Como uma rede de conexões místicas pode derrubar a presidente da Coreia do Sul

Primeira mulher a presidir o país é acusada de abrir segredos de Estado para conselheira pessoal, cuja ligação remonta quase 40 anos de proximidade entre misticismo e poder

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    Uma mistura de corrupção e misticismo ameaça levar ao fim prematuro do mandato da primeira mulher a presidir a Coreia do Sul. Park Geun-hye é acusada por adversários de se deixar controlar por uma conselheira mística que tinha acesso a assuntos de Estado, embora não fosse membro do governo.

    O escândalo teve início depois que o canal de TV sul-coreano Chosun mostrou imagens da conselheira Choi Soon-sil dando ordens à presidente e comentando o itinerário de uma viagem internacional que Park faria dias depois. Choi também aconselha a presidente sobre o que vestir e que cores usar de acordo com cada dia da semana.

    Além do vídeo, jornais sul-coreanos também publicaram arquivos de um ipad que teria pertencido à conselheira Choi. No aparelho, havia documentos secretos da Presidência, alguns com marcações em vermelho e com comentários, indicando que a conselheira orientava a presidente sobre como agir e o que dizer.

    As revelações levaram milhares de manifestantes às ruas da capital, Seul, numa onda de protestos que pedem a saída de Park do cargo. A presidente viu sua popularidade cair e a oposição no Parlamento crescer, levantando temores de que seu mandato de cinco anos, programado para terminar em fevereiro de 2018, tenha um fim prematuro.

    As acusações

    Misticismo

    A presidente Park Geun-hye teria dado acesso a documentos secretos, entre eles itinerários de viagem e 44 discursos presidenciais produzidos de 2012 a 2014, a a sua conselheira pessoal, Choi Soon-sil, que seria responsável por orientar a presidente até mesmo sobre que cores vestir a cada dia.

    Corrupção

    A conselheira da presidente, Choi Soon-sil, tem ligação com duas fundações que receberam R$ 69 milhões em doações. A Justiça investiga se membros do governo agiram para pressionar empresas a doarem para essas fundações, em nome da presidente. Lee Seung-chul, aliado de Park e vice-presidente da Federação das Indústrias da Coreia do Sul, é suspeito de ser o captador dos recursos, e foi chamado a depor.

    O que a presidente diz

    Primeiro, Park disse que as acusações não tinham o menor sentido. Com a publicação das imagens, voltou atrás. A presidente diz que Choi é uma antiga amiga da família, que, ao longo de muitos anos, sempre ofereceu apoio em momentos difíceis. Ela também afirma que Choi dava apenas opiniões pessoais e ajudava “sugerindo frases e coisas assim”. A presidente demitiu oito colaboradores próximos ligados à crise.

    O que a conselheira diz

    Assim que o escândalo explodiu, Choi Soon-sil viajou para a Alemanha. A conselheira da presidente não está sendo processada e diz que, se for, cooperará com a justiça. Os advogados de Choi também dizem que ela cumprirá qualquer pena, caso seja declarada culpada de algum crime. Ela voltou ao país e depôs nesta segunda-feira (31).

    Famílias têm ligação antiga

    O pai da presidente e o pai de sua conselheira também foram ligados por escândalos semelhantes aos atuais, nos anos 1960 e 1970.

    A conselheira envolvida no escândalo atual é filha de Choi Tae-min, um místico fundador de uma seita chamada Igreja da Vida Eterna. Ele era muito próximo do pai da atual presidente, o general Park Chung-hee.

    Park chegou ao poder em 1961 por meio de um golpe de Estado. Ele permaneceu no cargo até ser assassinado em 1979. Durante todo esse período, Choi Tae-min foi seu braço direito.

    A estreita ligação entre o ditador e seu conselheiro, no entanto, teve desfecho mais trágico do que o escândalo atual está tendo até o momento.

    O general Park Chung-hee acabou assassinado por Kim Jae-gyu, à época diretor da agência de inteligência sul-coreana, a KCIA. O assassino disse à Justiça que cometeu o crime porque o presidente não fazia nada para impedir que o místico Choi Tae-min se aproximasse dos assuntos de Estado.

    O jornal americano “The New York Times” lembrou que, nos anos 1970, corriam rumores na Coreia do Norte de que a hoje presidente - à época apenas a jovem filha do ditador Park Chung-hee - havia sido engravidada pelo místico.

    Em 2007, telegramas confidenciais da Embaixada dos EUA em Seul, publicados pelo Wikileaks, afirmavam que o místico Choi “teve controle completo sobre o corpo e a alma de Park durante seus anos de formação”.

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