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Menos de 5% das cidades têm alto índice de bem-estar. O que esses indicadores mostram sobre o Brasil

Levantamento sobre as condições de serviços públicos no país revela desigualdades regionais e os principais problemas dos grandes e pequenos municípios

     

    A condição das casas da maioria dos brasileiros é satisfatória hoje em dia, mas da porta para fora a qualidade de parte dos serviços públicos ainda é “ruim” ou “muito ruim”. A avaliação faz parte do estudo realizado pelo Observatório das Metrópoles, que analisou a qualidade da oferta de serviços públicos em todas as regiões brasileiras.

    O Observatório, ligado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, avaliou indicadores de cinco categorias de serviços, com foco somente na área urbana de 5.565 municípios brasileiros.

    Os critérios avaliados

    1. mobilidade urbana: considera o tempo de deslocamento entre casa e trabalho
    2. condições ambientais: arborização, esgoto a céu aberto no entorno dos domicílios e lixo acumulado próximo às casas
    3. condições habitacionais: número de pessoas no domicílio, de dormitórios, de banheiros e material usado na construção
    4. serviços coletivos: atendimento adequado de água, atendimento adequado de esgoto, atendimento adequado de energia e coleta adequada de lixo
    5. infraestrutura: iluminação pública, pavimentação, calçada, bueiro, rampa para cadeirantes e logradouros

    A partir da análise desses indicadores, o Observatório elaborou o Ibeu-Municipal (Índice de Bem-Estar Urbano dos Municípios Brasileiros), divulgado em setembro. Por “bem-estar” os pesquisadores entendem as condições necessárias para alguém ter uma boa qualidade de vida nas cidades e que são de responsabilidade do poder público.

    A análise é feita a partir de dados do Censo Demográfico 2010 e de informações mais recentes da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), ambos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Serviços como saúde e educação não foram considerados no estudo porque não têm indicadores medidos pelo IBGE, base escolhida pelo Observatório das Metrópoles.

    O Ibeu tem uma escala que vai de zero a 1. Quanto mais próximo de 1, melhores as condições urbanas para o morador. Os índices foram agrupados nos conceitos “muito ruim”, “ruim”, “médio”, “bom” e “muito bom”.

    No quadro nacional, considerando todos os indicadores, apenas 6 cidades receberam a avaliação “muito ruim”. Entretanto, somente 273 (4,9%) foram consideradas “muito boas”. Entre os extremos, há 1.068 municípios (19%) com condições “ruins”, 2.298 considerados “médios” e 1.920 foram avaliados como “bons”.

    Buritizal, no interior de São Paulo, lidera o levantamento, com índice 0,951. Na outra ponta, ficou Presidente Sarney, interior do Maranhão, com 0,444.

    Ranking nacional

     

    Entre os piores, infraestrutura e serviços coletivos

    Quando analisadas separadamente, as condições de infraestrutura e de serviços coletivos registraram os piores índices. Nessa relação estão serviços como pavimentação, iluminação pública, tratamento de esgoto e coleta de lixo.

    Em infraestrutura, somente 28 municípios apresentam condições “boas” e apenas um “muito boa”, Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina. As falhas desses serviços são visíveis também nas capitais. Apenas Vitória foi considerada “boa”.

    91,5%

    dos municípios analisados estão em níveis “ruins” e “muito ruins” no quesito infraestrutura

    Já os serviços coletivos apresentam condições “ruins” e “muito ruins” em 54% dos municípios. “O fato de 2.617 municípios apresentar nível ruim de bem-estar urbano referente ao atendimento de serviços coletivos já demonstra que esse é um problema urbano nacional e não apenas metropolitano”, afirma o relatório do Observatório das Metrópoles.

    Novamente, Vitória está entre as capitais mais bem avaliadas. Nesse quesito, foram consideradas “muito boas” Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo, Rio, Salvador, Porto Alegre e Brasília. Já Porto Velho, Macapá, Boa Vista, Teresina, Maceió, Rio Branco e Belém apresentam condições “ruins”.

    Entre os melhores, condições ambientais e habitação

    O estudo considerou “muito favorável” para a maior parte das cidades os índices de condição ambiental. Depois de mobilidade, é o quesito com o maior porcentual de municípios (39,2%) avaliados com “muito bom”. Somado com o “bom”, ao todo 3.625 cidades têm boas condições quando analisadas a arborização e a ausência de esgoto a céu aberto ou de lixo próximos às casas.

    65%

    dos municípios têm condições “boas” e “muito boas” nos indicadores ambientais

    As cidades em condições “ruins” representam 14% do total. Já as “muito ruins” são apenas 97 municípios.

    Os resultados da análise das condições das moradias do brasileiro também apresentaram níveis “satisfatórios” em todo o país. Do universo total analisado, 30,5% atingiram índices “muito bons”.

    83%

    das cidades têm condições habitacionais consideradas “boas” e “muito boas”

    Quando se consideram as capitais, 18 têm níveis “bom” e “muito bom”. As piores estão nas regiões do Norte e Nordeste. O índice mais baixo ficou com Belém.

    Uma exceção, mobilidade urbana

    Neste quesito, o estudo considera o tempo de deslocamento entre casa e trabalho. Para a PNAD é considerado adequado gastar até 1 hora por dia nesse trajeto. A análise dessa condição mostra que os piores índices estão concentrados nas regiões metropolitanas, o que, numericamente, representa a minoria dos 5.565 municípios avaliados.

    Os piores índices são de São Paulo (0,623) e Rio (0,691), onde as pessoas gastam mais de 1 hora todos os dias no deslocamento. O melhor índice é o de Boa Vista, com 0,964.

    Em 5.388 cidades, as condições de deslocamento ficam entre “muito boas” e “boas” e, logo, trânsito não está entre os principais problemas de seus moradores.

    “De acordo com os resultados, vemos que o grande problema nacional é de infraestrutura urbana. Mas o grande problema metropolitano é a mobilidade”

    Marcelo Gomes Ribeiro

    coordenador da pesquisa e integrante do Observatório das Metrópoles

    Índice revela desigualdades regionais

    O mapa do Brasil com o quadro geral do Índice de Bem-Estar Urbano mostra os melhores resultados nas cidades localizadas nas regiões Sul e Sudeste e os piores, no Norte e Nordeste. Para o coordenador do estudo, o economista Marcelo Gomes Ribeiro, as desigualdades geográficas ainda são muito expressivas.

    “Esse debate acerca das desigualdades regionais existiu muito no país no período entre os anos 50, 60 e 70. Podia-se imaginar que de lá para cá não houvesse mais tantas diferenças em termos regionais no que se refere à questão urbana”, avalia Ribeiro, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    Os resultados gerais e os baixos índices em infraestrutura indicam, na avaliação de Ribeiro, falhas na execução das políticas públicas e dificuldades por parte do gestor para priorizar gastos de acordo com o orçamento disponível.

    Por essa razão, ele entende que os governos estaduais e federal deveriam participar mais ativamente da formulação de políticas para desenvolvimento urbano. “Uma política de forma ampla, que incorpore tanto a elaboração de projetos, quanto financiamento. Até para o financiamento não ser descolado de ações verdadeiramente importantes”, afirma.

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