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Por que uma cidade que parece segura pode se tornar mais segura de fato

Pesquisadores do MIT fizeram testes com fotos de vizinhanças para descobrir quais fatores passam a impressão de segurança

     

    Em seu clássico livro de 1961, “Morte e vida de grandes cidades americanas”, a jornalista e ativista Jane Jacobs levantou a hipótese da “vigilância natural”.

    Segundo essa hipótese, os próprios cidadãos contribuem para a segurança das cidades que habitam quando têm a possibilidade de vigiá-las.

    Para que isso ocorra são necessárias características como ruas iluminadas e construções com janelas voltadas para as ruas.

    A obra de Jane Jacobs foi pioneira na ideia de que qualidades físicas de determinadas áreas urbanas são determinantes para fomentar atividades que geram mais segurança.

    Agora, em outubro de 2016, um artigo intitulado “Vizinhanças que parecem ser mais seguras são mais vibrantes?” buscou compreender a relação entre a sensação de segurança que uma área inspira e o movimento de pessoas no local - que, segundo a linha de pensamento inaugurada por Jane Jacobs, reforça a segurança em si à medida que há mais gente para fazer a vigilância, em um ciclo virtuoso.

    O artigo foi escrito por pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e de instituições italianas de pesquisa. A conclusão é que áreas arborizadas e com janelas voltadas para as ruas inspiram segurança. E que as vizinhanças que aparentam ser seguras têm mais movimento, em especial de mulheres e de pessoas com mais de 50 anos.

    A pesquisa, que corrobora conceitos antigos, pode contribuir para a implementação de modelos de urbanização que tornem bairros menos assustadores, atraindo mais movimento e, potencialmente, diminuindo a criminalidade.

    Aparência de segurança e atividade humana

    Para chegar a essas conclusões, a pesquisa buscou primeiro determinar que regiões inspiravam segurança para, depois, medir o movimento de pessoas nesses locais e descobrir quem era esse público.

    Medindo a aparência de segurança

    Primeiro, os pesquisadores organizaram um site com imagens das ruas de algumas grandes cidades do mundo. Quem acessa a página da pesquisa é instado a clicar na imagem que inspira mais segurança, se a da direita ou a da esquerda. Com base em 1,4 milhão de respostas, os pesquisadores conseguiram determinar quais imagens trazem a sensação de segurança ou medo.

    Dentre o ranking das cidades pesquisadas, que continua a ser atualizado, Belo Horizonte é a que inspira menos segurança, seguido por Rio de Janeiro, Garborone, a capital de Botswana, e São Paulo. As cidades que inspiram mais segurança são Washington, nos EUA, Sidney, na Autrália, e Toronto, no Canadá.

     

    Como determinar quais fatores fazem uma área parecer mais segura

    Para determinar que atributos contribuem para passar a sensação de segurança em uma imagem, os pesquisadores cobriram partes das fotos e repetiram os testes com os voluntários. A partir disso, foi possível entender que imagens de áreas verdes e janelas voltadas para as ruas aumentavam a sensação de segurança transmitida.

    O quadro abaixo mostra, na primeira fileira, as fotos usadas no teste original. Na segunda, o trecho da imagem que diminui a sensação da segurança e, abaixo, o trecho que aumenta a sensação de segurança.

     

    Comparando sensação de segurança com movimento de pessoas

    Um terceiro passo foi cruzar os dados de sensação de segurança com o movimento de pessoas em bairros de Roma e Milão, na Itália.

    Para medir a frequência com que pessoas iam até áreas que parecem seguras ou inseguras foram utilizadas informações obtidas a partir de seus celulares. Os dados mostraram que regiões que aparentam ser mais seguras tendem a ter maior movimentação de pessoas.

    Qual o público atraído pelas regiões que aparentam segurança

    Finalmente, os pesquisadores buscaram entender diferenças do comportamento de acordo com sexo e idade. Isso também foi feito a partir de dados de celulares.

    A conclusão foi que mulheres e pessoas com mais de 50 anos tendem a se movimentar mais por áreas que passam a sensação de segurança. E as pessoas com menos de 30 anos tendem ir menos a esses locais. A pesquisa não mostra especificamente o comportamento do público masculino.

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