bem mais ampla”, diz Rogério Silva.

    Quais os antecedentes

    Ao contrário de países como os EUA - onde as primárias são obrigatórias - no Brasil elas só acontecem se os partidos decidem realizá-las.

    Em São Paulo, por exemplo, o PSDB recorreu às prévias para definir quem seria seu candidato a prefeito nas eleições de 2016. O vencedor foi João Doria, que acabou eleito prefeito de São Paulo em seguida.

    O PT também já teve prévias internas. O estatuto do partido diz que elas devem ser realizadas sempre que houver mais de um pré-candidato. Em 2002, Eduardo Suplicy disputou com Lula a prévia que determinou quem seria o candidato à Presidência da República naquele mesmo ano. Lula ganhou a prévia e a eleição presidencial. Em 1988, Luiza Erundina - hoje no PSOL - disputou prévias com Plínio de Arruda Sampaio - já falecido - pelo direito de concorrer à Prefeitura de São Paulo. Erundina venceu tanto a prévia quanto a eleição.

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